sábado, 13 de março de 2010

"canto para a minha morte"

Eu sei que determinada rua que eu já passei
Não tornará a ouvir o som dos meus passos.
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir.
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar
Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque?
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,
mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida
Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A anestesia mal aplicada,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...
Oh morte, tu que és tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem.
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem,
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite...
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho que eu quero e não desejo,
mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida
(Composição: Paulo Coelho/ Raul Seixas)

Tan tan tan batem na porta, não precisa ver quem é...




Dona desses traiçoeiros
Sonhos sempre verdadeiros
Oh! Dona desses animais
Dona dos seus ideais
Oh! Dona desses animais
Dona dos seus ideais
Pelas ruas onde andas
Onde mandas todos nós
Somos sempre mensageiros
Esperando tua voz
Teus desejos, uma ordem
Nada é nunca, nunca é não
Porque tens essa certeza
Dentro do teu coração

Tan, tan, tan, batem na porta
Não precisa ver quem é
Pra sentir a impaciência
Do teu pulso de mulher
Um olhar me atira à cama
Um beijo me faz amar
Não levanto, não me escondo
Porque sei que és minha
Dona!!!
Dona desses traiçoeiros
Sonhos sempre verdadeiros
Oh! Dona desses animais
Dona dos seus ideais
Não há pedra em teu caminho
Não há ondas no teu mar
Não há vento ou tempestade
Que te impeçam de voar
Entre a cobra e o passarinho
Entre a pomba e o gavião
Ou teu ódio ou teu carinho
Nos carregam pela mão
É a moça da Cantiga
A mulher da Criação
Umas vezes nossa amiga
Outras nossa perdição
O poder que nos levanta
A força, que nos faz cair
Qual de nós ainda não sabe
Que isso tudo te faz
Dona! Dona!Dona!
(Roupa Nova - Composição: Sá & Guarabyra)

domingo, 7 de março de 2010

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Ψ DEPRESSÃO - estava sofrendo de uma grave doença

 
(...) estava sofrendo de uma grave doença depressiva e todos os esforços para me livrar dela eram vãos.
- Uma das manifestações terríveis é a falta completa da autoestima. Quanto mais ela progredia mais mais meu valor diminuia assustadoramente ante meus olhos.
- É um desalento mórbido.
- A depressão é um distúrbio do espírito, tão misteriosa e imprevisivelmente percebida pela pessoa (mente mediadora), que é quase indescritível.
- Permanece incompreensível para os que não experimentam sua forma extrema.
- É assustador verificar que o leigo, vítima de depressão grave, encontra muita coisa sobre a sintomatologia da doença mas quase nenhuma sugestão de possibilidade de cura relativamente rápida.
- Aqueles que prometem uma solução fácil são insensatos e charlatões.
- Existe a combinação farmacológica e psicoterápica, que na depressão mais grave é inócua.
- A depressão como doença, é ainda um grande mistério.
- Seus segredos tem sido revelados à ciência com relutância muito maior do que os segredos das outra doenças que nos afligem.
- Outra característica é a relutância em aceitar a realidade de que a mente encontra-se em estado de dissolução e não se procura o especialista o que contribui para a intensificação dos sintomas.
- Mas cada vez mais o confronto não pode ser adiado.
- Não dá para manter as aparências por tempo indefinido ainda que que a literatura acessível sobre depressão seja levianamente otimista fazendo crer que basta encontrar o psicofármaco certo com promessa de rápida recuperação é mais um engodo.
- Em estágio mais avançado os sintomas são sinistros: a mente acaba sendo dominada por uma anarquia desconexa. Uma bifurcação do estado de espírito,
uma lucidez relativanas primeiras horas do dia, que vai ficando cada vez mais obscura durante a tarde e à noite.
- William James, que lutou contra a depressão desistiu de encontrar uma descrição adequada, sugerindo ser essa uma tarefa quase impossível, no livro 'The varieties of Religious Experience', refere: "É uma angústia positiva e ativa, uma espécie de neuralgia psíquica completamente desconhecida na vida normal." O tempo da depressão não sofre variações, sua luz é sempre marrom escura.
- Falta de apetite, o fracasso no riso forçado e finalmente, o fracasso total da capacidade de falar... a dor feroz produz um intenso alheamento, o discurso se resume num murmúrio confuso.

 Sem expressão, monossilábico, reticente...
- Durante o cerco implacável da doença os pensamentos de morte são comuns invadindo a mente como rajadas de vento gelado... "a dor da depressão não pode ser imaginada por quem não a experimentou e ela mata, porque a angústia torna-se insuportável.

- A prevenção de muitos suicídios continuará a ser falha enquanto não se tomar consciência dessa dor. Por meio do processo de cura chamado tempo, por meio da intervenção médica, psicoterápica e em muitos casos da hospitalização.
- A maioria das pessoas sobrevive à depressão e talvez essa seja sua única bênção. Mas quanto à trágica legião dos que são levados à autodestruição nenhuma censura lhes deve ser feita, da mesma forma que não censuramos a vítima de um câncer terminal."
- Fui vencido pela doença. A tempestade que me levou ao hospital incluia o álcool do qual vinha abusando há quarenta anos. Eu o usei muitas vezes combinando com a música para permitir que a minha mente criasse visões as quais o cérebro sóbrio e inalterado não tinha acesso.

- O álcool era meu sócio mais velho e valioso cuja ajuda eu procurava diariamente, procurava-o para acalmar a ansiedade e o medo incipiente, há tanto tempo escondidos num canto do meu cérebro.
(...) "O problema é que eu fui traído por um ataque repentino, eu não podia mais beber.

- Muitas pessoas que bebem apresentam essa intolerância quando mais velhos.
- O fato é que até um gole de vinho provocava-me náuseas. 
- O amigo tinha me abandonado, não gradual como deve fazer o verdadeiro amigo, mas num tiro, me deixando indefeso, desprotegido a seco. 
- Esta foi a peça perversa, ainda que o álcool seja um forte depressivo, jamais me deprimiu durante toda a minha carreira de bebedor, o contrário aliviava a ansiedade, ele era o grande aliado que mantinha longe meus demônios, agora nada poderia impedir que esses demônios invadissem meu inconsciente. 
- A depressão pairava sobre mim há anos, esperando para dar o salto mortal. Agora eu estava no primeiro estágio da tempestade negra da depressão".
- Sinto uma espécie de anestesia, uma apatia, uma estranha fragilidade... corpo fraco, hipersensível, desajeitado, sem a coordenação normal, sentia espasmos e dores, com presságios de todo tipo de doenças terríveis.

- Uma inquietação que me mantinha sempre em movimento.
- As vítimas da depressão tornam-se perigosas para elas mesmas. É uma tempestade de sombras. - As respostas são retardadas, a quase paralisia, a energia mental quase a zero. Finalmente o corpo é afetado e sente-se esvaziado, roubado de toda a força. O desaparecimento quase total da voz o som é fraco, a libido faz uma retirada precoce como acontece em quase todas as doenças graves.

-  É a necessidade supérflua de um corpo sob o assédio de uma emegência. Perda do apetite. Sono sem sonhos. Exaustão combinada com a falta de sono.
- A depressão tem o hábito da recaída. Mas a maioria sobrevive também a essa recorrência, geralmente suportando melhor porque a experiência passada as prepara psicologicamente para enfrentar para lutar contra o monstro.
- Vale ressaltar que é um insulto dizer "aguente firme", "tenha força de vontade", "reaja", etc
- Mas foi comprovado que se o encorajamento for sincero e compassivo, enfatizando sempre o tratamento especializado, seria parte da cura com menos riscos de suicídios. 


"Perto das Trevas" - William Styron/ tradução: Aulyde Soares Rodrigues / rocco - Rio de janeiro - 1991 (Livro resultado de uma palestra/1989, Baltimore, simpósio sobre distúrbios afetivos - Departamento de Psiquiatria da Escola de Medicina Universidade Johns Hopkins)
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Edvard Munch - Expressionismo

EDVARD MUNCH (Noruega 1863-1944) - Marcou o EXPRESSIONISMO, particularmente na Alemanha e também a pintura européia do século XX. Em sua obra encontramos a mesma força de expressão e de isolamento. Para Munch, a arte era algo muito mais do que simplesmente retratar algo belo, algo perfeito ou estilizado segundo os cânones de beleza e harmonia. A arte era utilizada como arma para lutar e denunciar situações anômalas e de descontentamento e que se verificam na sociedade.
 Grande parte de sua obra revela a pessoa aprisionada dentro de si mesmo e que o mundo nunca chegou verdadeiramente a conhecer. Em uma espécie de manifesto ele escreveu: "Queremos mais do que uma mera fotografia da natureza. Não queremos pintar quadros bonitos para serem pendurados nas paredes das salas de visitas. Queremos criar uma arte que dê algo à humanidade, ou ao menos assentar suas fundações. Uma arte que atraia a atenção e absorva. Uma arte criada no âmago do coração”.  Ou seja,  o artista não deve pintar realisticamente, mas sim exprimir e recriar a expressão de maneira encarar, a desnudar e literalmente GRITAR seu universo subjetivo.

sábado, 30 de janeiro de 2010

trago flores prá você!

dança bailarina, dança...







Dança, bailarina, dança...
Põe nos teus passos toda a harmonia
E toda a poesia nas pontas de teus pés
Em gestos nobres, faze surgir a fé!!!
Gira, bailarina, gira...
Vai girando e semeando amor,
Mais depressa que as voltas do mundo,
Pra que haja tempo de matar a dor!
Bailarina, baila...
Trazei contigo a primavera
Pra florir os campos, florescendo a Terra,
Numa explosão de cores que tua dança encerra.
Fazei de tua arte uma suave prece
Capaz de enternecer os corações de pedra
Fazei tua música soar tão alto
Calando assim os estopins da guerra!!!
Mostra ao homem que o teu bailado
Expressa a vida nesse simples ato...
Onde o amor é tudo, onde o amor é nato.
Que em teus saltos ponhas tua garra
Seguindo sempre a luz de teu clarão,
quebrando muros para unir os povos
Num universo único, onde se dêem as mãos.
Abre tua alma, no esplendor da dança...
Não desistas nunca e verás, enfim,
Bailar no campo, doce e cálida esperança,
Em meio às flores de um lindo jardim...
(Carmen Lucia Carvalho)

domingo, 8 de novembro de 2009

Ψ "O sofrimento é reduzido quando compartilhado com alguém"

Ψ  VIKTOR FRANKL - Psiquiatra Austríaco - 1905/ 1997
Na década de vinte inicia correspondência com Freud e em 1925 estudante de medicina encontra-se pessoalmente com o mestre, não prossegue com a Psicanálise criando a escola de LOGOTERAPIA.


De 1933 à 1936 -  dirige o pavilhão de mulheres suicidas do Hospital Psiquiátrico de Viena. Os nazistas tomam o poder na Áustria. Sabota ordens que recebera de proceder a eutanásia de doentes mentais sob seus cuidados.


1942 - Durante a segunda guerra mundial Frankl e família são deportados para diferentes campos de concentração. No final da guerra ao ser libertado toma conhecimento que sua mulher estava em Bergen-Belsen, onde teria morrido por esgotamento. Ele foi o prisioneiro número 119.104;


1948 - Obtém doutorado em Filosofia com o tema "O Deus Inconsciente".


1955 - Torna-se Professor de Neurologia, Universidade de Viena.


1984 - "Em busca de sentido" escreve: "Quero que vocês escutem o que sua consciência diz que devem fazer e coloquem em prática da melhor forma possível, e então verão que o sucesso vai persegui-los precisamente quando esqueceram de pensar nele."


1970 - Em San Diego/ Califórnia é fundado o primeiro Instituto de Logoterapia do mundo.


Foi nos Estados Unidos onde lecionou em Havard, Dallas e Pittsburgh que atingiu notoriedade mundial a despeito de contrariar as correntes psicanalíticas dominantes.


Como conferencista visitou vários países, passou pelo Brasil em 1984, (Porto Alegre, Rio de Janeiro e Brasília).


A obra de Frankl é lida em todas as partes do mundo, "O homem em busca de sentido" é um dos mais procurados. Para melhor compreensão da Logoterapia é indicado "Psicoterapia e humanismo" (1978).


Dr Frankl trouxe para a Psicologia uma proposta revolucionária de compreensão humana ao introduzir uma nova abordagem: o homem que é um ser espiritual, mas de espiritualidade reprimida, deve ser reconhecido como unidade biopsicossocial e espiritual. Supondo a Logoterapia uma dimensão espiritual no homem, a Psicologia toma novos rumos no que se refere à prática clínica, à forma de encarar o homem. Esta mudança de paradigma resulta na humanização da Psicoterapia que antes lidava com "sujeitos", "organismos", "comportamentos", "estímulos e respostas", perdendo de vista a criatura humana que sofre e procura um sentido para a sua vida ou até para o seu sofrimento.


A Logoterapia é a terceira escola Vienense de Psicoterapia o primeiro modelo Analítico - Existencial a propor estratégias clínicas efetivas para a Psicoterapia, sem perder de vista a humanidade do homem.
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

eu sou a deusa menina!

Eu sou a deusa menina
cheiro de flores

Eu sou a deusa menina
do amanhecer

Eu sou a deusa menina
eu sou uma bailarina

Que gira e gira no leste
para crescer

Eu sou a deusa menina
luz da semente




A primavera da vida
e o respirar

Eu estou voando no céu
eu estou brincando em teu eu

E tenho uma espada mágica
para te dar

Oh! deusa! deusa menina
brinca comigo

Dissolve o meu sofrimento
tira a minha dor

Libera minha tristeza
com teus poderes do vento

Revela-me teu mistério
a criação

(iniciação aos mistérios femininos/
as quatro fases da deusa)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

"...pois só quem ama tem ouvido capaz de ouvir e entender estrelas"

... Qualquer dia destes os homens vão encontrar Deus... Mas não serão os filósofos, serão os astronautas... 
Os astronautas, esses seres fantásticos, caminhando pelo espaço sideral, fora das cápsulas, como escafandros do céu, em levitação, serão os primeiros habitantes do romântico satélite.
E entre eles, se houver mesmo algum poeta, leremos algum dia o primeiro poema lunático, que a terra há de inspirar... 
Mas a verdade é que, enquanto isto ainda não acontece, a lua continua a musa em atividade. Os poetas sempre foram tidos como homens que vivem "no mundo da lua ".
 E quando alguém tem um ar de abstração e de sonho, é um poeta.
... Quem não se lembra, por exemplo, daqueles versos que acordaram tantas namoradas, enquanto o violão lá fora , pela madrugada, era dedilhado ao luar? "Lua, manda a tua luz prateada despertar a minha amada quero matar meus desejos sufocá-la com meus beijos. . . "
E os grandes poetas não ficaram insensíveis à beleza da rainha da noite, ao seu mistério e aos seus encantos.

 Mesmo com os pés no chão, olham para o alto. E se a lua vai-lhes sendo roubada, restam-lhes as estrelas, aquelas mesmas que Bilac ouvia, recomendando: "Amai, para entendê-las pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas. 
"Eu já a vi simbolizando a própria poesia: "Tudo é trova, a flor, a onda,a nuvem que passa ao léu e a lua, trova redonda, que a noite canta no céu..."
As mais curiosas e lindas imagens ocorreram aos românticos, parnasianos, simbolistas, modernos, líricos de todas as escolas.Para Alberto de Oliveira, o hierático parnasiano, "o luar era um cortinado todo lírios na barra, e em cima estrelas".
Catulo, o nosso Catulo, que enriqueceu a poesia com imagens simples, num típico linguajar sertanejo, diz que: "o céu parecia uma tigela cumo o fundo azu imborcado todo ismartado de novo adonde a lua tão bela ia boiando, amarela cumu uma gema de ovo."
Até o nosso singularíssimo Augusto dos Anjos contribuiria com uma imagem, bem a seu jeito: "Do observatório em que estou situado a lua magra, quando a noite crescevista, através do vidro azul, parece um paralelepípedo quebrado."
Está claro que esta não seria a visão dos românticos ou dos simbolistas. Para Cruz e Souza, ela se transfiguraria: "Ó monja branca dos espaços parece que abre para mim os braços fria, de joelhos, trêmula, rezando."
E Alphonsus de Guimarães, das altas montanhas mineiras, como que completaria a estrofe: "... Parece que se ouve o leve passo da lua pobre morta que passeia nos castelos hieráticos do espaço."
Castro Alves havia de associá-la a lembranças de amor.. E ei-lo declamando: "Entre rendas sutis, surge medrosa a lua plena, qual moreno seio."
Olegário Mariano, outro amoroso, teria impressões semelhantes: "Entre as árvores surge a lua como uma náiade nua mostrando em suaves coleioso torso, os braços os seios."
Seriam infinitas as citações. Antigos ou modernos, os poetas de todas as épocas se enfeitiçaram pela sua beleza.
 Não poucas vezes foi invocada como testemunha de amor. Desde o idílio de Romeu e Julieta, no drama shakespeariano: "Linda! Por esta lua que tem zelos por ti, por este límpido luar, que é menos puro do que teus cabelos que brilha menos do que teu olhar..."
E a réplica, bem feminina de Julieta: "Não jures pela lua que é inconstante!"
Certa vez coloquei como epígrafe de meu livro "A Outra Face", este pensamento: "O poeta em mim, é como aquela face da lua que ninguém vê, voltada sempre para o infinito."
Não faz sentido mais. Hoje os astronautas e os foguetes teleguiados já fotografaram até a " outra face " da lua. Nosso lindo satélite não posa mais de "odalisca", com veuzinho no rosto.
Sinal dos tempos... Aviso de despejo. A lua pertence agora aos seus novos donos. Contentem-se os namorados com o luar, e os poetas, com a saudade.
"Se o cotidiano te parece pobre, não o acuse: acusa-te a ti próprio de não seres bastante poeta para conseguires te apropriar de suas riquezas."
Como quem diz: não desesperes. Colhe o mundo ao teu redor. Aí estão o homem e suas fronteiras. Aí está, portanto, a poesia.
Rejubila-te, enquanto os foguetes sobem. A poesia sobreviverá ao ano 2000 e a todos os tempos. E por isto justamente: porque está dentro de ti e em tudo que te cerca, é que ela é imortal.
A lua dos verdadeiros poetas é a sua poesia, e esta é um satélite onde só eles podem chegar. Mas cujo luar pertence a todos nós...
( J.  G.  de Araujo Jorge - No Mundo da Poesia/ 1969)

dança bela criança!


  imagem: Antônio Manuel Silva
Dança sobre restos de cristais
deste tempo não tão belo
porque sozinha não estás
Dança sobre antigas cinzas
sobre todas as tuas feridas
Dança sobre tua casa,
entre a erva
... o odor do inverno
Dança bela criança,
pequena criança
distorções do tempo
Sózinha não estás
Sobre a fumaça que cobriu
a luz de nossa cidade
e ainda que doa
não a podemos modificar
Dança sobre a dor
que a dança à consumirá
Dança sobre a tua rua que dança
sobre esta casa que dança
se não se pode fazer mais...
Dança sobre a desventura
à luz da lua
sobre o campo e o mar
Dança, é caricia, é pudor
é aprender a voar
Se puderes dançar pelo ar
também as estrelas
poderão abraçar-te
não sigas agarrada as tuas dores
que não sabem dançar
Dança junto a tua vida
que dança...
Dança... Dança... Dança...
(Marilina Ross)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

o que mata um jardim?

                                                       pinturas: van gogh
 "O que mata um jardim não é mesmo alguma ausência nem o abandono... 
   
O que mata um jardim é esse olhar vazio de quem passa indiferente." (Mario Quintana)