domingo, 17 de outubro de 2010

Ψ Neuroses Traumáticas


CONCEITO DE TRAUMA: É função básica do aparelho psíquico restabelecer a estabilidade após transtorno produzido por estímulos externos, sempre que falhar a manutenção de um equilíbrio, ocorrerá estado de emergência.

 Fatores de economia mental, relacionados com a constituição e também com as experiências anteriores e com as condições atuais antes e durante o trauma, vão determinar qual é o grau de excitação que sobrecarrega a capacidade do indivíduo.

- Exceder a capacidade de controle: Esta capacidade depende de fatores constitucionais, bem como de todas as experiências anteriores do indivíduo.

 Há estímulos tão esmagadoramente intensos que exercem efeito traumático sobre quem quer que seja; outros parecem inócuos para a maior parte das pessoas, traumáticos porém para certos tipos predispostos a serem traumaticamente esmagados.

- Para uma criança, o desaparecimento de um ente querido pode ser traumatizante pelo fato de que desejos libidinais dirigidos para este ente, ficando sem objetivo, esmagam a criança; os adultos são mais sujeitos a experiências traumáticas quando estão exaustos, doentes.

OS SINTOMAS DAS NEUROSES TRAUMÁTICAS: Bloqueio ou decréscimo de várias funções do ego; Ataques de emoções incontroláveis (ansiedade e cólera; as vezes até ataques convulsivos); Insônia ou transtornos severos do sono, com sonhos típicos nos quais se experimenta repetidamente o trauma; e também repetições mentais, durante o dia, da situação traumática, total ou parcialmente sob a forma de fantasias, pensamentos ou sentimentos;

BLOQUEIOS OU DIMINUIÇÃO DAS FUNÇÕES DO EGO:  Pode-se explicar o bloqueio das funções do ego como sendo a concentração em certa tarefa de toda a energia mental disponível, ocorrendo então, a edificação de contra-energias que controlem a excitação esmagadora inoportuna. A urgência da tarefa diminui relativamente a importância de todas as demais funções do ego, as quais são obrigadas a renunciar às suas energias em favor da tarefa de emergência, esta dominando inteiramente a pessoa.

- Uma das funções que enfraquece ou bloqueia-se, é a sexualidade. Em geral nos neuróticos traumáticos masculinos é frequente a ocorrência de impotência temporária. A energia sexual, tal qual outras energias mentais, é mobilizada para controlar a excitação invasora, deixando de estar à disposição da sexualidade. Do mesmo modo que o interesse sexual costuma diminuir nos doentes, pelo fato de se tornarem narcisistas, assim também a energia sexual perde seu caráter específico após um trauma.

- Há vezes em que os neuróticos traumáticos desenvolvem uma espécie de atitude que demonstra desamparo e dependência passiva. As pessoas desamparadas costumam tender a regredir aos tempos da infância, porque enquanto crianças eram socorridas por adultos "onipotentes".

- O bloqueio do ego que se representa no desmaio como resposta a um trauma é o "mecanismo de defesa" mais arcaico e primitivo. Neste caso, o organismo, esmagado por estímulos excessivamente intensos, barra o influxo de estímulos adicionais; Trata-se de desmaios parciais, já que no desmaio propriamente dito, toda percepção é bloqueada.

ATAQUES EMOCIONAIS: Também os diversos ataques emocionais representam descargas de emergência mais arcaicas e involuntárias. São de todo inespecíficas: quem sofre um trauma pode ficar inquieto, hipercinético, chorar ou gritar...

A qualidade emocional destes ataques é quase sempre sentida como ansiedade ou raiva. Assim é que a ansiedade e a raiva dos neuróticos traumáticos representam descargas de excitações que foram suscitadas na situação traumática, mas que não puderam ser suficientemente descarregadas.

- Há muitos casos, em que se lhes pode explicar a índole específica pelas emoções sentidas (ou suscitadas e não sentidas) durante o trauma. Neste contexto, os ataques emocionais entram na categoria dos "sintomas de repetição" presentes nos neuróticos traumáticos. É provável que a Síndrome Epiléptica Arcaica funcione como descarga de emergência em certos indivíduos constitucionalmente predispostos.

OS LUCROS SECUNDÁRIOS NAS NEUROSES TRAUMÁTICAS - Os lucros secundários desempenham nas neuroses traumáticas, papel ainda mais importante do que nas neuroses em geral; e consistem em certas utilizações da sua doença que o paciente é capaz de tentar e que nada tem a ver com a origem da neurose, chegando, porém, a obter a máxima importância prática.

- Pode acontecer que o paciente está demonstrando o seu desamparo a fim de conseguir ajuda externa, tal qual desfrutava quando criança. Quando a neurose foi precipitada por incidente relativamente de pouca monta, ele próprio é muitas vezes trazido ao primeiro plano pelo doente o qual assim consegue outra vez, reprimir o conflito mental mobilizado por este incidente.

- O desejo de ganhar compensação, além de vantagens racionais, adquire o significado inconsciente de amor, segurança, proteção.

- Todavia, QUEM TIVER COMPREENSÃO PSICANALÍTICA DOS PROCESSOS NEURÓTICOS JAMAIS EQUIPARARÁ NEUROSE A SIMULAÇÃO, NEM RECUSARÁ INTEIRAMENTE A COMPREENSÃO.

CID-10/ DSM - F43.1 - ESTADO DE "STRESS" PÓS-TRAUMÁTICO: Este transtorno constitui uma resposta retardada a uma situação ou evento estressante (de curta ou longa duração), de natureza excepcionalmente ameaçadora ou catastrófica, e que provocaria sintomas evidentes de perturbação na maioria dos indivíduos.

- Fatores predisponentes, tais como certos traços de personalidade (por exemplo compulsiva, astênica) ou antecedentes do tipo neurótico, podem diminuir o limiar para a ocorrência da síndrome ou agravar sua evolução; tais fatores, contudo, não são necessários ou suficientes para explicar a ocorrência da síndrome.

- Os sintomas típicos incluem a revivescência repetida do evento traumático sob a forma de lembranças invasivas ("flash back"), de sonhos ou de pesadelos; ocorrem num contexto durável de "anestesia psíquica" e de embotamento emocional, de retraimento com relação aos outros, insensibilidade ao ambiente, anedonia, e de evitação de atividades ou de situações que possam despertar a lembrança do traumatismo.

- Os sintomas precedentes se acompanham habitualmente de uma hiperatividade neurovegetativa, com hipervigilância, estado de alerta e insônia, associadas frequentemente a uma ansiedade, depressão ou ideação suicida.

 O período que separa a ocorrência do traumatismo do transtorno pode variar de algumas semanas a alguns meses. Em uma pequena proporção de casos, o transtorno pode apresentar uma evolução crônica durante numerosos anos e levar a uma alteração duradoura da personalidade (F60.0).
Referência Bibliográfica:
 FENICHEL, Otto - Teoria Psicanalítica das Neuroses - Livraria Atheneu - Rio de Janeiro/
São Paulo 1981.
BALLONE, G. J - Transtorno por Estresse Pós-Traumático - in. PsiqWeb, Internet
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

domingo, 19 de setembro de 2010

foi culpa das rosas...

A IMITAÇÃO DA ROSA
- Antes que Armando voltasse do trabalho a casa deveria estar arrumada e ela própria já no vestido marrom para que pudesse atender o marido enquanto ele se vestia, e então sairiam com calma, de braço dado como antigamente. Há quanto tempo não faziam isso?
... e depois jantariam com Carlota e João, recostados na cadeira com intimidade.
Há quanto tempo não via Ar­mando enfim se recostar com intimidade e conversar com um homem? A paz de um homem era, esquecido de sua mulher, conversar com outro homem sobre o que saía nos jornais.
... enquanto isso ela falaria com Carlota sobre coisas de mulheres, submissa à bondade autoritária e prática de Carlota, recebendo enfim de novo a desatenção e o vago desprezo da amiga, a sua rudeza natural.
E ela mesma, enfim, voltando à insignificância com reconhecimento. Como um gato que passou a noite fora e, como se nada tivesse acontecido, encontrasse sem uma palavra um pires de leite esperando...
- Interrompendo a arrumação da penteadeira, Laura olhou-se ao espelho: é ela mesma, há quanto tempo? Seu rosto tinha uma graça doméstica, os cabelos eram presos com grampos atrás das orelhas grandes e pálidas. Os olhos marrons, os cabelos marrons, a pele morena e suave, tudo dava a seu rosto já não muito moço um ar modesto de mulher. Por acaso alguém veria, naquela mínima ponta de surpresa que havia no fundo de seus olhos, nesse mínimo ponto ofendido a falta dos filhos que ela nunca tivera?
... planejava arrumar a casa antes que a empregada saísse de folga para que, uma vez Maria na rua, ela não precisasse fazer mais nada, senão 1º) calma­mente vestir-se; 2º) esperar Armando já pronta; 3º) o ter­ceiro o que era? Pois é. Era isso mesmo o que faria;

... Quando lhe haviam dado para ler a "Imitação de Cristo", com um ardor de burra ela lera sem entender mas, que Deus a perdoasse, ela sentira que quem imitasse Cristo estaria perdido — perdido na luz, mas perigosamente perdido. Cristo era a pior tentação. E Carlota nem ao menos quisera ler, mentira para a freira dizendo que tinha lido. Pois é.
... Sentou-se no sofá como se fosse uma visita na sua pró­pria casa que, tão recentemente recuperada, arrumada e fria, lembrava a tranqüilidade de uma casa alheia. O que era tão satisfatório: ao contrário de Carlota, que fizera de seu lar algo parecido com ela própria, Laura tinha tal prazer em fazer de sua casa uma coisa impessoal; de certo modo per­feita por ser impessoal.
Oh como era bom estar de volta, realmente de volta, sorriu ela satisfeita. Segurando o copo quase vazio, fechou os olhos com um suspiro de cansaço bom. - Passara a ferro as camisas de Armando, fizera listas metódicas para o dia seguinte, não parara na verdade um instante sequer.
Se uma pessoa perfeita do planeta Marte descesse e soubesse que as pessoas da Terra se cansavam e envelheciam, teria pena e espanto. Sem entender jamais o que havia de bom em ser gente, em sentir-se cansada, em diariamente falir; só os iniciados compreenderiam essa nuance de vício e esse refinamento de vida.
... O marido cansado e perplexo, o que dava a ela uma piedade pun­gente, sim, mesmo dentro de sua perfeição acordada, a pie­dade e o amor, ela super-humana e tranqüila no seu isola­mento brilhante, e ele, quando tímido, vinha visitá-la levan­do maçãs e uvas que a enfermeira com um levantar de ombros comia...
ele fazendo visita de cerimônia como um namorado, com o hálito infeliz e um sorriso fixo, esforçan­do-se no seu heroísmo por compreender, ele que a recebera de um pai e de um padre, e que não sabia o que fazer com essa moça da Tijuca que inesperadamente, como um barco tranqüilo se empluma nas águas, se tornara
super-humana, não tinha tempo de dormir agora, nem sequer de tirar um cochilo pensou vaidosa e com falsa modéstia, era uma pessoa tão ocupada! sempre invejara as pessoas que diziam "não tive tempo"...
... iam jantar com Carlota e tudo tinha que estar ordeiramente pronto, era o pri­meiro jantar fora desde que voltara e ela não queria chegar atrasada, tinha que estar pronta quando... bem, eu já disse isso mil vezes, pensou encabulada. Bastaria dizer uma só vez: "não queria chegar atrasada" ... O que devia fazer era 1º) esperar que a empregada estivesse pronta; 2º) dar-lhe o dinheiro para ela já trazer a carne de manhã; 3º) começar minuciosamente a se lavar e a se vestir, entregando-se sem reserva ao prazer de fazer o tempo render. .. ela iria de braço dado com Armando, andando devagar para o ponto do ônibus, com aquelas coxas baixas e grossas que a cinta empacotava numa só fazendo dela uma "senhora dis­tinta"; mas quando, sem jeito, ela dizia a Armando que isso vinha de insuficiência ovariana, ele, que se sentia lisonjeado com as coxas de sua mulher, respondia com muita audá­cia: "De que me adiantava casar com uma bailarina?", era isso o que ele respondia. Ninguém diria, mas Armando po­dia ser às vezes muito malicioso, ninguém diria. Àsvezes ele era muito sem-vergonha, ninguém diria.
Car­lota ficaria espantada se soubesse que eles também tinham vida íntima e coisas a não contar, mas ela não contaria, era uma pena não poder contar, Carlota na certa pensava que ela era apenas ordeira e comum e um pouco chata, e se ela era obrigada a tomar cuidado para não importunar os outros com detalhes, com Armando ela às vezes relaxava e era cha­tinha, o que não tinha importância porque ele fingia que ouvia mas não ouvia tudo o que ela lhe contava, o que não a magoava, ela compreendia perfeitamente bem que suas conversas cansavam um pouquinho uma pessoa...
- O devaneio enchia-a com o mesmo gosto que tinha em arrumar gavetas, chegava a desarrumá-las para poder arrumá-las de novo.
- Abriu os olhos, e como se fosse a sala que tivesse tira­do um cochilo e não ela, a sala parecia renovada e repousada com suas poltronas escovadas ... Oh como era bom rever tudo arrumado e sem poeira, tudo limpo pelas suas próprias mãos destras, e tão silencioso, e com um jarro de flores, como uma sala de espera. Como era rica a vida comum, ela que enfim voltara da extravagância. Até um jarro de flores. Olhou-o.
- Ah como são lindas, exclamou seu coração de repen­te um pouco infantil. Eram miúdas rosas silvestres que ela comprara de manhã na feira, em parte porque o homem insistira tanto, em parte por ousadia.
Mas à luz desta sala as rosas estavam em toda a sua completa e tranqüila beleza. Nunca vi rosas tão bonitas, pensou com curiosidade... Olhou-as com atenção. Mas a atenção não podia se manter muito tempo como simples atenção, transformava-se logo em suave prazer, e ela não conseguia mais analisar as rosas, era obri­gada a interromper-se com a mesma exclamação de curio­sidade submissa: como são lindas...
Eram algumas rosas perfeitas na sua miudez, não de todo desabrochadas, e o tom rosa era quase branco. Parecem até artificiais!
- Mas, sem saber por quê, estava um pouco constrangida, um pouco perturbada. nada demais, apenas acontecia que a beleza extrema incomodava.
- Então Laura teve uma idéia de certo modo muito original: por que não pedir a Maria para passar por Carlota e deixar-lhe as rosas de presente? E também porque aquela beleza extrema incomodava. Era um risco.
Maria daria as rosas a Carlota. - D. Laura mandou, diria Maria.
... Essas coisas não são necessárias entre nós, Laura! diria a outra com aquela franqueza um pouco bruta, e Laura diria num abafado grito de arrebatamento:
- Oh não! não! não é por causa do convite para jantar! é que as rosas eram tão lindas que tive o impulso de dar a você!
... E Carlota se surpreen­deria com a delicadeza de sentimentos de Laura, ninguém imaginaria que Laura tivesse também suas ideiazinhas...
- E dar as rosas era quase tão bonito como as próprias rosas.
E mesmo ela ficaria livre delas... E ela teria esquecido as rosas e a sua beleza.
- Não, pensou de súbito vagamente avisada. Era preciso tomar cuidado com o olhar de espanto dos outros. Era pre­ciso nunca mais dar motivo para espanto, ainda mais com tudo ainda tão recente, nunca mais essa coisa horrível de todos olharem-na mudos, e ela em frente a todos...
- Maria, disse então ao ouvir de novo os passos da em­pregada. E quando esta se aproximou, disse-lhe temerária e desafiadora: você poderia passar pela casa de D. Carlota e deixar estas rosas para ela? Você diz assim: "D. Carlota, D. Laura mandou". Você diz assim: "D. Carlota..."- Sei, sei, disse a empregada paciente.
Queria fazer um ramo bem artístico. E ao mesmo tempo se livraria delas...
- E quando olhou-as, viu as rosas.
- E então, incoercível, suave, ela insinuou em si mesma: não dê as rosas, elas são lindas. Um segundo depois, muito suave ainda, o pensamen­to ficou levemente mais intenso, quase tentador: não dê, elas são suas. Laura espantou-se um pouco: porque as coisas nunca eram dela...
E mesmo podia ficar com elas pois já passara aquele primeiro desconforto que fizera com que vagamente ela tivesse evitado olhar demais as rosas. Por que dá-las, então? Não iam durar muito, por que então dá-las enquanto estavam vivas? O prazer de tê-las não significava grande risco...
E mesmo argumentou numa última e vitoriosa rejeição de culpa — não fora de modo algum ela quem quisera com­prar, o vendedor insistira muito e ela se tornava sempre tão tímida quando a constrangiam, não fora ela quem quisera comprar, ela não tinha culpa nenhuma. Olhou-as com en­levo, pensativa, profunda.
E, sinceramente, nunca vi na minha vida coisa mais perfeita.
Bem, mas agora ela já falara com Maria e não teria jeito de voltar atrás... Se quisesse, não seria tarde demais... Poderia dizer : "ô Maria, resolvi que eu mesma levo as rosas quando for jantar!" Não as levaria... E Maria nunca precisaria saber. Era isso mesmo o que faria.
Mas com as rosas desembrulhadas na mão ela esperava. Não as depunha no jarro, não chamava Maria. Ela sabia por quê. Porque devia dá-las. Oh ela sabia por quê.
E também porque uma coisa bonita era para se dar ou para se receber, não apenas para se ter...
- Nunca se devia ficar com uma coisa bonita, assim, como que guardada dentro do silêncio perfeito do coração.
Então? e então? indagou-se vagamente inquieta.
Então, não. O que devia fazer era embrulhá-las e man­dá-las, decep­cionada, mandá-las; e espantada ficar livre delas...
Mas qualquer pessoa pode se arrepender! revoltou-se de súbito... E mesmo o próprio mé­dico lhe dera a palmada nas costas e dissera: "não se esforce por fingir que a senhora está bem, porque a senhora está bem"... Assim, pois, ela não era obrigada a ter coerência, não tinha que provar nada a ninguém e ficaria com as rosas.
- Estão prontas? perguntou Maria.
- Estão, disse Laura surpreendida.
Olhou-as, tão mudas na sua mão. Impessoais na sua extrema beleza. Na sua extrema tranqüilidade perfeita de rosas. Aquela última instância: a flor. Aquele último aper­feiçoamento: a luminosa tranqüilidade...
Até que, devagar, austera, enrolou os talos e espinhos no papel de seda. Tão absorta estivera que só ao estender o ramo pronto notou que Maria não estava mais na sala — e ficou sozinha com seu heróico sacrifício.
Quando Maria voltou e pegou o ramo, por um míni­mo instante de avareza Laura encolheu a mão retendo as rosas um segundo mais consigo - elas são lindas e são minhas, é a primeira coisa linda e minha! e foi o homem que insistiu, não fui eu que procurei! foi o destino quem quis! oh só dessa vez! só essa vez e juro que nunca mais! (ela poderia pelo menos tirar para si uma rosa, nada mais que isso: uma rosa para si. E só ela saberia, e depois nunca mais se deixaria tentar pela perfeição, nunca mais!).
- E no segundo seguinte, sem nenhum obstáculo,as rosas estavam na mão da empre­gada, não eram mais suas, como uma carta que já se pôs no correio! Ficou com as mãos vazias mas seu coração obstinado e rancoroso ainda dizia: "você pode pegar Maria nas escadas, você bem sabe que pode, e tirar as rosas de sua mão e roubá-las". Roubar o que era seu? Pois era assim que uma pessoa que não tivesse nenhuma pena dos outros faria: roubaria o que era seu por direito! Oh, tem piedade, meu Deus. Você pode recuperar tudo, insistia com cólera. E então a porta da rua bateu.
- Então devagar ela se sentou calma no sofá. Sem apoiar as costas. Só para descansar. Não, não estava zangada, oh nem um pouco. Mas o ponto ofendido no fundo dos olhos estava maior e pensativo. Olhou o jarro. "Cadê minhas rosas", disse então muito sossegada.
- E as rosas faziam-lhe falta... Uma ausência que entrava nela como uma claridade. O centro da fadiga se abria em círculo que se alargava. Como se ela não tivesse passado nenhuma camisa de Armando. E na clareira as rosas faziam falta. "Cadê minhas rosas", queixou-se sem dor alisando as preguinhas da saia...
- Já que não estava mais cansada, ia então se levantar e se vestir. Estava na hora de começar.
Mas, com os lábios secos, procurou um instante imi­tar por dentro de si as rosas. Não era sequer difícil. Até bom que não estava cansada. Assim iria até mais fresca para o jantar. Quando estivesse pronta ouviria o barulho da chave de Armando na porta. Precisa­va se vestir. Mas ainda era cedo. Com a dificuldade de con­dução ele demorava. Ainda era de tarde. Uma tarde muito bonita. Aliás já não era mais de tarde. Era de noite. Da rua subiam os primeiros ruídos da escuridão e as primeiras luzes.
- Armando abriria a porta. Apertaria o botão de luz. E de súbito no enquadramento da porta se desnudaria aquele rosto expectante que ele procurava disfarçar mas não podia conter. Depois sua respiração suspensa se transformaria enfim num sorriso de grande desopressão. Aquele sorriso embaraçado de alívio que ele nunca suspeitara que ela per­cebia. Aquele alívio que provavelmente, com uma palmada nas costas, tinham aconselhado seu pobre marido a ocul­tar. Mas que, para o coração tão cheio de culpa da mulher, tinha sido cada dia a recompensa por ter enfim dado de novo àquele homem a alegria possível e a paz, sagradas pela mão de um padre austero que permitia aos seres apenas a alegria humilde e não a imitação de Cristo.
- A chave virou na fechadura, o vulto escuro e precipi­tado entrou, a luz inundou violenta a sala.
- E na porta mesmo ele estacou com aquele ar ofegante e de súbito paralisado como se tivesse corrido léguas para não chegar tarde demais.
- Ela ia sorrir. Para que ele enfim desmanchasse a ansiosa expectativa do rosto, que sempre vinha misturada com a infantil vitória de ter chegado a tem­po de encontrá-la chatinha, boa e diligente, e mulher sua. Ela ia sorrir para que de novo ele soubesse que nunca mais haveria o perigo dele chegar tarde demais. Ia sorrir para ensinar-lhe docemente a confiar nela.
Fora inútil recomen­darem-lhes que nunca falassem no assunto: ELES NÃO FALAVAM MAS TINHAM ENCONTRADO UMA LINGUAGEM DE ROSTO ONDE MEDO E CONFIANÇA SE COMUNICAVAM. Ela ia sorrir. Estava demorando um pouco porém, ia sorrir. Calma e suave, ela disse: - Voltou, Armando. Voltou.
- Como se nunca fosse entender, ele enviesou um rosto sorridente, desconfiado. Seu principal trabalho no momento era procurar reter o fôlego ofegante da corrida pelas esca­das, já que triunfantemente não chegara atrasado, já que ela estava ali a sorrir-lhe. Como se nunca fosse entender. Voltou o quê, perguntou afinal num tom inex­pressivo.
- Mas, enquanto procurava não entender jamais, o ros­to cada vez mais suspenso do homem já entendera, sem que um traço se tivesse alterado. Seu trabalho principal era ganhar tempo e se concentrar em reter a respiração. O que de repente já não era mais difícil. Pois inesperadamente ele percebia com horror que a sala e a mulher estavam cal­mas e sem pressa.
- Mais desconfiado ainda, como quem fosse terminar enfim por dar uma gargalhada ao constatar o absurdo, ele no entanto teimava em manter o rosto envie­sado, de onde a olhava em guarda, quase seu inimigo. E de onde começava a não poder se impedir de vê-la sentada com mãos cruzadas no colo, com a serenidade do vaga-lume que tem luz. No olhar castanho e inocente o embaraço vaidoso de não ter podido resistir. Voltou o quê, disse ele de repente com dureza. - Não pude impedir, disse ela, e a derradeira piedade pelo homem estava na sua voz, o último pedido de perdão que já vinha misturado à altivez de uma solidão já quase perfeita. Não pude impedir, repetiu entregando-lhe com alívio a piedade que ela com esforço conseguira guardar até que ele chegasse.
FOI POR CAUSA DAS ROSAS, disse ela com modéstia.
- Como se fosse para tirar o retrato daquele instante, ele manteve ainda o mesmo rosto isento, como se o fotógrafo lhe pedisse apenas um rosto e não a alma... No instante seguinte, desviou os olhos com vergonha pelo despudor de sua mulher que, desabrochada e serena, ali estava.
- Mas de súbito a tensão caiu. Seus ombros se abaixa­ram, os traços do rosto cederam e uma grande pesadez rela­xou-o. Ele a olhou envelhecido, curioso.
- Ela estava sentada com o seu vestidinho de casa. Ele sabia que ela fizera o possível para não se tornar luminosa e inalcançável. Com timidez e respeito, ele a olhava. Enve­lhecido, cansado, curioso. Mas não tinha uma palavra sequer a dizer. Da porta aberta via sua mulher que estava sentada no sofá sem apoiar as costas, de novo alerta e tranquila como num trem. Que já partira.

imagem:
Olhares

domingo, 12 de setembro de 2010

Ψ ESQUIZÓIDE


- Caracteriza-se aquele indivíduo que sem ter PSICOSE verdadeira, apresenta traços singulares do tipo esquizofrênico. São os casos conhecidos como "ESQUIZOFRENIA BRANDA" ou AMBULATORIAL. Pertencem a este grupo os PSICOPATAS EXTRAVAGANTES, os PARANÓIDES ABORTIVOS, os muitos indivíduos "apáticos" que chamamos PERSONALIDADE HEBEFRENÓIDES. 
 
As emoções nos ESQUIZÓIDES, afiguram-se inadequadas. É frequente falharem absolutamente em situações nas quais seriam de esperar. Uma falta de emoção que não se deve a simples repressão, mas à perda real de contato com o mundo objetivo, dá a quem observa uma imprressão de "esquisitice".

É comum a falta de afetos romper-se com ataques emocionais súbitos e incompreensíveis. Noutros casos, as emoções parecem relativamente normais, desde que se realizem certas condições, por exemplo desde que o paciente consiga sentir que "as coisas não são inteiramente sérias".

Comportam "como se" tivessem relações sentimentais com os outros. Podem estar cercados de muita gente e ocuparem-se com muitas atividades, mas não tem amigos de verdade.

 - É frequente AS PERSONALIDADES ESQUIZÓIDES permanecerem relativamente normais enquanto se encontram em condições de segurança, colapsando, porém, assim que essas condições deixem de vigorar.

 As personalidades paranóides consistem em ter "seguidores", enquanto as pessoas acreditam neles e na sua missão, os pacientes ainda se apegam à realidade, quando os seguidores começam a dizer "o homem está maluco", colapsam.

- Os tipos esquizóides podem apresentar grande variedade de quadros clínicos: num extremo estão as "crianças prodígios", possuidoras de talentos (autísticos) unilaterais, cujo comportamento ocasionalmente estranho é perdoado porque sabem comunicar sua proximidade ao inconsciente, mostrando-se capazes de fascinar uma plateia, embora os próprios pacientes não tenham por ela interesse emocional algum; o outro extremo assinala-se por pessoas hebefrenóides, que dão a impressão, de obtusidade e que vivem, de forma vazia e obscura, uma existência realmente vegetativa, de todo pobre quanto à vivacidade emocional. - A característica essencial do Transtorno da Personalidade Esquizóide é um padrão invasivo de distanciamento de relacionamentos sociais e uma faixa restrita de expressão emocional em contextos interpessoais.
Este padrão começa no início da idade adulta e se apresenta em variados contextos. Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Esquizóide parecem não possuir um desejo de intimidade, mostram-se indiferentes às oportunidades de desenvolver relacionamentos íntimos, e parecem não obter muita satisfação do fato de fazerem parte de uma família ou de outro grupo social.
- Eles preferem passar seu tempo sozinhos a estarem com outras pessoas, com frequência, parecem ser socialmente isolados ou "solitários", quase sempre escolhendo atividades ou passatempos que não envolvam a interação com outras pessoas.
- Eles preferem tarefas mecânicas ou abstratas, tais como jogos matemáticos ou de computador. Podem ter pouco interesse em experiências sexuais;
- Existe, geralmente, uma experiência reduzida de prazer em experiências sensoriais, corporais ou interpessoais, tais como caminhar na praia ao pôr-do-sol ou fazer sexo. Esses indivíduos não têm amigos íntimos ou confidentes, exceto, possivelmente, algum parente em primeiro grau.

- Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Esquizóide frequentemente se mostram indiferentes à aprovação ou crítica e parecem não se importar com o que os outros possam pensar deles. Eles podem ignorar as sutilezas normais da interação social e com frequência não respondem adequadamente aos indicadores sociais, de modo que parecem socialmente ineptos ou superficiais e absortos consigo mesmos.
 - Eles geralmente exibem um exterior "insosso", sem reatividade emocional visível, e raramente retribuem gestos ou expressões faciais, tais como sorrisos ou acenos.
Afirmam que raramente experimentam fortes emoções, tais como raiva e alegria, frequentemente exibem um afeto restrito e parecem frios e indiferentes.
Entretanto, em circunstâncias muito incomuns nas quais estes indivíduos, pelo menos temporariamente, sentem-se mais à vontade para se revelarem, podem reconhecer sentimentos dolorosos, particularmente relacionados a interações sociais.
- O Transtorno da Personalidade Esquizóide não deve ser diagnosticado se o padrão de comportamento ocorre exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia, Transtorno do Humor Com Aspectos Psicóticos, outro Transtorno Psicótico ou um Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, ou se é decorrente dos efeitos fisiológicos diretos de uma condição neurológica (ex., epilepsia do lobo temporal).
- Um padrão invasivo de distanciamento das relações sociais e uma faixa restrita de expressão emocional em contextos interpessoais, que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, como indicado por pelo menos quatro dos seguintes critérios:

 - não deseja nem gosta de relacionamentos íntimos, incluindo fazer parte de uma família; quase sempre opta por atividades solitárias;
- tem prazer em poucas atividades, se alguma; - não tem amigos íntimos ou confidentes, outros que não parentes em primeiro grau; - mostra-se indiferente a elogios ou críticas de outros;
Demonstra frieza emocional, distanciamento ou afetividade embotada.

A QUESTÃO DO PROGNÓSTICO NA ESQUIZOFRENIA - O prognóstico é extremamente complicado pela dificuldade de entender com exatidão a economia das forças que são responsáveis pelo curso da psicose. Se o esquizofrênico consegue restabelecer relações, pode ainda acontecer que torne a colapsar, se ocorrerem novos acontecimentos precipitantes.
É fácil perceber que todos os fatores ambientais que sejam prazerosos e sedutores irão influenciar favoravelmente, no sentido da saúde e aqueles que sejam frustrados ou levem o paciente à tentação irão favorecer a doença.
 Daí ser importante para a avaliação prognóstica, estabelecer um diagnóstico dinâmico que diga respeito à profundidade da perda de objetos e à intensidade da predisposição orgânica para a doença.  A história do paciente dar-se-á a informação necessária.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br/,
Fenichel, Otto - Teoria Psicanalítica das Neuroses;
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

Ψ O HOMEM é esperto, mas LOUCURA é mais...

BORDERLINE - São diferentes dos mecanismos NEURÓTICOS os mecanismos ESQUIZOFRÊNICOS.
- Há neuróticos, que sem desenvolver PSICOSE completa, possuem tendências psicóticas, ou usam esses mecanismos sempre que ocorrem frustrações.
- Pode-se falar que são pessoas esquizofrênicas em potencial, quer dizer que "ainda não romperam com a realidade", ainda que apresentam certos sinais de que estão iniciando esta ruptura e em condições desfavoráveis de vida podem evoluir para a PSICOSE.
- Pode-se falar ainda de pessoas que "canalizaram" a sua disposição esquizofrênica: Os excêntricos que são loucos em certa área mais ou menos circunscrita, e no geral conservam o contato com a realidade.
- Ideias de REFERÊNCIA ABORTIVA, quando começam a desenvolver-se, ou, em personalidades esquizóides, de maneira contínua, permanecem às vezes, sujeitas à crítica do paciente. "Sinto como se todo o mundo estivesse olhando para mim, como se todos soubessem o que eu estou pensando; claro que não é verdade. Tive uma ideia maluca de que alguém pode por um microfone na sala, a fim de descobrir o que estou pensando."
- Há NEURÓTICOS OBSESSIVOS que sofrem da ideia obsessiva de haver perpetrado um assassinato e são obrigados, apesar de lhe perceberem a extrema irrealidade, a provar a si mesmos a falsidade da obsessão, isso sendo muito diferente da idéia de ter matado um homem. 

- Há porém, "NEURÓTICOS COMPULSIVOS ESQUIZÓIDES" nos quais a fantasia se apresenta, às vezes, como o aspecto da obsessão; outras vezes, de delírio; em geral com o aspecto de obsessão; mas de delírio, quando existe certa tensão mental.
- Um paciente que estava mais próximo da ESQUIZOFRENIA que da NEUROSE OBSESSIVA, certa vez saiu de casa muito agitado, após brigar com a mãe. Pôs-se a cismar que a surrara até matá-la, o que era de suas frequentes idéias obsessivas. Desta vez, repentinamente sentiu que, de fato, praticara o ato. Foi à polícia e declarou que havia assassinado a mãe. Depois que os policiais que haviam sido mandados a sua casa retornaram e lhe disseram que não era verdade, o paciente "lembrou-se" de que, realmente, não cometera o assassinato declarado.

 - Carlos Paz realiza uma experiência psicanalítica no tratamento do transtorno borderline e encontra: 
- Transtornos na relação com a realidade, na qual ha alterações grosseiras ainda que transitórias, sem perda do juízo da realidade.
 - Transtornos do pensamento sob a forma de idéias de referência e paranóia; - Transtornos no controle dos impulsos com explosões de raiva, violência e agressão;
- Transtornos da sexualidade com fantasias sexuais sadomasoquistas, atividade masturbatórias com fantasias eróticas perversas, promiscuidade e, eventualmente, impotência.
- Presença de ansiedades confusionais;
- Vínculo com o terapeuta característico, com viscosidade, aderência e manipulação.
- Nos casos mais graves esses fenômenos de transferência problemática são bastante primitivos e intensos, chamados por alguns autores de “transferência delirante”, ou ainda de “transferência psicótica.
- Há pessoas, simpáticas e agradáveis aos outros, que se comportam de maneira totalmente diferente com as pessoas de sua intimidade. São explosivas, agressivas, intolerantes, irritáveis, com tendência a manipular pessoas.

- Outros conseguem ser desarmônicos dentro e fora do lar; podem ser os Sociopatas.
- A patologia borderline é, sem dúvida, uma problemática psicossocial importante, já que frequentemente se associam a quadros de drogadicção, alcoolismo e violência.
- Certos autores comparam ao paciente borderline atual com os histéricos do final do século XIX e princípios do século XX. Consideram as patologias equivalentes e não sem uma boa dose de razão, considerando a histeria dita de caráter.
- Segundo o Código Internacional de Doenças, os critérios diagnósticos para F60.31 - TRANSTORNO DE PERSONALIDADE BORDERLINE, caracterizaria por um padrão invasivo de instabilidade dos relacionamentos interpessoais, auto-imagem e afetos e acentuada impulsividade, que começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos, esforços frenéticos para evitar um abandono real ou imaginado.

- Um padrão de relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, caracterizado pela alternância entre extremos de idealização e desvalorização;
- Relações interpessoais: não suportam a solidão e o abandono, necessitam do outro em tempo integral, a todo o momento, são francamente dependentes, masoquistas e manipuladores.
- Perturbação da identidade: instabilidade acentuada e resistente da auto-imagem ou do sentimento de self; Afetividade: depressão, raiva, ansiedade e desespero;
Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente prejudiciais à própria pessoa (ex., gastos financeiros, sexo, abuso de substâncias, direção imprudente, comer compulsivamente).
- Recorrência de comportamento, gestos ou ameaças suicidas ou de comportamento automutilante; Impulsos e ações: atitudes impulsivas, drogadição, álcool, auto-agressão, promiscuidade, bulimia; Instabilidade afetiva devido a uma acentuada reatividade do humor
(ex., episódios de intensa disforia, irritabilidade ou ansiedade geralmente durando algumas horas e apenas raramente mais de alguns dias).
- Sentimentos crônicos de vazio; Raiva inadequada e intensa ou dificuldade em controlar a raiva (ex., demonstrações freqüentes de irritação, raiva constante, lutas corporais recorrentes), eventuais surtos psicóticos: normalmente breves, reativos e pouco severos.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: Ballone GJ- Personalidade Borderline- in. PsiqWeb, disponível em www.psiqweb.med.br/, revisto em 2005.
- Grinker RR Sr.- Diagnosis of borderlines: a discussion, Schizophr Bull. 1979;5(1):47-52

- Gunderson JG, Kolb JE, Austin V - The diagnostic interview for borderline patients, Am J Psychiatry 1981; 138:896-903 - Mahler MS - Significance of the separation and individuation process for the evaluation of borderline phenomena, Psyche (Stuttg). (Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

Ψ ESQUIZO = CISÃO FRENIA = MENTE = MENTE DIVIDIDA

*Mais do que em quaisquer outros tipos de transtornos mentais, a diversidade dos fenômenos esquizofrênicos dificultam uma orientação abrangente.

 *Já se tem duvidado de que esta seja sequer possível e de que os vários fenômenos esquizofrênicos tenham o que quer que seja em comum. 

*A tantas coisas diferentes aplica-se o rótulo "esquizofrenia" que este nem mesmo serve para fins de prognóstico.

*Há "Episódios Esquizofrênicos" passageiros em pessoas que na aparência estão bem quer antes quer depois dos mesmos, e há psicoses severas que terminam em demência permanente.


*Há que se diferenciar "Episódios Esquizofrênicos" e "Psicoses Processuais Malignas";

*O bebê parte de um estado de "narcisismo primário", aparelho psíquico ainda indiferenciado, ainda não existe objeto, com a descoberta destes coincide a diferenciação do ego.


*Um ego existe na medida em que está diferenciado dos objetos que não são ego.


*O ESQUIZOFRÊNICO regrediu ao narcisismo. Ele separou-se da realidade. O ego do ESQUIZOFRÊNICO colapsou, rompeu-se.


*A ESQUIZOFRENIA e a NEUROSE tem traços em comum mas a etiologia em absoluto diversa, seguem leis patológicas diferentes.


*A irracionalidade do comportamento esquizofrênico impossibilita às vezes a empatia com os pacientes. 


*E ainda que se provasse SER ESSENCIALMENTE SOMÁTICA a etiologia da esquizofrenia, ainda seria importante estudar os ASPECTOS PSICOLÓGICOS desta desintegração mental que por forma heterogênea se produz.

*SINTOMAS DE REGRESSÃO NA ESQUIZOFRENIA (fantasias de destruição do mundo): Segundo Freud, a percepção interna da perda de relações objetais produz nos estados iniciais da ESQUIZOFRENIA a fantasia de que o mundo está para acabar.


*Os pacientes que experimentaram sentimentos desta ordem estão corretos, o mundo objetivo de fato, rompeu. Há vezes em que só uma parte do mundo é sentida como tendo perdido a existência.


*Ao se queixar de que o mundo parece "vazio", "sem sentido" ou "monótono", o ESQUIZOFRÊNICO refere de que sua libido se retirou dos objetos. 


*Ele sente como se as pessoas fossem imagens fluídas quando afirma que se sente perplexo e abandonado neste novo mundo.

*Expressa-se também de maneira mais localizada pela despersonalização e com mais intensidade no estupor catatônico.

*Muitas ESQUIZOFRENIAS começam com despersonalização e sensações corporais hipocondríacas, aumento do tônus libidinal do corpo.


*Os sintomas corporais na ESQUIZOFRENIA incipiente não tem necessariamente o caráter de sensações intensas.


*É frequente referirem sentimentos de falta de sensações. Certos órgãos, áreas corporais ou o corpo inteiro são percebidos como se não pertencessem à pessoa.

*Tanto o acréscimo quanto o decréscimo dos sentimentos corporais alteram necessariamente a imagem corporal do paciente e fazem-no sentir-se estranho.


*Na despersonalização, o paciente enquanto se observa percebe a ausência de plenitude dos seus sentimentos, tal qual uma criança que percebe a ausência de um nome esquecido tendo-o na "ponta da língua".


*PENSAMENTO ESQUIZOFRÊNICO: Conceitos e palavras obedecem uma lógica própria, não à nossa lógica "normal", a lógica ESQUIZOFRÊNICA é idêntica ao pensamento primitivo mágico, a mesma lógica do inconsciente neurótico, da criança pequena, do homem primitivo e das "pessoas normais" fadigadas. Trata-se do modo arcaico de pensar.

*O que se vê na neurose obsessiva em grau leve encontra-se marcadamente desenvolvido na ESQUIZOFRENIA. O pensamento do esquizofrênico retrocede do nível lógico ao pré-lógico.


*As interpretações dos símbolos que os NEURÓTICOS acham tão difícil aceitar na análise, os ESQUIZOFRÊNICOS fazem-na espontaneamente, como coisa natural.


*Para o ESQUIZOFRÊNICO o pensamento simbólico não é mero processo de distorção é de fato, o tipo arcaico de pensamento que lhes é próprio.

*Nos indivíduos não psicóticos, esta modalidade de pensamento ainda atua no inconsciente, daí a impressão de que, na esquizofrenia, o "inconsciente se tornou consciente".


*IDEIAS DE GRANDEZA: A crença que o indivíduo tem na sua própria onipotência não é mais do que um dos aspectos do mundo animístico-mágico que torna a predominar nas regressões narcísicas.

*O NARCISISTA acredita de fato, nos seus devaneios, que se transformam em delírios, sente-se presidente, Deus... isso resultando da perda do juízo da realidade. 


*O conteúdo dos delírios pode analisar-se tal qual se analisam os devaneios dos neuróticos e das pessoas normais.

*Os transtornos esquizofrênicos se caracterizam em geral por distorções fundamentais e características do pensamento e da percepção, e por afetos inapropriados ou embotados. 


*Usualmente mantém-se clara a consciência e a capacidade intelectual, embora certos déficits cognitivos possam evoluir no curso do tempo.

 *Os fenômenos psicopatológicos mais importantes incluem o eco do pensamento, a imposição ou o roubo do pensamento, a divulgação do pensamento, a percepção delirante, ideias delirantes de controle, de influência ou de passividade, vozes alucinatórias que comentam ou discutem com o paciente na terceira pessoa, transtornos do pensamento e sintomas negativos.

*A evolução dos transtornos esquizofrênicos pode ser contínua, episódica com ocorrência de um déficit progressivo ou estável, ou comportar um ou vários episódios seguidos de uma remissão completa ou incompleta.


*Segundo o Código Internacional de Doenças: 

 F20.6 - ESQUIZOFRENIA SIMPLES: Transtorno caracterizado pela ocorrência insidiosa e progressiva de excentricidade de comportamento, incapacidade de responder às exigências da sociedade, e um declínio global do desempenho.

*Transtorno caracterizado por um comportamento excêntrico e por anomalias do pensamento e do afeto que se assemelham àquelas da esquizofrenia, mas não há em nenhum momento da evolução qualquer anomalia esquizofrênica manifesta ou característica. 


*A sintomatologia pode comportar um afeto frio ou inapropriado, anedonia; um comportamento estranho ou excêntrico; uma tendência ao retraimento social; ideias paranóides ou bizarras sem que se apresentem ideias delirantes autênticas; ruminações obsessivas; transtornos do curso do pensamento e perturbações das percepções; períodos transitórios ocasionais quase psicóticos com ilusões intensas, alucinações auditivas ou outras e idéias pseudodelirantes, ocorrendo em geral sem fator desencadeante exterior. O início do transtorno é difícil de determinar, e sua evolução corresponde em geral àquela de um transtorno da personalidade.

F20.1 - ESQUIZOFRENIA HEBEFRÊNICA: Na HEBEFRENIA, a perda do mundo objetivo, ou de todo interesse nele é de observar-se sem quaisquer outras complicações. 

O EGO não realiza atividade alguma a fim de defender-se, mas dominado pelos conflitos "abandona-se". Se o presente é desagradável o EGO recai no passado, se falham novos tipos de adaptação o EGO refugia-se nos tipos infantis de receptividade passiva talvez até nos intra-uterinos.

*Campbell chamou a HEBEFRENIA de "RENDIÇÃO ESQUIZOFRÊNICA", no caso de ser por demais difícil um tipo mais diferenciado de vida, a esta se renuncia em troca de existência mais ou menos vegetativa.


*Forma de esquizofrenia caracterizada pela presença proeminente de uma perturbação dos afetos; as idéias delirantes e as alucinações são fugazes e fragmentárias, o comportamento é irresponsável e imprevisível; existem frequentemente maneirismos. O afeto é superficial e inapropriado. O pensamento é desorganizado e o discurso incoerente. Há uma tendência ao isolamento social. Geralmente o prognóstico é desfavorável devido ao rápido desenvolvimento de sintomas “negativos”, particularmente um embotamento do afeto e perda da volição. A hebefrenia deveria normalmente ser somente diagnosticada em adolescentes e em adultos jovens.


*F20.0 - ESQUIZOFRENIA PARANÓIDE
:
A esquizofrenia paranóide se caracteriza essencialmente pela presença de idéias delirantes relativamente estáveis, freqüentemente de perseguição, em geral acompanhadas de alucinações, particularmente auditivas e de perturbações das percepções. 


*As perturbações do afeto, da vontade, da linguagem e os sintomas catatônicos, estão ausentes, ou são relativamente discretos. Os DELÍRIOS, que são falsos juízos da realidade, baseados na projeção, tem a mesma estrutura da ALUCINAÇÕES limitam-se a sensações perceptuais, ao passo que os delírios se constróem com idéias mais complicadas e sistematizadas. 

*Os pacientes que tem ideias persecutórias são sensíveis à crítica e servem-se de percepções de críticas insignificantes reais, como base real do seu delírio que tendem a exagerar e distorcer para servir a este fim.

*Tal qual os "monstros" do sonho podem representar uma "ameaça" da vida cotidiana, assim o monstro do delírio paranóide pode ser um micróbio verdadeiro, falsamente apreendido. O indivíduo paranóico tem sensibilidade particular para perceber o inconsciente dos outros, sente claramente o inconsciente alheio, quando isso o capacita a deixar de ouvir o seu próprio inconsciente.

F20.2 - ESQUIZOFRENIA CATATÔNICA: A esquizofrenia catatônica é dominada por distúrbios psicomotores proeminentes que podem alternar entre extremos tais como hipercinesia e estupor, ou entre a obediência automática e o negativismo. Atitudes e posturas a que os pacientes foram compelidos a tomar podem ser mantidas por longos períodos. Um padrão marcante da afecção pode ser constituído por episódios de excitação violenta.


*Tausk mostrou que inúmeros sintomas esquizofrênicos revivem experiências do período em que o ego, no seu desdobramento, se descobriu a si mesmo e o seu ambiente.


 *O modo passivo pelo qual os pacientes experimentam os seus próprios atos, como se de forma alguma atuassem mas fossem obrigados a realizar certos movimentos ou a pensar certas ideias, que sentem "introduzidas" na sua mente, relacionam-se com um estádio primitivo do desenvolvimento do ego.

 *Há sintomas , por exemplo, as posturas e movimentos catatônicos que sugerem a possibilidade de ter havido até recorrência de impulsos, originados do período de vida intra-uterina.

*Os movimentos catatônicos estereotipados e certas atitudes esquisitas, ainda se reconhece a intenção proposital original, que falhando, se automatizou pela desintegração da personalidade e pela profunda regressão motora.


*Nos indivíduos 'normais' e nos neuróticos, a expressão facial é maneira decisiva de manifestar sentimentos relativos aos objetos. Que se percam, no entanto, as relações objetais, também a expressão facial perde a sua finalidade e o seu caráter pleno, tornando-se "vazia", enigmática, apenas representando tênue remanescente.


*Jung, em seu trabalho sobre ESQUIZOFRENIA, viu nas estereotipias e nos maneirismos, tentativas mórbidas de recuperar ou manter relações objetais que estão escapando. Muitas estereotipias, maneirismos, atos esquisitos são menos simples sintomas da perda das relações objetais que tentativas ativas de recuperá-las. O "riso desmotivado", caracteriza uma tentativa malograda de recuperar contato.


*F23 - TRANSTORNOS PSICÓTICOS AGUDOS E TRANSITÓRIOS
: Grupo heterogêneo de transtornos caracterizados pela ocorrência aguda de sintomas psicóticos tais como ideias delirantes, alucinações, perturbações das percepções e por uma desorganização maciça do comportamento normal.


*O termo “agudo” é aqui utilizado para caracterizar o desenvolvimento crescente de um quadro clínico manifestamente patológico em duas semanas no máximo. 

*Para estes transtornos não há evidência de uma etiologia orgânica. Em geral estes transtornos se curam completamente em menos de poucos meses, frequentemente em algumas semanas ou mesmo dias.

*Quando o transtorno persiste o diagnóstico deve ser modificado. O transtorno pode estar associado a um “stress” agudo (os acontecimentos geralmente geradores de “stress” precedem de uma a duas semanas o aparecimento do transtorno).

F25.0 - TRANSTORNO ESQUIZO AFETIVO DO TIPO MANÍACO
: Transtorno em que tanto sintomas esquizofrênicos quanto maníacos são proeminentes de tal modo que o episódio da doença não justifica um diagnóstico quer de esquizofrenia quer de episódio maníaco. Esta categoria deveria ser usada tanto para um único episódio, quer para classificar um transtorno recorrente no qual a maioria dos episódios são esquizo afetivos do tipo maníaco.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:  PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br/
Fenichel, Otto - Teoria Psicanalítica das Neuroses

Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

domingo, 15 de agosto de 2010

Ψ QUÍRON , o curador ferido

*Na mitologia QUÍRON é um centauro rejeitado e abandonado pela mãe, foi adotado por Apolo, que lhe ensinou música, poesia, ética, filosofia, artes divinatórias e terapias curativas.
*Conhecido por seus atributos tanto animal quanto divino, identificava-se mais com os humanos, era amigo deles e ensinava-lhes música, a arte da guerra e da caça e da cura.
*Entretanto, ainda não tinha consciência do quanto conheceria e compreenderia os humanos.  
*Amigo de Hércules, o centauro foi, inadvertidamente, atingido por uma flecha envenenada disparada por ele.
*O veneno mágico provocara uma ferida na sua metade animal que, embora não matasse, nunca curava.
*UMA FERIDA QUE, QUANDO TOCADA DOÍA MUITO. 
*QUÍRON aprendeu que precisava proteger aquele lugar.
*Proteger significava cuidar da melhor maneira, PRECISAVA CONHECER BEM AQUELE PONTO DE SENSIBILIDADE.
*Exatamente por isso, ele compreendeu profundamente quem eram os humanos.
*O Centauro ferido percebeu que todos possuem um lugar em seu ser de extrema sensibilidade, uma ferida que nunca fecha.
*Percebeu que isto não acontecia apenas no corpo, estava também na alma.
*Percebeu o medo da dor. E reconheceu que a dor era singular e constituía uma sensibilidade que identificava aquela pessoa.
*QUÍRON representa a ferida que precisa ser curada mas a qual paradoxalmente, não abrimos mão;
*Amaldiçoada e protegida acaba sendo a nossa perdição; 
*Sendo o ferido e o curador acaba por negligenciar a própria dor;
*Por ser curador pressupõe poderes absolutos sobre a vida e a morte;
*A surpresa: quando adoece o curador ferido percebe sua vulnerabilidade, a ferida narcísica fica exposta, ele precisará de ajuda ... 
*a mesma medida de sua humildade em contar e confiar no outro, é parte da cura. 
*Há que se quebrar resistências...
*Por outro lado, o mal curador poderá experimentar do próprio veneno, se menosprezava a dor alheia poderá receber na mesma proporção por caminhos que vá se saber... 
*Não minimize a dor alheia e tampouco menospreze a própria, o preço poderá ser alto;
*A ferida narcísica é peculiar a cada um, a dor que te sufoca pode ser a que me liberta; 
*Se a dor secreta ao ser compartilhada torna-se parte da cura, fica a questão: com quem compartilhar minha dor?
*Na alegria parece tudo mais fácil... E se eu não for compreendido? e se me julgarem?
*Serei exposto enfim... A ferida exposta sangra e sem os cuidados necessários degenera.
*Nesta alquimia, o processo é lento, às vezes solitário, não será fácil a um humano, como não foi a um semideus (que QUÍRON preferiu a morte à dor, lembra?)
*RESIGNAÇÃO/ RENDIÇÃO: Chamo à isso o processo de acatar a própria dor sem culpa, sem projeções (sem culpar outros), aceitação incondicional e então sair em busca de soluções.
 *Lembremos que quatro são os estágios alquímicos da alma: 
.CALCINATIO - fogo, queima as emoções egoicas/ domar o lado animal para que a vontade verdadeira se manifeste/ é o sacrifício voluntário de um desejo até que algo novo surja;
.SOLUTIO - água, purificação, morte e transformação, é uma experiência de rendição. O indivíduo experimenta a fluidez dos limites do ego e perde-se no inconsciente coletivo, une-se com o outro e mata o individualismo.
.COAGULATIO
- Processo de encarnação, materialização o que era potencialidade criativa se transforma em algo prático (envolve dinheiro, nutrição, prazeres);
.SUBLIMATIO - Ideia de alçar voo, envolve a transformação de uma experiência em sentido espiritual. A dor da frustração (calcinatio), dá lugar a um impulso artístico criativo. A poesia um processo artístico que tem a ver com sublimação, nasce das lágrimas e do riso do poeta. Internalizar um objeto exterior numa imagem interior é proprio do processo de sublimação. 


*E A FERIDA NARCÍSICA TERÁ FIM? 
*Não importa quão grave seja a doença, a iminência ou não da cura, pois a ferida mais secreta é o medo, o medo da morte, essa é a dor mais lastimável, é dela que fugimos e é com ela que nos defrontaremos enfim... 
*Perde-se o medo da morte após algumas experiências de confronto com a finitude da vida, ao sairmos ilesos ou levemente "chamuscados", uma nova dimensão se anuncia, já não perdemos tempo com trivialidades, cria-se habilidade para lidar com o essencial. 
*Faz-se algumas escolhas e sem o menor constrangimento, conseguimos dar um chega prá lá em situações e pessoas que vibram em padrões baixos que já não nos acrescentam mais nada.
*Então percebemos que a leveza é fundamental que a flor até existe! Se o caminho for o do silêncio é boa escolha, mas se for outro também está bem, desde que seu coração esteja em paz. 
*Nesta perspectiva, apesar das fatalidades, a liberdade é possível é ela que me permite escolhas (livre arbítrio). 
*Dentre as escolhas possíveis posso FORTALECER a VONTADE, fazer pequenas e sábias escolhas que me levarão a uma melhor qualidade de vida, bem como a sociedade a qual faço parte.
*Quíron revela uma área da vida em que fomos feridos em nosso senso de integridade.
*É uma região de extrema vulnerabilidade, a partir da qual desenvolvemos defesas equivocadas que nos impedem o confronto direto com nossa dor.
*Quíron traz em si a ferida e a cura, pois à medida que vivenciamos nosso sofrimento e desamparo, tornamo-nos mais inteiros e curados, porque mais sábios, mais humanos, quase divinos. 
*É por volta de 49/ 55 anos que algo em nosso íntimo se inquieta: estamos nos movendo para a morte ou nos movendo mais profundamente para a vida que é nossa espiritualidade e essência?
*Para aqueles que têm trabalhado na cura de suas feridas e estão abertos para sua espiritualidade pode ser um período verdadeiramente notável, genuíno e criativo em suas vidas que lhes permite encontrar enfim, seu lugar no mundo.
*Por outro lado, pode ser uma mortal experiência.

Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica - (elaborei o txt pensando em todos nós os "curadores", cuidadores, psicoterapeutas, assistentes sociais, médicos, sacerdotes, pastores, xamãs, guias espirituais, e terapeutas, que atuam em benefício do outro).

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ψ EPIGENÉTICA, os hábitos fazem o monge...


*Há mais coisas entre o seu código genético e o seu destino do que sonhavam os cientistas. Antes, eles achavam que um determinaria o outro em matéria de saúde. Mas um ramo recente da biologia, a EPIGENÉTICA, comprova em detalhes por que o vigor ou os problemas que o futuro lhe reserva não devem ser encarados apenas como mérito ou culpa do que está escrito em seu DNA. 

*Pesquisadores desvendam como a ALIMENTAÇÃO, o ESTRESSE, a PRÁTICA DE EXERCÍCIOS ou o TABAGISMO são capazes de influenciar o comportamento dos genes para o bem e para o mal.

*Para ilustrar essas descobertas, basta recorrer a um estudo recém-concluído na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.


 *Os médicos recrutaram 30 pacientes com câncer de próstata em estágio inicial e os submeteram por três meses a um programa que incluía dieta rica em vegetais e pobre em gorduras, exercícios moderados, técnicas de controle do estresse e participação em grupos de apoio.

 *Logo em seguida veio a constatação por meio de moderníssimos exames de DNA: essas medidas diminuíram a atividade de genes ligados ao surgimento de tumores e aumentaram a ação daqueles envolvidos na capacidade do organismo de enfrentá-los. O que ajudou (e muito) a brecar a evolução do problema.
 
*O que a EPIGENÉTICA faz, em resumo, é enxergar ao pé da letra o resultado dos nossos hábitos no interior de cada célula. Ali dentro esteja ela no cérebro ou no pé existe a receita completa de um indivíduo. Essa fórmula única é o seu material genético, o DNA.

*O que pode variar é a leitura dessa receita algumas células lêem os trechos que determinam como devem funcionar os neurônios e atuam como tal; outras decifram a parte necessária para executar as funções de uma célula de pele.  E assim por diante.

*Na receita também existem genes ligados a doenças e genes relacionados à capacidade de resistir aos males. Se são ou se não são lidos direito é o que determina quando as células de um órgão funcionarão bem ou serão um estorvo, dando origem a um câncer.

 *Agora os cientistas notam que existem fenômenos bioquímicos batizados de epigenéticos e intimamente associados aos hábitos.

 *Eles não chegam a alterar a seqüência do DNA, esclarece a biomédica Miriam Jasiulionis, da Universidade Federal de São Paulo. No entanto, o jeito como você vive pode, sim, destacar determinadas linhas, aumentando as chances de que se expressem. Ou fazer o contrário.

 *Os pesquisadores vasculham como a má alimentação ou o tabagismo metem o bedelho nos pedacinhos do DNA, reforçando a ameaça de doenças para as quais já temos tendência. 

*A boa notícia é que, em tese, dá para reparar os prejuízos de uma vida desregrada.

*Os mecanismos epigenéticos são reversíveis, conta a farmacêutica Cláudia Rainho, da Universidade Estadual Paulista, em Botucatu, no interior de São Paulo: Ou seja, se você adotar um estilo de vida mais saudável, será bem possível que alguns trechos nada agradáveis do seu DNA caiam no esquecimento.
 
*MUDANÇAS: Afinal, como uma mudança de hábito é capaz de se intrometer na atividade de um gene? A resposta é pura química. Diversas moléculas, resultantes do próprio trabalho do corpo e do que a gente come, por exemplo, são capazes de grudar em uma porção do código genético. 

*Entre essas figuras, destaca-se de longe o metil. Ele seria comparável a uma espécie de chave que consegue ligar ou desligar um gene, num fenômeno conhecido como metilação do DNA.

*Cerca de 60% dos nossos genes são passíveis de mecanismos assim, isto é, podem ser acionados ou inativados pelo metil, calcula Giseli Klassen, professora de patologia da Universidade Federal do Paraná.

*Para aplacar sua ansiedade: algumas peças-chave da célebre vida saudável, como o reles costume de comer brócolis ou cereais, incrementa a produção do bendito metil.


*A dúvida cruel é por que, se você come a porção de brócolis, por exemplo, as reações podem afetar positivamente um naco do DNA do seu fígado e, ao mesmo tempo, não se envolver com o mesmíssimo pedaço de DNA lá na cabeça.

*Assim como esses mecanismos podem se diferenciar de órgão para órgão, como se tivessem poder de decisão próprio, eles variam de pessoa para pessoa.


 *Até que ponto, então, o aparecimento de uma doença é resultado da receita que a gente carrega de berço ou de fenômenos bioquímicos disparados pelos hábitos? 

*Não sabemos ainda, responde Rafael Linden, professor do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mas é certo que ambos entram no jogo. E que as refeições podem ser grandes ou péssimas fornecedoras de chaves para mexer com genes destrambelhados.

*COMO FUNCIONA: Algumas substâncias encontradas nos alimentos transferem os compostos metil para o DNA, controlando a expressão de um gene, afirma a bióloga Lusânia Antunes, da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto.


 *Ao se incorporar num gene que favoreça o surgimento de um tumor, é como se esse metil o rendesse e o mantivesse caladinho.

*Mas há perguntas no ar: será que, da mesma forma que ele silencia um gene do mal, poderia calar um gene benéfico, responsável por uma função interessante à célula?

*Em suma, será que o metil sempre escolhe o alvo certo? Apesar de questionamentos assim, já se presume que alguns nutrientes contribuam de maneira favorável.

*Pesquisadores suspeitam de que a PRÁTICA DE EXERCÍCIOS FÍSICOS também ajude a deixar os genes em forma, por assim dizer.


 *É como se eles sentissem o resultado de aulas de musculação, corridas ou passeios de bicicleta frequentes.

* Na contramão, surgem provas de que os hábitos nocivos enlouquecem a maquinaria do DNA. 

*O cigarro e o excesso de álcool estão associados a alterações epigenéticas indesejáveis, conta Miriam Jasiulionis.

*Além disso, já se sabe que a fumaceira não só mexe com o comportamento dos genes mas também provoca mutações neles no caso, defeitos que ficam para sempre. Não é por acaso que os tabagistas têm mais câncer.

*A doença mais investigada pela epigenética, claro, é o câncer. As células normais e as tumorais apresentam um padrão de genes ativados e desativados diferente entre si, explica a bióloga Anamaria Camargo, do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer.


 *Os genes que controlam a proliferação celular geralmente ficam desativados nos exemplares doentes, conta a oncologista Mariângela Corrêa, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

 *E, enquanto estão impedidos de trabalhar, outros que fazem exatamente o oposto, ou seja, incentivam a desordem e deveriam ficar inertes os oncogenes estão ativados.


*Nas células saudáveis, vê-se o contrário: os genes supressores, que regulam a multiplicação, estão ativos, e os oncogenes, desligados.


*Para que todas as células continuem assim, firmes e fortes, a melhor estratégia é investir no estilo de vida é o que têm provado os primeiros estudos com seres humanos.

*HÁBITOS: E não pense que as medidas saudáveis, incluindo desde um cardápio balanceado até uma rotina com menos estresse, limitam-se ao seu exclusivo bem-estar. 


*Surgem indícios cada vez mais contundentes de que a maneira como você leva a vida seria transmitida para os genes dos seus filhos.

*Uma questão muito debatida é quanto se transmite dessa herança, conta Lygia Pereira, professora de genética humana da Universidade de São Paulo.

*Mas como isso aconteceria? Bem, nesse aspecto, mistérios ainda pairam. Até porque na fecundação, quando há a união do espermatozóide e do óvulo, uma cópia do DNA da mãe se acopla à do pai e, em meio a esse casamento, quase todo o material genético perde aquelas chaves, as metilações, que ligavam e desligavam os genes. Formam-se novas metilações durante o desenvolvimento do embrião, diz Cláudia Rainho.

*No entanto, uma pequena parcela dos genes herdados não sofre essa queima de arquivo e, assim, carrega totalmente a sua herança. 

*Deduz-se, assim, que quem viveu longe de cigarros e outras drogas, apostou na malhação e não se esqueceu de frutas e verduras no prato, entre outros ingredientes saudáveis, irá presentear seus filhos com uma bagagem genética de primeira, menos predisposta a doenças.

*Já quem não se cuidou pode transmitir não só as alterações epigenéticas indesejáveis como também mutações aqueles defeitos permanentes ao embrião. 


*E estas são indiscutivelmente mais herdadas, diz a biomédica brasileira Mariana Brait, da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

*Ou seja, O MODO COMO VOCÊ VIVE HOJE FAZ TODA A DIFERENÇA PARA O FUTURO DO SEU CORPO E PROVAVELMENTE PARA O DE SEUS DESCENDENTES TAMBÉM.
Fonte: Revista Saúde é Vital Edição: Allisson Bacelar 23.09.08
Ψ  Fatima Vieira - Psicóloga Clínica