quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O Psiquismo da Relação Amorosa

Você já se perguntou por que escolhemos exatamente 'aquela pessoa'? Como dizia Roland Barthes em Fragmentos de um Discurso Amoroso: "Eis um grande enigma do qual nunca terei solução. Por que desejo esse? É ele inteiro que desejo — uma silhueta, uma forma, uma aparência? Ou é apenas uma parte do seu corpo? E nesse caso, o que nesse corpo amado, tem tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente?"

O início de uma história de amor costuma ser pavimentado pelo encanto. Vivemos uma época feliz, imediatamente subsequente à primeira sedução, onde tudo parece leve: o jantar, o luar, o riso, a promessa clara do prazer. "Fui envolvido pelo doce começo. De uma doçura tão docemente doce..." (Ronsard)
Ou como refere Barthes: "Vivo dias tão bem aventurados como aqueles que Deus reserva a seus eleitos; e venha o que vier, não poderei dizer que as alegrias, as mais puras alegrias da vida, não as terei experimentado." 
                                               Pierre Auguste Cot
Contudo, como lembrou Goethe,"somos nossos próprios demônios"
                                                 Edvard Munch 
A sequência do episódio amoroso comumente deixa um rastro de angústias, mágoas e ressentimentos. O sujeito se vê preso em um nó de razões inexplicáveis e exclama: "Quero entender o que está acontecendo comigo!"
Ao deslumbramento inicial e à projeção exultante de um futuro perfeito, sucede-se muitas vezes um longo túnel de paixão triste.
É nesse momento que o casal costuma recorrer à psicoterapia. Não para repetir o passado, mas para tentar enunciar sua dor em uma linguagem diferente. O desejo é olhar de frente para o que divide e machuca a relação.
Na prática clínica, porém, o que se observa no início desse processo é uma constante ciranda de queixas:
Ela: Reclama do isolamento dele, das noites no computador, do desinteresse e da sobrecarga com a casa e a criação do filho.
Ele: Justifica-se no refúgio digital por sentir que só ocupa "um terço da casa", queixa-se de não ser compreendido e expressa a dor silenciosa de fumar compulsoriamente, da insatisfação sexual e da ejaculação precoce.
Muitas vezes, a narrativa do casal baseia-se em um livro de contabilidade afetiva: "Eu lhe dou mais do que recebo". Essa exposição dos próprios sacrifícios opera, na verdade, como uma sutil estratégia de dominação, e a relação vai se transformando em um ruído repetitivo.
Seriam as queixas repetitivas uma forma de encobrir a verdade?
Um artifício inconsciente para manter cada um distante de si mesmo e do outro?
Às vezes, por trás de anos de mágoas acumuladas, de um casamento que talvez tenha começado sob o peso de uma obrigação ou de expectativas não ditas, o que surge na sessão é a necessidade urgente de romper o ciclo.
Como bem pontua Barthes, "O sentimento de um acúmulo de sofrimentos amorosos explode no grito: Isso não pode continuar"!
                                                  Edvard Munch 
No fundo, esse protesto não é o fim, mas um grito de amor. É a tentativa de dizer: Quero me entender, me fazer conhecer, me fazer abraçar, quero que alguém me leve consigo, e quero encontrar um lugar saudável no amor. Em suma, quero que respeite minha subjetividade.
A psicoterapia de casal caminha sob essa neblina inicial para que, aos poucos, o inconsciente se torne consciente. Trata-se de resgatar o casal da armadilha das acusações mútuas e abrir espaço para a construção de novos projetos, sonhos e possibilidades reais de convivência.

Fonte:
BARTHES, Roland - FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO
LAMANNO, Vera Lúcia - REPETIÇÃO E TRANSFORMAÇÃO NA VIDA CONJUGAL/ A PSICOTERAPIA DO CASAL (interagindo pressupostos de Freud, Bianca, Winnicott e Joyce Mc Dougall)
𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica
http://www.fatimavieira.psc.br/

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A luta pela adaptação é uma coisa penosa...

“O Momento em que aparece uma situação mitológica é sempre caracterizado por uma intensidade emocional peculiar; é como se as cordas fossem tocadas em nós que nunca antes ressoaram, ou como se forças poderosas fossem desencadeadas de cuja existência nunca desconfiávamos. A luta pela adaptação é uma coisa penosa, pois temos que nos confrontar constantemente com condições individuais, quer dizer, atipicas. Não é de admirar que, quando alcançarmos tal situação, sintamos de repente ou a libertação toda especial, como se estivéssemos sendo carregados, ou nos sintamos agarrados por uma força superior. Em tais momentos não somos mais indivíduos, mas uma espécie; pois a voz de toda humanidade ressoa em nós.

(…) Toda referência ao arquétipo, seja experimentada ou apenas dita, é “perturbadora”, isto é, ela atua, pois ela solta em nós uma voz muito mais poderosa do que a nossa.
Quem fala através de imagens primordiais, fala como se tivesse mil vozes; comove e subjuga, elevando simultaneamente aquilo que qualifica de único e efêmero na espera do continuo devir, eleva o destino pessoal ao destino da humanidade. e com isso solta em nós aquelas forças benéficas que desde sempre possibilitaram a humanidade salvar-se de todos os perigos e também sobreviver à mais longa noite.” (JUNG, C.G, O Espirito na Arte e na Ciência)
                       𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Estamos imersos no mundo das imagens

”Encontramo-nos sempre presos à nossa experiência psicológica. Estamos imersos no mundo das imagens.
Independentemente do que dizemos sobre o psíquico, falamos sempre a partir de um arquétipo. Quando Freud diz que a razão e o inicio de tudo é a sexualidade, trata-se igualmente de uma ideia arquetípica. É a ideia primitiva por excelência, assim como a ânsia de poder de Adler. Estas duas idéias estão presentes entres os filósofos antigos, na ideias gnósticas e alquímicas: a natureza se deleita com a natureza, a natureza domina a natureza. Essa realidade foi expressa pelo símbolo da cobra que morde a própria cauda, o Uroboros.

Quando então acreditamos estar pronunciando uma verdade definitiva, estamos enganados: expressamos somente um arquétipo. Em suma, isso indica que o arquétipo vive. Vive em Freud, vive em Adler e igualmente em mim.” (JUNG, C.G. Seminários sobre Sonhos de Crianças)
                           𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica



segunda-feira, 13 de julho de 2026

(...)

“E se eu descobrisse que o mais pobre
dos mendigos e o mais insolente dos ofensores estão todos dentro de mim;
e que eu preciso das esmolas da minha própria bondade, que eu próprio sou o inimigo que deve ser amado - e então?"
 (Carl Gustav Jung)

                                                            gettyimage

                                𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica
                     http://www.fatimavieira.psc.br/

Total Eclipse of the Heart


                          𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A Persona

"O semblante falso deve ocultar o que o coração falso sabe."(Shakespeare/ Hamlet)

 Dario Puggioni
“Quem olha para o espelho da água verá primeiro seu próprio rosto. Quem vai para si mesmo arrisca um confronto consigo mesmo. O espelho não bajula, ele mostra fielmente tudo o que olha para ele; ou seja,
o rosto que nunca mostramos ao mundo porque o cobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por trás da máscara e mostra o verdadeiro rosto.” (Carl Jung)

"A persona é um sistema complicado de relações entre a consciência individual e a sociedade, apropriadamente uma espécie de máscara, projetada por um lado para causar uma impressão definitiva nos outros e, por outro, para ocultar a verdadeira natureza do indivíduo.(Carl Jung)

A palavra 'persona' deriva do latim, onde originalmente se referia a uma máscara teatral. No período romano mudou para indicar um 'personagem' de uma apresentação teatral ou tribunal, quando se tornou evidente que diferentes indivíduos podiam assumir o mesmo papel, e atributos legais como direitos, poderes e deveres acompanhavam o papel.

Jung passa a usar Persona como a máscara social que usamos e que fica entre nosso ego e a sociedade.

O ego se refere ao nosso centro de consciência responsável pelo nosso senso contínuo de identidade ao longo da nossa vida e a persona é a máscara social que usamos.

A persona começa a se formar cedo na infância a partir de uma necessidade de se conformar aos desejos e expectativas dos pais, colegas e professores.

As crianças aprendem rapidamente que certas atitudes e comportamentos são aceitáveis ​​e podem ser recompensados ​​com aprovação, enquanto outros são inaceitáveis ​​e podem resultar em punição. A tendência  então, é de construir traços aceitáveis ​​na persona e manter os traços inaceitáveis ​ escondidos ou reprimidos.

Esses aspectos indesejáveis ​​eventualmente cobram seu preço à medida que amadurecemos, formando nossa sombra,  por quem podemos ser possuídos a qualquer momento, em explosões emocionais repentinas e outros comportamentos.

Talvez por exemplo, ser assertivo seja visto como rude e socialmente inaceitável e a pessoa se torne passiva e agradável, afetando seus relacionamentos e carreira.

SegundoJung, a persona se torna hostil apenas quando é ignorada ou mal compreendida.

A negociação com a persona/sombra, é um processo que dura a vida toda, como parte do nosso autoconhecimento. Aprendemos com isso a resgatar as boas qualidades e outras nem tanto, que estão adormecidas em nossa psique.

Ela nos mostra o quanto podemos ser honestos sobre quem somos e o bem que podemos fazer e de quais crimes somos capazes. 

Jung descreve dois estágios da persona:
1. identificação: A performance da persona
é muito boa, desde que se saiba que não se é idêntico à forma como se parece, só se torna perigoso se se estiver inconsciente disso ou se superidentificar com isso.

2. Desintegração: onde a persona é intencionalmente ou não despedaçada, criando um estado de caos e desorientação.

Jung refere que se alguém cai no poder das imagens primordiais, e sem uma âncora na realidade, pode enlouquecer.

Em casos muito raros, pode-se ter duas ou mais personalidades que têm opiniões próprias e podem se contradizer; isso é conhecido como transtorno dissociativo de identidade, uma condição de saúde mental.

Assim fala Jung: "O objetivo da individuação não é nada menos do que despojar o eu dos falsos invólucros da persona, por um lado, e do poder sugestivo das imagens primordiais, por outro.”
                   𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

quarta-feira, 17 de junho de 2026

(...)

"A ideia de Jung sobre o autoconhecimento, como sabem, não significa ruminar de maneira subjetiva acerca de nosso ego: ‘Eu sou assim e assim’. Isso pode até ser útil, mas não é o que entendemos por autoconhecimento, que significaria incorporar as informações que obtemos a partir dos sonhos.                                                                              G.Gwozdecki

[...] se alguém quer conhecer a si mesmo, tem de aceitar a imagem que o sonho fornece a respeito dele. Se você sonha que se comporta como um tolo, embora subjetivamente se sinta muito razoável, deve tomar isso na mais séria consideração, pois, de acordo com o inconsciente, ou de acordo com a luz que o arquétipo do Self derrama sobre o seu comportamento consciente, você está se comportando como um tolo. Este é um elemento de informação objetiva obtida a partir de um sonho, quer você goste ou não, e vocês sabem quão frequentemente não se gosta do que se sonha. Este é o tipo de informação que provém da psique objetiva dentro de nós, e que pensamos ser útil e aconselhável aceitar.” (Marie-Louise Von Franz, Alquimia e a Imaginação Ativa)
             𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

terça-feira, 16 de junho de 2026

A consciência humana é a conquista cósmica mais notável (Jung)

"Em última análise - refere Jung em Memórias, Sonhos e Reflexões, "só me parecem dignos de ser narrados acontecimentos de minha vida através
dos quais o *mundo eterno irrompeu no *mundo efêmero."

*Mundo Eterno: Representa o inconsciente coletivo, os arquétipos, as experiências espirituais e a realidade psíquica profunda.

*Mundo Efêmero: Refere-se à nossa realidade material, à vida cotidiana, aparências externas 
e ao ego passageiro.

*Escolha Narrativa: Jung sugere que fatos biográficos vulgares (como viagens ou sucessos mundanos) têm pouco valor. O que realmente importa são os momentos em que o mistério, o inconsciente e o sagrado rompem as barreiras do cotidiano, deixando uma marca transformadora. 
    
E
m conflito íntimo ou nos momentos de serenidade e meditação - especialmente nestes -, ele se punha a observar ao que chama 'jogo alternado das personalidades 1 e 2', que não se trata de dissociação da personalidade.
"O símbolo, assim como o sintoma, é o modo como
a psique se regula e se cura."
Para Jung, "a consciência humana é a conquista cósmica mais notável."
Sobre esta questão assim refere Anthony Stevens: 'Era como se o cosmos tivesse desejado tornar-se consciente de si mesmo e criado a consciência como um meio para atingir esse objetivo.'
                     𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica         http://www.fatimavieira.psc.br/

quarta-feira, 22 de abril de 2026

domingo, 11 de janeiro de 2026

Alquimia 𝚿 Psicoterapia

"Quem Sou Eu?" É necessário tornar-se consciente de nossa natureza espiritual para responder a essa questão. 
As Quatro Etapas Alquímicas (Magnum Opus) e o processo psicoterapêutico:

*Nigredo (escurecimento): fogo - aquele que não suportar o fogo, será consumido por ele; Envolve dissolução, decomposição e a redução da matéria à sua prima matéria.
*Na Psicoterapia: é vivenciada como a entrada no mundo inconsciente, obscuro e caótico. São João da Cruz se referiu a isso como "a noite escura da alma".
O encontro mais sombrio do nosso ser. As neuroses surgem porque o indivíduo não consegue suportar as próprias ambiguidades. O mal não é uma força externa à nós. Em condições favoráveis, o indivíduo tem potencial fascista, tirano ou fanático... O encontro com a sombra coletiva implica em reconhecer a própria sombra.

*Albedo (branqueamento): etapa lunar, purificação; surgimento da percepção, clareza reflexiva e integração dos sentimentos.
*Na Psicoterapia: O paciente começa a ser percebido como alguém que gradativamente vai se afastando do fluxo caótico da vida. Aqui o indivíduo pode ter 'insights' repentinos sobre si mesmo e começa a questionar o rumo de sua vida. Separa o joio do trigo, o que realmente importa e o que não serve mais. Se o paciente se dedicar de forma completa, profunda, autêntica e persistente este período levará a uma maior consciência espiritual. O confronto com o inconsciente, o material sombrio, os complexos pessoais e a quebra de padrões antigos e neuróticos; O paciente se reconhece e traz o conteúdo inconsciente para a consciência, rompendo as defesas.

*Citrinitas (amarelamento): O despertar da sabedoria espiritual, o aspecto "solar", uma transição em direção ao ouro. O intelecto Divino, quando esta luz se torna consciente em nós se revela o conhecimento verdadeiro.
*Na Psicoterapia: a morte psicológica que anuncia a ressurreição. O paciente pode sentir a perda do senso de individualidade e entrar em um mundo quase totalmente subjetivo. Há pouca ou nenhuma possibilidade de objetividade, de o paciente se distanciar da experiência. Desenvolvimento da sabedoria, intuição e uma missão de vida única; integração do "solar" (consciente) com o "lunar" (inconsciente).

*Rubedo(vermelhidão): O estágio final, a conquista da pedra filosofal
 a união dos opostos (conjunctio), que leva ao ouro. 
*Na Psicoterapia: É nesta etapa que o paciente se depara com a tarefa de implementar percepções da sua vida e transcender a natureza de seus problemas e dilemas. Conclusão, estabilização e reorientação de vida com propósito e criatividade renovados. (vale relembrar que o princípio 'solve e coagula', pode ser observado em cada etapa do processo alquímico, assim como na psicoterapia). 

Fonte: HAMILTON, Nigel - Processo Alquímico de Transformação
EDINGE, Edward F. Anatomia da Psique: Simbolismo Alquimico em Psicoterapia
Fontes de Jung: Interpretações psicológicas aparecem em ensaios de Psicologia e Alquimia Observação clínica; Análise de sonhos; Mitologia comparada e Simbolismo hermético.
 𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica 
  

sábado, 11 de outubro de 2025

Sou sempre todos os meus filhos

"Sei dos filhos

pelo modo como ocupam a casa:

uns buscam os recantos,

outros existem à janela.

A uns satisfaz uma sombra,

a outros nem o mundo basta.

Uns batem com a porta,

outros hesitam como se não houvesse saída.

Raras vezes sou pai.

Sou sempre todos os meus filhos,

(...) e me converti em sonolenta janela.

Agora, eu mesmo sou a casa,

casa infatigável casa

a que meus filhos

eternamente regressam".

(Mia Couto)

                                        𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

                                                     http://www.fatimavieira.psc.br/

(...)

"Você brincou,

(eu acho)

E quebrou os brinquedos que você mais gostava,

e está um pouco cansado agora;

Cansado de coisas que quebram 

... apenas cansado.

Eu também estou." (e.e. Cummings)

                                                                      T. Koshelieva/ Crédito: Getty Images

"É preciso coragem para crescer e se tornar quem você realmente é."  (e.e. Cummings)

                                    𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

                                             http://www.fatimavieira.psc.br/

terça-feira, 26 de agosto de 2025

27 de agosto dia do Psicólogo (a)

                                                   imagem: iStock

                                          
                                       𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

                                        http://www.fatimavieira.psc.br/

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

 "A raça humana é um assunto monótono. A maioria das pessoas passa a maior parte do tempo trabalhando para viver e a pouca liberdade que resta as enche de medo..." (Goethe)

                                                   Claude Monet
"Uma serenidade maravilhosa tomou posse de toda a minha alma, como essas doces manhãs de primavera que eu aproveito de todo o coração. Estou sozinho e sinto o encanto da existência neste lugar, que foi criado para a bem-aventurança de almas como a minha. Estou tão feliz, meu caro amigo, tão absorto no senso requintado da mera existência tranquila, que negligencio meus talentos. Eu deveria ser incapaz de desenhar um único traço no momento presente; e ainda assim sinto que nunca fui um artista maior do que agora.         Ivan Kovalenco   
Quando, enquanto o lindo vale fervilha de vapor ao meu redor, e o sol do meio-dia atinge a superfície superior da folhagem impenetrável de minhas árvores, e apenas alguns raios perdidos se infiltram no santuário interno, eu me jogo entre a grama alta perto do riacho que corre; e, enquanto me deito perto da terra, mil plantas desconhecidas são notadas por mim: quando ouço o zumbido do pequeno mundo entre os caules, e me familiarizo com as inúmeras formas indescritíveis dos insetos, então sinto a presença do Todo-Poderoso, que nos formou à sua própria imagem, e o sopro daquele amor universal que nos carrega e sustenta, enquanto flutua ao nosso redor em uma eternidade de bem-aventurança; e então, meu amigo, quando a escuridão cobre meus olhos, e o céu e a terra parecem habitar minha alma e absorver seu poder, como a forma de uma amada amante, então muitas vezes penso com saudade.                 
                                                                                           Claude Monet
Se eu pudesse descrever essas concepções, pudesse imprimir no papel tudo o que está vivendo tão pleno e quente dentro de mim, que pudesse ser o espelho da minha alma, como minha alma é o espelho do Deus infinito! Ó meu amigo — mas é demais para minha força — eu afundo sob o peso do esplendor dessas visões!"
 (Johann Wolfgang von Goethe, 'Os Sofrimentos do Jovem Werther')
                                                       𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

domingo, 25 de maio de 2025

Jung e o Oráculo I Ching

I Ching: um procedimento alquímico 

Sobre Oráculo: A verdadeira resposta está no coração de cada um. Deus põe as cartas na mesa, o destino as corta. Quem faz as apostas é você. (Porém, você não pode manipular o mundo sempre ao seu gosto. O mundo é um vaso espiritual, o vaso de um deus. Não está somente sob seu controle e nunca estará).

"(...) mas a voz dos deuses é a mesma em todos os lugares. Em todos os países, mesmo longe de casa, encontram-se as mesmas regras universais. As regras humanas podem diferir fundamentalmente, mas a voz dos deuses é a mesma em todos os lugares. Quem ouve essas vozes pode falar todas as línguas da Terra, encontrará segurança e um lar onde quer que esteja. Deus, Alá, Manitou e Buda vêm todos da mesma fonte, apenas os nomes são diferentes. Então fale e comporte-se a partir dessa fonte, e aceite as regras humanas como sendo parte da paisagem local. Adapte-se a elas com cuidado extra, para compensar a falta de familiaridade com elas. Em cada situação desconhecida e nova, comporte-se como se estivesse em um país estranho."(citado no livro "Evangelii Gaudium", do Papa Francisco)

"O I Ching pode me mudar, se eu tiver paciência para meditar. É como um vinho de safra nobre." (Carl Jung, Conversas com CG Jung)

O Oráculo de Delfos (sec. IV a.C): tratava-se de um santuário grego onde uma sacerdotisa em estado de transe, comunicava o conselho de uma divindade, em resposta a perguntas de suplicantes que buscavam tal conselho profético quando decisões cruciais em suas vidas precisavam ser tomadas.

O principal conselho inscrito no local, era "Conhece-te a ti mesmo" ou "Conhece a tua alma". A psique compreendia forças de natureza espiritual que emanam da Alma e desafiam a noção de "realidade" apresentada pela vida externa e mundana do ego. 

A palavra grega "psique" (ψυχή) tem raízes no verbo "psychō", que significa "soprar" ou "respirar", tendo ligação com a respiração e o sopro vital. A Psicologia no sec. IX, foi descrita como a "ciência que trata a psique" agora usando o termo "psique" para significar a totalidade do ser humano.

Como Jung fez o paralelo entre a sua abordagem e o I Ching?
A Psicologia Analítica é uma abordagem da psicologia desenvolvida por Carl Jung que enfatiza a importância dos símbolos, mitos e arquétipos na compreensão da mente humana.
A psicologia analítica busca explorar o inconsciente coletivo e os processos de individuação. Sendo que o processo de individuação é o caminho para nos tornarmos indivíduos completos e integrados.
Jung criou o termo arquétipo para designar padrões universais de pensamento, comportamento e imagens simbólicas que são inerentes à natureza humana. Os arquétipos são considerados elementos fundamentais da psique humana e podem ser encontrados em mitos, contos de fadas e religiões.
filosofia chinesa possui um conjunto de tradições filosóficas que inclui o confucionismo, o taoísmo e o budismo, que enfatizam a harmonia com a natureza, o equilíbrio entre opostos e a busca da sabedoria através da contemplação e prática.
O I Ching, também conhecido como “O Livro das Mutações”, é um antigo oráculo chinês que remonta a mais de 3.000 anos atrás. 
Esse livro sagrado é composto por 64 hexagramas.


Jung acreditava que o uso do I Ching poderia nos auxiliar no processo de auto conhecimento, pois nos conecta com aspectos profundos de nossa psique e nos ajuda a compreender nossos desafios e potenciais.

O termo “sincronicidade” foi cunhado por Jung e se refere àquelas coincidências significativas nas quais circunstâncias externas refletem de maneiras surpreendentes o processo interno da pessoa envolvida, às vezes com implicações transformadoras de vida. Percebeu que no contexto do I Ching, a interpretação dos hexagramas e das respostas obtidas também ocorrem através da sincronicidade. O I Ching era visto por Jung como um símbolo poderoso que representava a sincronicidade, ou seja, a conexão entre eventos externos e estados internos da mente. Ele acreditava que o I Ching podia revelar padrões ocultos no universo.

O I Ching pode ajudar a trazer clareza, orientação e insights profundos para a nossa vida. Ele nos ajuda a compreender melhor os desafios que enfrentamos e a encontrar soluções criativas para os problemas do dia a dia, bem como uma ferramenta para acessar o inconsciente coletivo e obter insights da psique humana.
Jung usava o I Ching em suas sessões de terapia para ajudar seus pacientes a encontrar respostas profundas dentro de si mesmos.

Fonte: Richard Wilhelm - "O Livro das Mutações"

Carl Jung sobre “I Ching” - Antologia

𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica