Você já se perguntou por que escolhemos exatamente 'aquela pessoa'? Como dizia Roland Barthes em Fragmentos de um Discurso Amoroso: "Eis um grande enigma do qual nunca terei solução. Por que desejo esse? É ele inteiro que desejo — uma silhueta, uma forma, uma aparência? Ou é apenas uma parte do seu corpo? E nesse caso, o que nesse corpo amado, tem tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente?"
O início de uma história de amor costuma ser pavimentado pelo encanto. Vivemos uma época feliz, imediatamente subsequente à primeira sedução, onde tudo parece leve: o jantar, o luar, o riso, a promessa clara do prazer. "Fui envolvido pelo doce começo. De uma doçura tão docemente doce..." (Ronsard)É nesse momento que o casal costuma recorrer à psicoterapia. Não para repetir o passado, mas para tentar enunciar sua dor em uma linguagem diferente. O desejo é olhar de frente para o que divide e machuca a relação.
Na prática clínica, porém, o que se observa no início desse processo é uma constante ciranda de queixas:
Ela: Reclama do isolamento dele, das noites no computador, do desinteresse e da sobrecarga com a casa e a criação do filho.
Ele: Justifica-se no refúgio digital por sentir que só ocupa "um terço da casa", queixa-se de não ser compreendido e expressa a dor silenciosa de fumar compulsoriamente, da insatisfação sexual e da ejaculação precoce.
Muitas vezes, a narrativa do casal baseia-se em um livro de contabilidade afetiva: "Eu lhe dou mais do que recebo". Essa exposição dos próprios sacrifícios opera, na verdade, como uma sutil estratégia de dominação, e a relação vai se transformando em um ruído repetitivo.
Seriam as queixas repetitivas uma forma de encobrir a verdade?
Um artifício inconsciente para manter cada um distante de si mesmo e do outro?
Às vezes, por trás de anos de mágoas acumuladas, de um casamento que talvez tenha começado sob o peso de uma obrigação ou de expectativas não ditas, o que surge na sessão é a necessidade urgente de romper o ciclo.
Como bem pontua Barthes, "O sentimento de um acúmulo de sofrimentos amorosos explode no grito: Isso não pode continuar"!
No fundo, esse protesto não é o fim, mas um grito de amor. É a tentativa de dizer: Quero me entender, me fazer conhecer, me fazer abraçar, quero que alguém me leve consigo, e quero encontrar um lugar saudável no amor. Em suma, quero que respeite minha subjetividade.
A psicoterapia de casal caminha sob essa neblina inicial para que, aos poucos, o inconsciente se torne consciente. Trata-se de resgatar o casal da armadilha das acusações mútuas e abrir espaço para a construção de novos projetos, sonhos e possibilidades reais de convivência.
Fonte:

















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