segunda-feira, 22 de junho de 2026

A Persona

"O semblante falso deve ocultar o que o coração falso sabe."(Shakespeare/ Hamlet)

 Dario Puggioni
“Quem olha para o espelho da água verá primeiro seu próprio rosto. Quem vai para si mesmo arrisca um confronto consigo mesmo. O espelho não bajula, ele mostra fielmente tudo o que olha para ele; ou seja,
o rosto que nunca mostramos ao mundo porque o cobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por trás da máscara e mostra o verdadeiro rosto.” (Carl Jung)

"A persona é um sistema complicado de relações entre a consciência individual e a sociedade, apropriadamente uma espécie de máscara, projetada por um lado para causar uma impressão definitiva nos outros e, por outro, para ocultar a verdadeira natureza do indivíduo.(Carl Jung)

A palavra 'persona' deriva do latim, onde originalmente se referia a uma máscara teatral. No período romano mudou para indicar um 'personagem' de uma apresentação teatral ou tribunal, quando se tornou evidente que diferentes indivíduos podiam assumir o mesmo papel, e atributos legais como direitos, poderes e deveres acompanhavam o papel.

Jung passa a usar Persona como a máscara social que usamos e que fica entre nosso ego e a sociedade.

O ego se refere ao nosso centro de consciência responsável pelo nosso senso contínuo de identidade ao longo da nossa vida e a persona é a máscara social que usamos.

A persona começa a se formar cedo na infância a partir de uma necessidade de se conformar aos desejos e expectativas dos pais, colegas e professores.

As crianças aprendem rapidamente que certas atitudes e comportamentos são aceitáveis ​​e podem ser recompensados ​​com aprovação, enquanto outros são inaceitáveis ​​e podem resultar em punição. A tendência  então, é de construir traços aceitáveis ​​na persona e manter os traços inaceitáveis ​ escondidos ou reprimidos.

Esses aspectos indesejáveis ​​eventualmente cobram seu preço à medida que amadurecemos, formando nossa sombra,  por quem podemos ser possuídos a qualquer momento, em explosões emocionais repentinas e outros comportamentos.

Talvez por exemplo, ser assertivo seja visto como rude e socialmente inaceitável e a pessoa se torne passiva e agradável, afetando seus relacionamentos e carreira.

SegundoJung, a persona se torna hostil apenas quando é ignorada ou mal compreendida.

A negociação com a persona/sombra, é um processo que dura a vida toda, como parte do nosso autoconhecimento. Aprendemos com isso a resgatar as boas qualidades e outras nem tanto, que estão adormecidas em nossa psique.

Ela nos mostra o quanto podemos ser honestos sobre quem somos e o bem que podemos fazer e de quais crimes somos capazes. 

Jung descreve dois estágios da persona:
1. identificação: A performance da persona
é muito boa, desde que se saiba que não se é idêntico à forma como se parece, só se torna perigoso se se estiver inconsciente disso ou se superidentificar com isso.

2. Desintegração: onde a persona é intencionalmente ou não despedaçada, criando um estado de caos e desorientação.

Jung refere que se alguém cai no poder das imagens primordiais, e sem uma âncora na realidade, pode enlouquecer.

Em casos muito raros, pode-se ter duas ou mais personalidades que têm opiniões próprias e podem se contradizer; isso é conhecido como transtorno dissociativo de identidade, uma condição de saúde mental.

Assim fala Jung: "O objetivo da individuação não é nada menos do que despojar o eu dos falsos invólucros da persona, por um lado, e do poder sugestivo das imagens primordiais, por outro.”
                   𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

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