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sábado, 13 de junho de 2015

Ψ sobre o jardim secreto

"Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim.

 (...) jardins precisam de terra para existir. 

 O meu só tinha sonhos.

(...) Os sonhos viviam dentro de mim.

Eram posse minha.

Um dia o inesperado aconteceu.

O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.

(...) Não chamei paisagista.
 

Paisagistas são especialistas em jardins bonitos.

Mas não era isto que eu queria.

Queria um jardim que falasse.

Pois você não sabe que os jardins falam? 


Quem diz isto é o Guimarães Rosa: 'São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam.
Os pássaros dos ventos do céu - trazem recados'. 

Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro.

Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... "
(Rubem Alves)


 (...) a árvore da vida cresce apenas no círculo mágico, o símbolo da unicidade, e que é o seu jardim.

*Não há como escapar nosso espírito precisa de paz e liberdade.

*O poder da vida vem daquela árvore ou daquela flor que você cultiva no seu coração.

*Deixe os sentimentos falarem e os ouça bem.

*Siga apenas o que você reconhecer que vale à pena.  

*A mente livre faz a escolha certa sem muito esforço.

*e somos responsáveis até pelas escolhas que não deram certo.
*O mal existe, prisões também ... você pode ser um prisioneiro de opiniões, medos, culpas.

*Condicionamento social é uma das piores prisões, não precisa nem mesmo de paredes.

*Condicionamentos nos fazem viver de reações. Não cerque seu jardim com portão de ferro.

*Seja verdadeiro, nunca genérico: (flores de plástico não perfumam);

*Acredite ... somente no seu jardim você estará seguro e aconchegado, ninguém poderá feri-lo.

*A vida nunca é perfeita, há sempre um monte de coisas frustrantes.

*e há sempre coisas boas, mesmo em uma vida dura.
*Diz Jung: "A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor." 

Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

terça-feira, 22 de julho de 2014

Ψ Rubem Alves

 (...) Já tive medo de morrer. Não tenho mais. Tenho tristeza. A vida é muito boa. Mas a Morte é minha companheira. Sempre conversamos e aprendo com ela. Quem não se torna sábio ouvindo o que a Morte tem a dizer está condenado a ser tolo a vida inteira. (Rubem Alves - 1933/ 2014)

*Quem sou eu?
*Minha filosofia pode ser resumida em duas frases latinas: "Tempus Fugit": o tempo foge, passa, tudo é espuma... 


*E "Carpe Diem": colha cada dia como um fruto saboroso que cresce na parede do abismo. Colha hoje porque amanhã estará podre. Sonho em ter tempo para aprender a vagabundear.

*O que tenho sentido?
Beleza. Nostalgia. Tristeza. Cansaço. Urgência. A curteza do tempo. Esperança? Sonhei ser um pianista. Mas os deuses tinham outros planos para mim. Gosto de brincar com palavras. Por isso sou escritor. Escritores e poetas são meus companheiros.

*Dentro de mim mora um palhaço e um poeta: riso e beleza... Se eu não fosse escritor acho que seria um jardineiro.


*No paraíso Deus não construiu altares e catedrais. Plantou um jardim.

*Deus é um jardineiro. Por isso plantar jardins é a mais alta forma de espiritualidade. Acredito, como poeta e palhaço, que o fruto paradisíaco era o caqui...

*Golpes duros na vida me fizeram descobrir a literatura e a poesia. Dão pão para corpo e alegria para a alma.

*Ciência dá saberes à cabeça e poderes para o corpo. Ciência é fogo e panela: coisas indispensáveis na cozinha. 

*Mas poesia é o frango com quiabo, deleite para quem gosta...

*Sou Psicanalista, embora heterodoxo. Minha heterodoxia está no fato de que acredito que no mais profundo do inconsciente mora a beleza. Com o que concordam Sócrates, Nietzsche e Fernando Pessoa. Exerço a arte com prazer. Minhas conversas com meus pacientes são a maior fonte de inspiração que tenho para minhas crônicas.

 ** Leituras de prazer especial: Nietzsche, T. S. Eliot, Kierkegaard, Camus, Lutero, Agostinho, Angelus Silésius, Guimarães Rosa, Saramago, Tao Te Ching, o livro de Eclesiastes, Bachelard, Octávio Paz, Borges, Barthes, Michael Ende, Fernando Pessoa, Adélia Prado, Manoel de Barros.
**Pintura: Bosch, Brueghel, Grünnenwald, Monet, Dali, Larsson.
** Música: Canto Gregoriano, Bach, Beethoven, Brahms, Chopin, César Franck, Keith Jarret, Milton, Chico Buarque, Tom Jobim.
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Fonte Site oficial do escritor 

Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

domingo, 29 de abril de 2012

A Arte de Engolir Sapos

*O Adão, meu amigo, professor de biologia, já encantado, amava os sapos ... acho que o Adão achava os sapos bonitos. E é certo que eles têm uma beleza que lhes é peculiar.
*O filósofo Ludwig Feuerbach diria que para os sapos não existe nada mais belo que o sapo e, se entre eles houvesse teólogos, haveriam de dizer que Deus é um sapo. 
*Cada forma de vida é o Bem Supremo para si mesma.
*Eu mesmo, sem ter a sensibilidade do Adão, escrevi um livro para crianças em que um dos heróis é o sapo Gregório. Mas desejo confessar que não acho os sapos bonitos.

*(...)  mas o fato é que nós, humanos, não consideramos os sapos como animais com que gostaríamos de conviver. Ter um cãozinho, um gato ou um coelho como bichinho de estimação, tudo bem. Mas se o menino quisesse ter um sapo como bichinho de estimação, os pais tratariam de levá-lo logo a um psicólogo para saber o que havia de errado com ele.
*Sapo é bicho de pesadelo. Quem sugere isso são as Escrituras Sagradas. Está relatado, no capítulo oitavo do livro de Êxodo, que Deus, para dobrar a obstinação do faraó egípcio que não queria deixar que o povo de Israel se fosse, enviou-lhe uma série de pragas de horrores, uma delas sendo a dos sapos. Diz o texto que a praga era de rãs, mas não faz muita diferença. Eis que castigarei com rãs todos os teus territórios, o rio produzirá rãs em abundância, que subirão e entrarão em tua casa, no teu quarto de dormir, e sobre o teu leito, e nas casas dos teus oficiais, e sobre o teu povo, e nos teus fornos e nas tuas amassadeiras. Já imaginaram o horror? 
*(...) A bruxa poderia ter transformado o príncipe numa girafa, num tatu ou num gato. Escolheu transformá-lo no mais nojento, um sapo. E há aquela outra estoria em que o sapo queria dormir na cama com a princesinha. Tão horrorizada ela ficou de ter de dormir com um sapo que, para evitar os beijos e seus desenvolvimentos inevitáveis, pegou-o pela perna e jogou-o contra a parede. Esse ato teve efeito mágico pois, o sapo transformou-se em príncipe. Já aconselhei pessoas a lançar contra a parede seus sapos e sapas conjugais, para ver se o contra-feitiço funciona também para os humanos. Parece que não.
*O horror do sapo aparece também numa sugestiva expressão popular: "ter de engolir sapo". Por que não "ter de engolir gato", "ter de engolir borboleta", "ter de engolir tico-tico"? Porque mais nojento que sapo não existe. Essa expressão traz o sapo para o campo das atividades alimentares. Engolir é comer. O ato de comer é presidido pelo paladar. O paladar é uma função discriminatória. Ele separa o saboroso do não-saboroso. O saboroso é para ser engolido com prazer. O não saboroso, o corpo se recusa a comer. Cospe. "Ter de engolir sapo": ser forçado a colocar dentro do corpo aquilo que é nojento, repulsivo, viscoso, frio, mole. Não há forma de engolir sapo com prazer. Engolir um sapo é ser estuprado pela boca.

*(...) A psicanálise me ensinou a aceitar a possibilidade dos mais estranhos prazeres perversos. Mas não há relaxamento que faça do ato de engolir um sapo uma experiência prazerosa. Por que engolir um sapo? Há pessoas que engolem sapos por medo. Bem que seria possível evitar a repulsiva refeição: o sapo é um sapinho. Mas elas preferem engolir o sapo a enfrentá-lo. Não têm coragem de pegá-lo e jogá-lo contra a parede. Pessoas que fizeram do ato de engolir sapos um hábito acabam por ficar parecidas com eles: andam aos pulos, sempre rente ao chão e coaxam monotonamente.

*Mas há situações em que é inevitável engolir o sapo. Eu mesmo já engoli muitos sapos e disto não me envergonho. O meu desejo, com esta crônica, é dar uma contribuição ao saber psicanalítico, que até agora fez silêncio sobre o assunto. Muitos dos sintomas neuróticos que afligem as pessoas resultam de sapos engolidos e não digeridos. Tudo começa com um encontro: à minha frente um sapo enorme, ameaçador, com boca grande. A prudência me diz que é melhor engolir o sapo a ser engolido por ele. É melhor ter um sapo dentro do estômago (sapos engolidos nunca vão além do estômago) do que estar no estômago do sapo.
*Aí, impotente e sem opções, deixo que ele entre na minha boca, aquela massa mole e nojenta. É muito ruim. O estômago protesta, ameaça vomitar. Explico-lhe as razões. Ele cessa os seus protestos, resignado ao inevitável. Não consigo mastigar o sapo. Seria muito pior. Engulo. Ele escorrega e cai no estômago. Alimentos não digeríveis são eliminados pelo aparelho digestivo de duas formas: ou são expelidos pelo vômito ou são expelidos pela diarreia. Os sapos são uma exceção. Não são digeridos mas não são expelidos nem pelas vias superiores nem pelas vias inferiores. Os sapos se alojam no estômago. Transformam-no em morada. Ficam lá dentro. Por vezes hibernam. Mas logo acordam e começam a mexer. 
*Ninguém engole sapo de livre vontade. Engole porque não tem outro jeito. Tem sempre alguém que nos obriga a engolir o sapo, à força. A pessoa que nos obriga a engolir o sapo, a gente nunca mais esquece.  
*Diz a Adélia que "aquilo que a memória amou fica eterno". Aí eu acrescento algo que aprendi no Grande sertão. Conversa de jagunços matadores. Diz um: "Mato mas nunca fico com raiva." Retruca o outro, espantado: "Mas como?" Explica o primeiro: "Quem fica com raiva leva o outro para a cama."   
*É isso. A gente leva para a cama a pessoa que nos obrigou a engolir o sapo. A raiva também eterniza as pessoas. Não adianta falar em perdão. A gente fica esperando o dia em que ela também terá de engolir um sapo. (Rubem Alves)

domingo, 9 de agosto de 2009

Pai

(...) lembrei-me dos meus sentimentos antigos de pai, diante dos meus filhos adormecidos.
Veio-me à mente a imagem de um ninho... 
Bachelard Imaginou que, 'para o pássaro, o ninho é uma cálida e doce morada'. 
É uma casa de vida: continua a envolver o pássaro que sai do ovo.
Para este, o ninho é uma penugem externa antes que a pele nua encontre sua penugem corporal. 
Era isso que eu queria ser. Eu queria ser ninho para os meus filhos pequenos.
Queria que meu corpo fosse um ninho-penugem que os protegesse, um ninho que balança mansamente no galho de uma árvore ao ritmo de uma canção de ninar... 
Que felicidade enche o coração de um pai quando o filho que ele tem no colo se abandona e adormece!
Adormecida, a criança está dizendo: “tudo está bem; não é preciso ter medo“. Deitada adormecida nos braços-ninho do seu pai ela aprende que o universo é um ninho! Não importa que não seja! Não importa que os ninhos estejam todos destinados ao abandono e ao esquecimento! 
A alma não se alimenta de verdades. Ela se alimenta de fantasias. O ninho é uma fantasia eterna.
(...) Aquela cena, a criança adormecida nos braços do pai, nos reconduz à cena de uma criancinha adormecida na estrebaria de Belém! Tudo é paz! 
Desejaríamos que ela, a cena, não terminasse nunca! Que fosse eterna!
E serão os olhos do pai, no espaço que seus braços já não podem conter, que irão marcar os limites do ninho.
A criança se sente segura se, de longe, ela vê que os olhos do seu pai a protegem. Olhos também são colos. Olhos também são ninhos.
O que a criança deseja não é liberdade. O que ela deseja é excursionar, explorar o espaço desconhecido, desde que seja fácil voltar. 
Tela de Van Gogh. É um jardim. No lado direito do jardim, mãe e criança que acabam de chegar. Ao lado esquerdo o pai, jardineiro, agachado com os braços estendidos na direção do filho.
 É preciso que o pai esconda o seu tamanho, que ele esteja agachado para que seus olhos e os olhos do seu filho se contemplem no mesmo nível. A cena é como um acorde suspenso, que pede uma resolução.
A volta ao ninho é o momento que não se deseja.
Porque a vida não está no ninho, está no vôo. Os ninhos se transformam em gaiolas. É certo que o filho largará a mão da mãe e virá correndo para o pai...
 O tempo passa. Os pássaros tímidos aprendem a voar sem medo. Já não necessitam do olhar tranquilizador do pai.
 É a adolescência. Ser pai de um adolescente nada tem a ver com ser pai de uma criança. Pobre do pai que continua a estender os braços para o filho adolescente, como na tela de Van Gogh! Seus braços ficarão vazios.
 Como se envergonharia um adolescente se seu pai fizesse isso, na presença dos seus companheiros! 
É o horror de que os pássaros companheiros de vôo o vejam como um pássaro que gosta de ninho! Adolescente não quer ninho. Adolescente quer asas.
Os ninhos, agora, só servem como pontos de partida para vôos em todas as direções. Liberdade, voar, voar... 
E a fantasia pinta a cena final de felicidade que o pintor não pode pintar: o pai pegando o filho no colo, os dois rindo de felicidade...
Aos pais só resta contemplar, impotentes, o vôo dos filhos, sabendo que eles mesmos não podem ir. Nos espaços por onde seus filhos voam os ninhos são proibidos. Mas eles terão de voltar ao ninho, mesmo contra a vontade.
E o pai se tranquiliza e pode finalmente dormir ao ouvir, de madrugada, o barulho da chave na porta: 'Ele voltou...' Mas não é. 
Quem é pai tem o coração fora de lugar, coração que caminha, para sempre, por caminhos fora do seu próprio corpo. Caminha, clandestino, no corpo do filho.
Dito pela Adélia: 'Pior inferno é ver um filho sofrer sem poder ficar no lugar dele'
Dito pelo Vinícius, escrevendo ao filho: 'Eu, muitas noites, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua...
É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de uma criança.
 É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de um pai.
 O efêmero e o eterno abraçados num único momento! 
'Conter o infinito na palma da sua mão e a eternidade em uma hora': o pai que tem o seu filho adormecido nos seus braços é um poeta! 
Essas palavras do poeta William Blake bem que poderiam ser suas.
 Um homem que guarda memórias de ninho na sua alma tem de ser um homem bom. Uma criança que guarda memórias de um ninho em sua alma tem de ser calma! 
Mas logo o pequeno pássaro começará a ensaiar seus vôos incertos. 
Agora não serão mais os braços do pai, arredondados num abraço, que irão definir o espaço do ninho.
 Os braços do pai terão de se abrir para que o ninho fique maior. 
Mas chega o momento quando os filhos partem para não mais voltar. 
Através da minha janela vejo um ninho que rolinhas construíram nas folhas de uma palmeira. A pombinha está chocando seus ovos.
Vejo sua cabecinha aparecendo fora do ninho. Mas numa outra folha da mesma palmeira há um outro ninho, abandonado.
 Esse é o destino dos ninhos, de todos os ninhos: o abandono.
 ... esse é o destino dos pais: a solidão. Não é solidão de abandono. E nem a solidão de ficar sozinho.
 É a solidão de ninho que não é mais ninho. E está certo. Os ninhos deixam de ser ninhos porque outros ninhos vão ser construídos. 
Os filhos partem para construir seus próprios ninhos e é a esses ninhos que eles deverão retornar.
 Assim é na natureza. Assim é com os bichos. Deveria ser conosco também.
 Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho.
 Eu mesmo sempre os empurrei para fora. Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas. 
Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira...
Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo..."
(Rubem Alves)