sábado, 18 de abril de 2020

Ψ ele não é nem burro nem louco, é perverso

Ruth de Aquino, de O Globo, conversou com o psicanalista *Joel Birman e fez uma análise da condição mental do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O Conversa Afiada reproduz alguns trechos da coluna em 17.04.2020:

*Vamos chamar a coisa pelo nome.
*O presidente eleito por milhões de brasileiros não é louco.
*Psicóticos e neuróticos podem ser classificados assim.
*Eles sofrem e enxergam o sofrimento do outro.
*Eles não têm método.
*Bolsonaro é diferente.
*Pelos estudos da psiquiatria inglesa no século XIX, Bolsonaro se encaixaria em outra categoria: a dos psicopatas.
*Conversei com o psicanalista Joel Birman para entender essas fronteiras entre transtornos mentais.

“A psicopatia não é uma loucura no sentido clássico, mas uma insanidade moral, um desvio de caráter de quem não tem como se retificar porque não sente culpa ou remorso”. 

Os psicopatas são “autocentrados, agem com frieza e método”.

“Não têm empatia em relação ao outro, o que lhes interessa é o que lhes convém”. 

*A pandemia só tornou esses traços de Bolsonaro mais gritantes.

*Desde os primeiros grandes gestos do presidente, ficou claro, disse Birman, que seus atos “são marcados por crueldade e violência”. 

*Proposição de liberar fuzis para civis.
*Proposição de acabar com os radares nas estradas.
*Proposição de não multar a falta de cadeirinha nos automóveis para crianças.
*Proposição de acabar com os exames toxicológicos para motoristas de caminhão e ônibus.
*Proposição de legalizar o garimpo predatório nas florestas e terras indígenas.
*Tudo isso é um atentado à vida.

*Eu poderia lembrar o que muitos teimam em esquecer.

*Que Bolsonaro já era assim antes de ser eleito.

*Quem defende torturador e condena as vítimas, publicamente, no Congresso, não é uma pessoa que preza a vida.

*Não surpreende, portanto, que o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, denuncie, sem meias palavras, a “política genocida” de Bolsonaro.

*O presidente trocou seu ministro da Saúde, era sua prerrogativa, mas será barrado pelo STF se insistir em condenar o isolamento social e ameaçar a saúde pública.

*Ao criar uma realidade paralela, Bolsonaro desfruta sua liberdade de ir e vir sem se importar com as consequências de seu exemplo.

*Ele refuta a ciência, ignora as normas sanitárias nacionais e internacionais, receita remédios polêmicos sem autoridade para isso, ironiza quem se isola, chamando a mim e a você de “moleques”. 

*Coloca em maior risco os pobres. O presidente é uma temeridade ambulante. Troca um ministro da Saúde competente e popular em plena batalha.

*Ao se recusar a divulgar o resultado de seu exame, Bolsonaro despreza a população, se acovarda e age diferente dos homens públicos que honram seus cargos.

*Pode até ser que esteja imune após uma versão branda da Covid-19 e por isso se sinta apto a saracotear pelas ruas e padarias, mexendo em dinheiro e comida, enxugando o nariz e apertando as mãos do povo aglomerado.

*Bolsonaro não é burro nem louco. É perverso, ao estimular um comportamento de altíssimo risco.


quarta-feira, 15 de abril de 2020

(...)

"O homem é um animal solitário, um animal infeliz, só a morte pode consertar a gente."

"Um ladrão é considerado um pouco mais perigoso do que um artista."
 (O caso Morel)
                                              Rubem Fonseca - 1929/ 2020
"Neste mundo cruel e egoísta de hoje é uma surpresa encontrar um homem tão generoso como você." 

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Será que a raça humana está partindo?


                                            Dois Sóis no Pôr do Sol

(...) 


E enquanto o para-brisa derrete


Minhas lágrimas evaporam


Deixando apenas brasa à proteger


Finalmente eu entendi os sentimentos das minorias


Cinzas e diamantes


Inimigo e Amigo


Éramos todos iguais no final


"... e agora, a meteorologia:


Amanhã estará nublado com chuvas isoladas


Alastrando-se para o leste... com temperatura


Esperada de 4000° Celsius... "


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sábado, 28 de março de 2020

É ilusão pensar que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente” Papa Francisco

Papa Francisco/ março de 2020 em uma impressionante cena: a Praça São Pedro completamente vazia.
(...) “Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”.

(...) “A tempestade desmascara a nossa vulnerabilidade e deixa a descoberto as falsas e supérfluas seguranças com que construímos os nossos programas, os nossos projetos, os nossos hábitos e prioridades. Mostra-nos como deixamos adormecido e abandonado aquilo que nutre, sustenta e dá força à nossa vida e à nossa comunidade”, (...)  “o Senhor interpela-nos e, no meio da nossa tempestade, convida-nos a despertar e ativar a solidariedade e a esperança”.

domingo, 22 de março de 2020

(...)

Leonardo Boff: "O coronavírus: o perfeito desastre para o capitalismo do desastre"
A atual pandemia do coronavírus representa uma oportunidade única para repensarmos o nosso modo de habitar a Casa Comum, a forma como produzimos, consumimos e nos relacionamos com a natureza.

Chegou a hora de questionar as virtudes da ordem do capital: a acumulação ilimitada, a competição, o individualismo, a indiferença face à miséria de milhões, a redução do Estado e a exaltação do lema de Wallstreet: ”greed is good” (a cobiça é boa). Tudo isso agora é posto em xeque. Ele tem dias contados.
O que agora nos poderá salvar não são as empresas privadas mas o Estado com suas políticas sanitárias gerais, sempre atacado pelo sistema do mercado “livre” e serão as virtudes do novo paradigma, defendidas por muitos e por mim, do cuidado, da solidariedade social, da corresponsabilidade e da compaixão.

O primeiro a ver a urgência desta mudança foi o presidente francês, neoliberal e vindo do mundo das finanças E. Macron. Falou claro: “Caros compatriotas, precisamos amanhã tirar lições do momento que atravessamos, questionar o modelo de desenvolvimento que nosso mundo escolheu há décadas e que mostra suas falhas à luz do dia, questionar as fraquezas de nossas democracias. O que revela esta pandemia é que a saúde gratuita sem condições de renda, de história pessoal ou profissão, e nosso Estado-de Bem-Estar Social não são custos ou encargos mas bens preciosos, vantagens indispensáveis quando o destino bate à porta. O que esta pandemia revela é que existem bens e serviços que devem ficar fora das leis do mercado”.
Aqui se mostra a plena consciência de que uma economia só de mercado, que tudo mercantiliza e sua expressão política o neoliberalismo são maléficas para a sociedade e para o futuro da vida.

Mais contundente ainda foi a jornalista Naomi Klein,uma das mais perspicazes críticas do sistema-mundo e que serviu de título ao meu artigo: ”O coronavírus é o perfeito desastre pra o capitalismo do desastre”.

Essa pandemia produziu o colapso do mercado de valores (bolsas), o coração deste sistema especulativo, individualista e antivida como o chama o Papa Francisco.

Este sistema viola a lei mais universal do cosmos, da natureza e do ser humano: a interdependência de todos com todos; que não existe nenhum ser, muito menos nós humanos, como uma ilha desconectada de tudo o mais.

Mais ainda: não reconhece que somos parte da natureza e que a Terra não nos pertence para explorá-la ao nosso bel-prazer, mas que nós pertencemos à Terra.

Na visão dos melhores cosmólogos e dos astronautas que veem a unidade Terra e Humanidade, somos aquela porção da Terra que sente, pensa, ama, cuida e venera. 

Superexplorando a natureza e a Terra como se está fazendo no mundo inteiro, estamos nos prejudicano a nós mesmos e nos expondo às reações e até aos castigos que ela nos impõe. É mãe generosa, mas pode mostrar-se rebelada e enviar-nos um vírus devastador.

Sustento a tese de que esta pandemia não pode ser combatida apenas por meios econômicos e sanitários sempre indispensáveis. Ela demanda outra relação para com a natureza e a Terra. Se após passar a crise e não fizermos as mudanças necessárias, na próxima vez, poderá ser a última, pois nos fazemos os inimigos figadais da Terra. Ela pode não nos querer mais aqui.

O relatório do prof.Neil Ferguson do Imperial College of London declarou:”esse é o vírus mais perigoso desde a gripe H1N1 de 1918. Se não houver uma resposta imediata, haveria nos USA 2,2 milhões de mortos e 510 mil no Reino Unido”.

Bastou esta declaração para que Trump e Johnson mudassem imediatamente de posição. Tardiamente se empenharam com fortunas para proteger o povo.

Enquanto que no Brasil o Presidente não se importa, a trata como uma “histeria” e no dizer de um jornalista alemão da Deutsche Welle: ”Ele age de forma criminosa. O Brasil é liderado por um psicopata, e o país faria bem em removê-lo o mais rápido possível. Razões para isso haveria muitas”. É o que o Parlamento e o STF federal, por amor ao povo, deveria sem delongas fazer.

Não basta a hiperinformação e os apelos por toda a mídia. Ela não nos move a mudar de comportamento exigido. Temos que despertar a razão sensível e cordial. Superar a indiferença e sentir, com o coração, a dor dos outros. Ninguém está imune do vírus. Ricos e pobres temos que ser solidários uns para com os outros, cuidarmo-nos pessoalmente e cuidar dos outros e assumir uma responsabilidade coletiva. Não há um porto de salvação. Ou nos sentimos humanos, co-iguais na mesma Casa Comum ou nos afundaremos todos.
As mulheres, como nunca antes na história, têm uma missão especial: elas sabem da vida e do cuidado necessário. Elas podem nos ajudar a despertar nossa sensibilidade para com os outros e para conosco mesmo. Elas junto com operadores da saúde (corpo médico e de enfermagem) merecem nosso apoio irrestrito. Cuidar de que nos cuida para minimizar os males desse terrível assalto à vida humana.

Leonardo Boff escreveu: Como saber cuidar e O cuidado necessário, ambos pela Vozes 2009 e 2013.

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quarta-feira, 18 de março de 2020

UFSC/ HU - Projeto Amanhecer




O Projeto Amanhecer, informa que a partir do dia 16 de março de 2020, estão SUSPENSAS as atividades individuais e coletivas por tempo indeterminado, conforme a Nota Oficial anunciadas na quinta-feira (11/03) pela Administração Central da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em razão da pandemia de COVID-19. A Administração Central salientou que não há comunicação de casos suspeitos ou confirmados que sejam relativos à comunidade da UFSC, entretanto, as medidas adotadas são essenciais neste momento, para que a nossa comunidade não seja mais um fator estressor no sistema de saúde pública de Santa Catarina”. Considerando:
1. O caráter iminente do crescimento de casos relacionados à contaminação pelo Covid-19;
2. Que toda epidemia por fonte propagada, pessoa a pessoa, ou pessoa a pessoas, em que ocorra multiplicidade de contatos, sem conhecimento da fonte propagadora, é potencialmente muito grave;
3. A confirmação de cinco casos no estado de Santa Catarina e, em Florianópolis, um deles nas proximidades do Campus João David Ferreira Lima, área de enorme circulação da comunidade universitária;
4. O Decreto Municipal da Prefeitura Municipal de Florianópolis, que proíbe eventos fechados com distância menor de 2 metros entre os participantes;
5. O potencial de propagação em espaços como os Restaurantes Universitários e a Biblioteca Universitária, locais em que há enorme risco;
6. A implementação de cuidados especiais com grupos vulneráveis, como idosos e imunodeprimidos ou portadores de doenças crônicas, inclusive entre o corpo de servidores técnicos e docentes;
7. A necessidade de reduzir drasticamente a circulação de pessoas nos campi da UFSC, de modo a diminuir os riscos de contaminação em massa;
Recomenda-se que a comunidade interna (acadêmica e servidores) e externa com algum sinal/sintoma de febre, tosse seca, dores no corpo e mal estar, dor de garganta mantenha-se em casa, e evite buscar os serviços de saúde a não ser em casos de real necessidade. Em caso de dúvidas sobre os sintomas, que entre em contato, em Florianópolis, com o serviço  Alô Saúde Floripa, pelo telefone 0800-333-3233, antes mesmo de se dirigir aos postos de saúde e às UPAs.
  • Estaremos comunicando nesse mesmo site, em nota posterior, o retorno dos atendimentos, assim que a situação se estabilizar.
  • Atenciosamente, Projeto Amanhecer.

terça-feira, 10 de março de 2020

Hu - Hospital Universitário UFSC - Projeto Amanhecer




O período de inscrição para o 1º bimestre de 2020 acontecerá nos dias 10/03 e 11/03.
Neste bimestre, assim como nos anteriores, as inscrições para as atividades individuais e coletivas ocorrerão em dias diferentes:
  • O primeiro dia, 10/03 (terça-feira), para as atividades individuais;
  • O segundo dia, 11/03 (quarta-feira), para as atividades coletivas.
http://www.hu.ufsc.br/setores/projeto-amanhecer/

sábado, 7 de março de 2020

8 de março - Dia Internacional da Mulher

                                                                                     Fairey
“Se os homens pudessem nos ver como realmente somos, eles ficariam um pouco surpresos; mas os homens mais espertos e perspicazes muitas vezes têm uma ilusão sobre as mulheres: eles não as lêem sob uma luz verdadeira: eles as interpretam mal, tanto para o bem quanto para o mal: sua boa mulher é uma coisa estranha, meia boneca, meio anjo; a mulher má deles quase sempre um demônio. (Charlotte Brontë, Shirley)
“O feminismo não travou guerras. Não matou adversários. 
Não estabeleceu campos de concentração, não criou as desigualdades sociais e a fome, nem criou inimigos, não praticou crueldades... Suas batalhas sempre foram pela educação, pelo voto, por melhores condições de trabalho ... pela segurança nas ruas ... pelos cuidados com as crianças, pelo bem-estar social ... pelos centros de estupro, refúgios femininos, reformas na lei. Se alguém diz: 'Ah, eu não sou feminista', pergunto: 'Qual é o seu problema?' ” (Dale Spender)
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Ψ SINTOMA × SINTHOMA segundo Lacan

*SINTOMA - o Inconsciente, o que pode ser analisado. Expressão disfarçada de um desejo que corresponde a uma fantasia do inconsciente.
                                                            Simone Grecco
*No Seminário XXIII Lacan descreve o SINTHOMA como o que há de mais singular em cada indivíduo.

*SINTHOMA - é o resto irredutível; inanalisável real do SINTOMA ... Inclui em si um gozo, razão pela qual persiste mesmo sendo a origem do sofrimento ... aqui o sujeito encontrou algo impossível de ser dito, algo inefável ... vai ser necessário "tagarelar" para poder dizê-lo, para poder tocar o real (Freud - "associação livre").

*SINTHOMA - é um outro nome para esse inconsciente irredutível, na sua etimologia, ele é PURO SIGNO, o Signo tomado aqui como congruente ao Real (Lacan, 1977 in: L'insu que sait de L'une- bévue s'aile à mourre).

*Não desaparece nem quando é interpretado. Lacan ainda afirma que o final da Análise é o sujeito sair de braços dados com o seu SINTHOMA.

*Há que se viver com ele, sem padecer tanto. Ao querermos comprender bem demais, isso provoca desespero. Termino uma leitura sem desespero? Apenas com uma certa tensão? Será que compreendi em demasia? Lerei novamente para desesperar-me.

Oswaldo Guayasamin
*Nesta perspectiva, SINTHOMA é o que se pode apreender pelo que se revela de gozo, de um gozo distinto da linguagem.

*Segundo Lacan, o SINTOMA enquanto SINTHOMA é Real; "é mesmo a única coisa verdadeiramente real". (...) "eu reduzi o Sinthoma em um grau em que se encontra Enodado ao Inconsciente".

*O SINTHOMA ficou ficou entendido como algo que não corresponde à elocubração do Inconsciente.

*SINTHOMA não como uma formação do Inconsciente, no resíduo "mas a própria realidade do Inconsciente", que é sexual.

*SINTOMA Lacan define pela maneira onde cada um goza do Inconsciente, enquanto que o inconsciente o determina.

*SINTHOMA como a letra  não é para ser lido não se pode atribuir o estatuto da letra: não interpretável, separado da cadeia significante "godet" onde se condensa o gozo?

*SINTHOMA, como a letra, não é  marca, rasura onde o sujeito tem que reconhecer o pouco de ser o qual ele pode se complementar?

*O gozo opaco do SINTOMA  não se reduz ao gozo fálico aparelhado à cadeia significante onde o saber inconsciente;

(...) esse gozo do SINTHOMA liga-se ao que resta, ao objeto e como tal, constitui um resíduo a-sexuado. Mas se o SINTHOMA visa a preeminência do gozo fálico, se ele não é todo gozo fálico, ele não abre, assim como a letra que feminiza em direção a um OUTRO Gozo?

*(...) não é do lado do SINTHOMA que há a esperança do despertar? Diz Lacan: "não é a certeza que se está acordado que o que se apresenta e representa é sem nenhuma espécie de sentido"; (...) "não é  o caso do INCONSCIENTE: a doença mental que é  o inconsciente não desperto".

*Restam então o REAL DO SINTHOMA ao que o serde cadaum de reduz, o ideal da interpretação como poética,  EFEITO DO SENTIDO,  mas também efeito de buraco, e o sonho de um significante novo, sem nenhuma espécie de sentido.

*O SINTOMA no discurso científico  é considerado uma FALHA a ser ser consertada na clínica... quando o médico não dá conta diz que sai do campo da ciência... e entra no campo da PSICOLOGIA.

*Para transformar-se num Sintoma Analítico será preciso que o SINTOMA enquanto queixa seja formulado no campo do OUTRO,  seja completado pelo ANALISTA.

*O SUJEITO transfere um saber sobre sua questão a um OUTRO.

*O SINTOMA Analítico será então a queixa do sujeito completada pelo Analista na Transferência. Na Psicanálise o SINTOMA toca o sujeito.

Fonte: Perspectivas do Seminário XXIII de Lacan - JacquesAlain Miller
JAKOBSON, F. Essais de Linguistique générale, Paris, Minuit, 1963.
Fatima Vieira - Psicóloga Clínica
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sábado, 22 de fevereiro de 2020

Ψ O ADOECER E O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

A doença causa um mal-estar ... e este mal-estar significa que não se está onde se deveria estar... a doença pode ser um pedido de cura do indivíduo, quer tirá-lo de onde ele está, quer libertá-lo, curá-lo.
*O processo de individuação, por ser arquetípico, ocorre do universal para o particular, acontece com a colaboração do Ego que, na maioria das vezes, traz mecanismos de defesa contrários a este processo.

*É o religar do Ego (centro da consciência) ao Self (Centro da Totalidade: Consciente e Inconsciente) e, nesta trajetória, o Ego precisa servir a algo maior, ao Self.

*Quando isto não acontece, significa que não estamos no caminho de nosso Chamado, então, como forma de reparar o amor próprio, de voltarmos ao nosso processo de individuação, podemos adoecer ou mesmo morrer.

*O cerne da Psicologia Junguiana é a individuação e este é o processo de criar e ampliar a consciência.

*A tomada de consciência vem acompanhada de imensa dor, uma vez que não é fácil ter consciência, porque isto implica em fazer escolhas, tomar decisões e assumir a responsabilidade pelas escolhas feitas.

*Escolher implica em abrir mão de alguma coisa em prol de outra, implica em dor e sofrimento.

*A proposta de Jung, de uma visão integral do ser humano, teve importante contribuição no campo da psicossomática.

*Tendo por base seus estudos empíricos, mais especificamente a associação de palavras utilizada em pacientes histéricos, foi-lhe possível observar que estes pacientes desenvolviam uma semelhante personalidade mórbida, demonstrando um querer ser/estar doente (JUNG, 2011), o que lhe permitiu concluir que os sintomas tinham origem nos complexos, levando as pessoas ao adoecimento, sendo, portanto, psique e corpo necessários de serem compreendidos em sua integridade.

*Neste contexto, tornou-se possível dizer que toda doença é psicossomática, formada por psique e soma, mente e corpo.

*Ramos (2006) observou que a expressões do fenômeno psique-corpo e suas alterações fisiológicas sincrônicas, se davam por meio de um complexo que se manifesta, ajudando a uma compreensão mais ampla da doença.

*O corpo é a visibilidade da alma, da psique, e a alma é a experiência psicológica do corpo.
          David Ohmer 
*Os sintomas físicos são retratos simbólicos do complexo patológico.
(JUNG, 2011).

*Todo sintoma ou fenômeno de crise que mobiliza um indivíduo, vem como possibilidade de tomada de consciência.

*O sintoma atua como uma proteção do Self, do Sagrado, para com o indivíduo.

*Como tentativa de se entender e se ressignificar a doença, há de se perguntar: "o que este sintoma está me impedindo de fazer e o que ele está me levando a fazer? ".

*É preciso entender qual o sentido deste sintoma, naquele determinado momento, na vida da pessoa.

*A doença causa um mal-estar no doente e este mal-estar significa que não se está onde se deveria estar.

*Novamente é preciso se fazer mais perguntas: "onde eu queria/deveria estar que não estou? ".

*Se não estamos bem onde estamos, se não estamos onde deveríamos/ gostaríamos de estar, sentimo-nos mal e temos mal-estar.

*Se trabalhamos, por exemplo, em um lugar onde não conseguimos mais engolir as coisas que nos dizem e nos fazem, temos vômitos, pois, para reverter o engolido é necessário vomitar o que não conseguimos engolir.

*O estômago é o lugar de recepção das coisas, por isso, comumente tão acometido quando não conseguimos digerir as coisas. Não vomitamos comidas, vomitamos palavras. Vomitamos símbolos. Precisamos refletir sobre o que nos intoxicou de verdade, o que está por nós sendo rejeitado.

*Muitas vezes a doença é um pedido de cura do indivíduo, quer tirá-lo de onde ele está, quer libertá-lo, curá-lo.

*Toda crise nos desperta para o Sagrado, nos chama para uma retomada de consciência, pois, cada escolha que fazemos, nos faz.

*Não podemos simplesmente servir aos outros, sermos apenas servos, temos que ser servos felizes ao que nos submetemos, do contrário, seremos infelizes e ineficientes e adoeceremos.

*Não diferente do que era na antiguidade, o corpo continua sendo o lugar do mal, só que não mais acoitado com chicotes e, sim, martirizado de outras formas, sendo, por exemplo, a doença advinda como consequência do pecado e merecimento, como forma de autopunição.

*A doença é muitas vezes uma penitência, como no mito do herói, onde a pessoa se vê como um herói decadente e se pune.

*A dor pode ser vista como um castigo, como um demônio, é a sombra atuando.

*Para Platão a dor era proveniente dos maus espíritos e dos Deuses.

*O corpo é um templo, um território Sagrado, com atributo psíquico e espiritual, e lança sintomas para que possa ser ouvido.

*A subjetividade e os aspectos psicológicos estão presentes em todas as doenças.

*A psique cria a partir da interpretação e são os complexos que interpretam, logo, para se encontrar a cura, é preciso ressignificar o complexo.

*Para que se tenha o sintoma, é necessário que haja um estilo dominante na consciência, que haja uma cisão.

*A cisão ocorre quando se começa a desagregar (ou é isto ou é aquilo, quero ou não quero) e o estilo que ganhar é o que vai para consciência, sendo assombrado pelo que ficou na inconsciente.

*O ideal é que estes estilos troquem de posição, estejam equiparados e não polarizados, podendo ora ser um e ora o outro a prevalecer, a escolher, sem necessariamente se ter uma rigidez, um determinado padrão a se seguir, pois, de outra forma, virará sintoma.

*É a intensidade que promove a cisão e faz o sintoma e, se isto acontece, para reestabelecer a saúde, o padrão dominante tem que descer aos infernos, recuperar o que aparentemente não tinha valor e subir de volta a consciência, sendo outro padrão agora, não mais o que estava na consciência e tão pouco o que estava na inconsciência, mas outro.

*Somos compostos por pares de opostos como luz e sombra, amor e poder, bem e mal e, quando ocorre a unilateralização de um dos polos, vem a doença como tentativa de reestabelecer a saúde.

*O literalismo é suicida, mata os outros sentidos. A literalidade implica em perda da capacidade simbólica, o que significa regressão da consciência. A literalidade gera a paranoia.

*O que determina o padrão de saúde, é o re-ligare, o estar ligado a Deus, ao Sagrado, ao Self.

*Saúde e doença podem ser vistas como imagens simbólicas, sendo a doença uma evidente disfunção no eixo Ego-Self.

*Compreender e tornar consciente estes símbolos, ajudará na ampliação da consciência e na integração dos conteúdos inconscientes, religando o Ego ao seu eixo com o Self, tendo sido a doença um caminho para restaurar a saúde, atuando diretamente no processo de individuação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
_____________. A Prática da psicoterapia. 16 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
_____________. Arquétipos do Inconsciente Coletivo, 11 ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
_____________. Estudos Experimentais. 2a. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
_____________. Psicologia do Inconsciente. 24 ed. Petrópolis, Vozes 2014.  RAMOS, Denise Gimenez. A Psique do Corpo: A Dimensão Simbólica da Doença. 3ª. Ed. São Paulo, Summus, 2006.

Texto: Andreia Araujo - Psicóloga Clínica, Analista Junguiana em Formação e Especialista em Psicologia Junguiana e Psicossomática pelo IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa.

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sábado, 15 de fevereiro de 2020

Ψ Nise da Silveira

Segundo o Google, o esboço do Doodle de 15 de fevereiro foi feito pelo artista Kevin Smilelin

Nise da Silveira nasceu em (1905 - 1999) na cidade de Maceió, no nordeste do BrasilNise da Silveira se formou em medicina em 1926 aos 21 anos e era a única mulher na classe. 

O Google Doodle comemora seu 115º aniversário, Nise da Silveira.  Foto: Google.
O Google Doodle comemora seu 115º aniversário, Nise da Silveira. Foto: Google.

Quando começou a trabalhar em 1933 no centro nacional de psiquiatria, ficou desencorajada pelos rigorosos procedimentos médicos que seguiam na época para tratar pacientes mentais, incluindo esquizofrenia.
Nise da Silveira era uma das poucas médicas de sua época. Ela corajosamente quebrou os procedimentos de saúde mental, foi pioneira em uma abordagem mais humana.
Começou a desenvolver oficinas de arte para dar aos pacientes a oportunidade de se expressar através da pintura e escultura.
Ela também se tornou uma das primeiras profissionais a introduzir animais no processo de cura como uma "co-terapeuta".
O Museu de Imagens criado pelo Inconsciente (Museu Nise da Silveira) mantém um acervo de mais de 350.000 obras de arte criadas pelos pacientes.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Ψ Jung Explica Como, Ele Próprio, Enfrentaria a Depressão

“Nunca despreze as pessoas deprimidas. A depressão é o último estágio da dor humana.” (Augusto Cury)

“Quanto maior é a ferida, mais privada é a dor. (...) e um dia, quando já não puder dar mais um passo de tanto cansaço, entenderá que não pode fugir da dor, é preciso domesticá-la." (Isabel Allende)
"Küsnacht-Zurique, 09.03.1959
Prezada N. (destinatária não identificada),
Sinto muito que esteja tão atormentada. "Depressão" significa em geral "pressão ou coação para baixo". Isto pode acontecer mesmo que não se tenha o sentimento de estar "em cima". Por isso não gostaria de abandonar esta hipótese sem mais. Se eu tivesse de viver num país estrangeiro, procuraria algumas pessoas, que me parecessem amáveis, e me tornaria de certa maneira útil a elas, para receber libido de fora, ainda que de uma forma algo primitiva como o fez, por exemplo, o cachorro, sacudindo o rabo. (...) Criaria animais e plantas, que me dessem alegria com o seu desenvolvimento. Eu me cercaria de coisas belas – não importa se primitivas ou simplórias – objetos, cores, sons. Comeria e beberia coisas gostosas. Quando a escuridão viesse, não descansaria até penetrar em seu cerne e chão e até que aparecesse uma luz no meio do sofrimento, porque a própria natureza se inverte in excessu affectus. Eu me voltaria contra mim mesmo com raiva, para que no calor dela derretesse meu chumbo. Renunciaria a tudo e me dedicaria à atividade mais humilde, caso minha depressão me forçasse à violência. (...) Lutaria com o Deus sinistro até que me descolasse o quadril, pois ele também é a luz e o céu azul que retém diante de mim. Seria isto o que eu faria. O que outras pessoas fariam é uma questão que não sei responder. Mas também para a senhora existe um instinto: arrancar-se para fora disso, ou entrar até as profundezas. Mas nada de meias-medidas ou meio entusiasmo. [...] Com votos cordiais, Sinceramente seu (C.G.)"
(Carl Gustav Jung, Cartas, Vol. 3: 1956-1961)
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