sábado, 6 de outubro de 2012

... é só um poema! Miguel Torga


o silêncio da paz é a visita de Deus!




Ψ ... cada um deve ser responsável por sua paixão. (Forbes)


Ψ  (O Psicanalista Jorge Forbes, foi um dos introdutores da psicanálise de Jacques Lacan no Brasil, de quem foi aluno na França entre 1976 e 1981. Trechos desta entrevista a revista DROPS – Rio Claro, publicada em 9 de fevereiro de 2009).

- É possível perceber-se alegre? Se sim, que nome damos a este estado aprisionado pela percepção do sujeito?
- Forbes: É importante frisar que nesta pergunta estamos falando de duas coisas: de alegria e felicidade. Acho mais rica a felicidade do que a alegria. A alegria é uma sensação de leveza e de rapidez.  Normalmente, alegria e tristeza estão vinculadas à sensação de velocidade ou não e, neste contexto, podem ser percebidas como parte dos processos psíquicos. Processos rápidos dão a sensação de alegria. Exemplo quando uma pessoa faz ginástica e provoca a liberação de endorfina, que acelera os mecanismos regulatórios hormonais do corpo. A pessoa se sente alegre por causa dessa rapidez. Por outro lado, o que representa a tristeza é a lentidão. Na arte, Hoppe (1822-1967) representa bem a tristeza, onde seus traços com poucos movimentos sugerem lentidão. 

- Muitas alegrias somadas levam à felicidade?

- Forbes: É importante entendermos que a alegria é uma das manifestações da felicidade. No mundo atual, você tem um apelo muito forte para um tipo de felicidade que chamo de prêt-a-porter. Esse tipo de felicidade tem se tornado muito presente porque há não muito tempo ser feliz ou estar alegre era cumprir aquilo que era esperado de você. Até então, tínhamos padrões preestabelecidos de como ser alegre, de como ser feliz. Hoje, no momento em que o mundo tem seu norte quebrado pelo surgimento de uma sociedade da comunicação, do conhecimento, ligada em rede, quebram-se os conceitos universais e as pessoas se sentem fragilizadas frente à responsabilidade de terem tantas opções para realizar o seu desejo.
Neste contexto, muitas pessoas preferem abrir mão de seus desejos mais íntimos e substituí-los por um produto pronto. Um exemplo simples é quando se vai ao restaurante para satisfazer a vontade de comer algo e, diante das possibilidades do cardápio, você se pergunta: ‘será que era aquilo mesmo que queria comer?’.

- Em um de seus artigos, você diz que a felicidade não é um bem que dependa do nosso merecimento. O que isto significa?
- Forbes: A felicidade tem, fundamentalmente, dois aspectos: a felicidade por merecimento e pelo acaso. Aparentemente, a impressão que se tem é que a felicidade por merecimento é superior à felicidade por acaso. Isto porque estamos inseridos em uma moral judaico-cristã que nos convenceu de que para ser feliz você tem de merecer a felicidade. Inseridos neste contexto religioso-cultural, é difícil aceitarmos que a felicidade possa estar onde a pessoa não mereceu. Acredito que essa é uma das coisas mais importantes para se pensar hoje em dia.

- O mercado se aproveita dessa desorientação para vender ‘alegrias preestabelecidas’?
- Forbes: Alegria é um dos melhores produtos para serem vendidos. Alegrias, esperanças e certezas são coisas que hoje se vende muito bem. Em um mundo sem padrões de merecimento, as pessoas sofrem daquilo que chamo ‘desbussolamento’. Digo isso porque nos últimos 30 ou 40 anos sofremos a passagem de um mundo que nos dava critérios que permitiam saber por onde deveríamos ir, por onde cada um de nós podia se garantir.  Era um mundo vertical que oferecia padrões bastante rígidos. Tínhamos padrões de família, que informavam o papel do pai; na empresa, sabíamos o papel do chefe; no país, qual era o sentido de pertencer à pátria.
Todos estes padrões estáveis ruíram. Na família, não há mais o poder do pai, nas empresas tem-se as fusões e parcerias e o país passou a estar inserido nos mercados comuns.  Neste novo contexto, os limites foram quebrados e as pessoas agora têm multiplicidade de possibilidades.

- Esta possibilidade de múltiplas escolhas gera angústia?
- Forbes: Sem dúvida. Com elas, muitas pessoas vivem mal porque se angustiam quando tem que optar. Estamos em um mundo onde você tem que se responsabilizar por suas escolhas. Você perdeu a chance de ter desculpas por estar fazendo o que faz. Coisas como: ‘estou com você por que prometi para o seu pai’ ou, ainda, ‘estou com você para manter nossos filhos’. Hoje, não se tem mais necessariamente estas desculpas. Nesse contexto, aqueles que oferecerem um programa preestabelecido que diga que para ser feliz é preciso cumprir tais e tais pontos, encontrará um mercado ávido para essas cartilhas e elas, de uma certa forma, têm nome, são os livros de autoajuda. Diante deste mercado, estou em verdadeira ‘campanha’ contra esses livros (risos).
 
- Neste segmento, os livros de ‘autoajuda corporativa’ parecem ter crescido muito nos últimos anos?
- Forbes: Como as pessoas estão perdidas e a responsabilidade da opção gera uma angústia muito grande, todos aqueles que oferecem um caminho, uma fórmula pronta, um remédio, seja de base química ou ideológica, terão muita aceitação. Tornou-se comum pessoas que se destacaram como ‘líderes de sucesso’, depois que deixam suas empresas, se notabilizarem como gurus corporativos. Chega a ser incompreensível que empresas competentes na produção daquilo que as perpetuam no mercado, para melhorar a ‘qualidade’ do seu pessoal, acabem gerando um ‘estrago mental’ em seus funcionários.

- Há muito de religioso nas palestras corporativas?
- Forbes: Sim. Em síntese, o ser humano ‘desbussolado’ dos nossos tempos tem a sua frente dois caminhos: o ‘reacionário’ e o que chamo de ‘caminho de vanguarda’. Claro que a maior parte prefere o reacionário.

-  Por que?

- Forbes: Justamente porque seguir o caminho de vanguarda angustia logo de cara. Esta escolha leva você a ter que inventar seu próprio caminho e se responsabilizar por ele. Noventa e nove por cento das pessoas não querem isso.
 Elas preferem se ‘religar’, seja por respostas prontas dos livros de autoajuda ou pela escolha de um caminho onde não há dúvidas.

- O que caracteriza esta alegria reacionária?

- Forbes:  Ela se resume a ser 'pret-à-porter' e funciona como na construção do desejo por aqueles que te convencem que é ótimo levar seus filhos a passar férias na Disneylândia. No contexto do imaginário, é ótimo passar as férias lá, até o dia em que você vai (risos). Noutro exemplo, é a alegria de uma mulher ao comprar uma bolsa muito exclusiva, até o dia em que ela entra na classe executiva de um voo internacional e vê que todas as mulheres estão com a mesma bolsa. Só de falar no exemplo da ‘exclusividade da bolsa’ todos sabem a que bolsa estou me referindo. De exclusivo ela não tem nada. Essa alegria vendida tem perna curta e dura o tempo de uma dose de uísque ou de caipirinha. Neste contexto, depois do primeiro ‘livro de autoajuda’ se tem uma infinidade de outros derivados dele. É um mercado infindável. “A psicanálise entende que a angústia é fundamental para o ser humano. Se ela é causa de doenças, é também causa da criação.”

 - Estes geradores de alegrias são viciantes?

- Forbes: Sim. Assim que você realiza uma compra, passa a pensar no crediário da próxima e esta alegria se mantém em um grau de ilusão contínua onde a pessoa é levada a se alienar. É como no alcoolismo.
O mercado tenta fazer uma distribuição de alegrias prêt-à-porter porque elas são vendáveis. Porém, o mundo está caminhando para um outro tipo de alegria, que é aquela que não vem do merecimento, já que a alegria vendável substitui com muita propriedade este tipo de alegria.  Afirmações do tipo: ‘Você merece ter suas férias em Aruba’ tomou o lugar do quadro de honra que você recebia na escola.
 Por outro lado, há vários autores onde eu quero me incluir modestamente, porque a companhia é bela, como Lacan e Giorgio Agamben, que defendem que felicidade não é bem que se mereça. O Agamben tem uma frase que acho sensacional. Ele diz: “É uma desgraça sermos amados por uma mulher porque a merecemos! E como é chata a felicidade que é prêmio ou recompensa por um trabalho bem feito!”

-  Pensar que a felicidade não depende de nenhum merecimento também não nos deixa sem orientação?
- Forbes: Neste caso, a pessoa se defronta com algo que nenhum de nós consegue escapar. É a responsabilidade frente à própria felicidade. E isto não está escrito em nenhum manual, enquanto que a felicidade prêt-à-porter é um tipo de prática que está inscrita na civilização. Porém, o homem está sempre em desequilíbrio frente à civilização e as maiores alegrias são aquelas onde você, por algum momento, consegue viver além da civilização. O sonho e a magia vão além da civilização. São processos nos quais você diz ‘como é que eu posso suportar tanta felicidade?’ 
Isto porque este tipo de felicidade, que nasce da surpresa, sempre põe em dúvida a sua identidade, que é calcada na civilização. Então, quando você recebe isto, sim, você se sente perdido.

- Existe o medo de não se ter controle sobre a felicidade?
- Forbes: Os franceses, por exemplo, chamam o orgasmo de 'petit-mort' (pequena morte). Por isto que os amantes no momento de orgasmo se agarram. Não é apenas carinho, se agarram também por que sentem medo de ‘cair’, de se ‘perder’. Uma das frases habituais, e quem já esteve lá sabe do que estou falando, é ‘me segura forte, me aperta’. O ‘me aperta’ quer dizer: ‘estou com uma sensação de enlouquecimento, estou me deparando com uma felicidade pela qual não sei me responsabilizar’.

- De que modo a psicanálise pode aliviar a angústia gerada por esta responsabilidade?
- Forbes: Muitas pessoas vêm fazer análise para enxergar suas dificuldades. É óbvio que enxergar seus problemas é uma parte importante da análise. No entanto, o mais interessante da minha prática não é tanto ver as dificuldades das pessoas, os problemas e seus sintomas, porque os sintomas são sempre solidários. A maior dificuldade das pessoas é suportarem a felicidade que ultrapassa sua própria identidade.

-  A mulher é mais dependente da alegria prêt-à-porter do que o homem?
Forbes: Ao contrário, o homem depende muito mais do que a mulher. A mulher é uma grande consumidora deste tipo de alegria: ela é muito ‘infiel’: la donna é móbile. Já o homem é mais fiel, quero dizer, aquele que acredita em Jack Welch, acreditará sempre. A mulher tem um ‘guru’ hoje e outro na semana que vem. A grande dieta que ela descobriu dura uma semana. Na outra, se alguém disser que tem uma melhor, lá vai ela.

- No consultório há muitos desesperançados que dependem deste tipo de alegria? Sim, mas eles vão muitas vezes às ‘disneylândias’ antes de procurarem a análise. Isto é, a primeira opção não é fazer análise. Não tenho nada contra as ‘disneylândias’, apenas sou contra a postura ideológica como elas são apresentadas. As pessoas sempre acham que a divisão subjetiva, a dúvida, constitui um defeito. Então, imediatamente elas tentam uma cataplasma, um tipo de sutura. Quando a sutura não funciona mais, a maioria resolve integrar a dúvida à vida e não mais afasta-la como um vírus a ser eliminado.

 - Qual a melhor escolha então?

- Forbes: Acredito que você tem duas possibilidades. Uma é você exercer o seu talento e pagar o preço por ter a coragem de enfrentar a angústia da indefinição. A outra, é você se acovardar frente às múltiplas escolhas e virar um genérico. Temos, de um lado a alegria do talentoso e, de outro a alegria genérica. Cada um deve saber o que merece na vida. Você pode ter a tranquilidade de ser um genérico ou a inquietude do exercício do seu talento. Porque talento todo mundo tem, só que o maior inimigo do talento é a covardia.

- E na psicanálise, é possível dissociar a alegria da melancolia, no sentido de fortalecer uma e encerrar a outra?
-  Forbes: Há uma grande diferença entre psicanálise e muitas psicoterapias que promovem o exercício da alegria prêt-a-porter. Elas querem, na maioria das vezes, tirar a angústia das pessoas e acomodá-las em uma falsa harmonia. A psicanálise não quer desangustiar ninguém. Ela entende que a angústia é fundamental para o ser humano. Se ela é causa de doenças, é também causa de criação. Ninguém cria nada se não estiver angustiado.

Ψ ... o amor é um labirinto de mal entendidos onde a saída não existe!

(Jacques-Alain Miller, é psicanalista e responsável pelo estabelecimento de texto dos Seminários e de outros artigos de Jacques Lacan. A entrevista foi publicada na Psychologies Magazine em outubro 2008, entrevistadora: Hanna Waar).

Psychologies: A psicanálise ensina alguma coisa sobre o amor?
Miller: Muito, pois é uma experiência cuja fonte é o amor. Trata-se desse amor automático, e freqüentemente inconsciente, que o analisando dirige ao analista e que se chama transferência. É um amor fictício, mas é do mesmo estofo que o amor verdadeiro. Ele atualiza sua mecânica: o amor se dirige àquele que a senhora pensa que conhece sua verdade verdadeira. Porém, o amor permite imaginar que essa verdade será amável, agradável, enquanto ela é, de fato, difícil de suportar.

P.: Então, o que é amar verdadeiramente?
Miller: Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará a uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão "Quem sou eu?".

P.: Por que alguns sabem amar e outros não?
Miller: Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers - se posso dizer - homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias.

  P.: "Ser completo sozinho”: só um homem pode acreditar nisso...

 Miller: Acertou! "Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem". O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua "castração", como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.

P.: Amar seria mais difícil para os homens?

 Miller: Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a "degradação da vida amorosa" no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.

P.: E nas mulheres?
 Miller: É menos habitual. No caso mais freqüente há desdobramento do parceiro masculino. De um lado, está o amante que as faz gozar e que elas desejam, porém, há também o homem do amor, feminizado, funcionalmente castrado. Entretanto, não é a anatomia que comanda: existem as mulheres que adotam uma posição masculina. E cada vez mais. Um homem para o amor, em casa; e homens para o gozo, encontrados na Internet, na rua, no trem...

P.: Por que "cada vez mais"?

Miller: Os estereótipos socioculturais da feminilidade e da virilidade estão em plena mutação. Os homens são convidados a acolher suas emoções, a amar, a se feminizar; as mulheres, elas, conhecem ao contrário um certo “empuxo-ao-homem”: em nome da igualdade jurídica são conduzidas a repetir “eu também”. Ao mesmo tempo, os homossexuais reivindicam os direitos e os símbolos dos héteros, como casamento e filiação. Donde uma grande instabilidade dos papéis, uma fluidez generalizada do teatro do amor, que contrasta com a fixidez de antigamente. O amor se torna “líquido”, constata o sociólogo Zygmunt Bauman. Cada um é levado a inventar seu próprio “estilo de vida” e a assumir seu modo de gozar e de amar. Os cenários tradicionais caem em lento desuso. A pressão social para neles se conformar não desapareceu, mas está em baixa.

P.: “O amor é sempre recíproco”, dizia Lacan. Isso ainda é verdade no contexto atual? O que significa?
Miller: Repete-se esta frase sem compreendê-la ou compreendendo-a mal. Ela não quer dizer que é suficiente amar alguém para que ele vos ame. Isso seria absurdo. Quer dizer: “Se eu te amo é que tu és amável. Sou eu que amo, mas tu, tu também estás envolvido, porque há em ti alguma coisa que me faz te amar. É recíproco porque existe um vai-e-vem: o amor que tenho por ti é efeito do retorno da causa do amor que tu és para mim. Portanto, tu não estás aí à toa. Meu amor por ti não é só assunto meu, mas teu também. Meu amor diz alguma coisa de ti que talvez tu mesmo não conheças”. Isso não assegura, de forma alguma, que ao amor de um responderá o amor do outro: isso, quando isso se produz, é sempre da ordem do milagre, não é calculável por antecipação.

P.: Não se encontra seu ‘cada um’, sua ‘cada uma’ por acaso. Por que ele? Por que ela?
Miller: Existe o que Freud chamou de 'Liebesbedingung', a condição do amor, a causa do desejo. É um traço particular – ou um conjunto de traços – que tem para cada um função determinante na escolha amorosa. Isto escapa totalmente às neurociências, porque é próprio de cada um, tem a ver com sua história singular e íntima. Traços às vezes ínfimos estão em jogo. Freud, por exemplo, assinalou como causa do desejo em um de seus pacientes um brilho de luz no nariz de uma mulher!

P.: É difícil acreditar em um amor fundado nesses elementos sem valor, nessas baboseiras!
 Miller: A realidade do inconsciente ultrapassa a ficção. A senhora não tem idéia de tudo o que está fundado, na vida humana, e especialmente no amor, em bagatelas, em cabeças de alfinete, os “divinos detalhes”. É verdade que, sobretudo no macho, se encontram tais causas do desejo, que são como fetiches cuja presença é indispensável para desencadear o processo amoroso. As particularidades miúdas, que relembram o pai, a mãe, o irmão, a irmã, tal personagem da infância, também têm seu papel na escolha amorosa das mulheres. Porém, a forma feminina do amor é, de preferência, mais erotômana que fetichista: elas querem ser amadas, e o interesse, o amor que alguém lhes manifesta, ou que elas supõem no outro, é sempre uma condição sine qua non para desencadear seu amor, ou, pelo menos, seu consentimento. O fenômeno é a base da corte masculina.

P.: O senhor atribui algum papel às fantasias?
 Miller: Nas mulheres, quer sejam conscientes ou inconscientes, são mais determinantes para a posição de gozo do que para a escolha amorosa. E é o inverso para os homens. Por exemplo, acontece de uma mulher só conseguir obter o gozo – o orgasmo, digamos – com a condição de se imaginar, durante o próprio ato, sendo violada, ou de ser uma outra mulher, ou ainda de estar ausente, em outro lugar.

P.: E a fantasia masculina?
 Miller: Está bem evidente no amor à primeira vista. O exemplo clássico, comentado por Lacan, é, no romance de Goethe, a súbita paixão do jovem Werther por Charlotte, no momento em que a vê pela primeira vez, alimentando ao numeroso grupo de crianças que a rodeiam. Há aqui a qualidade maternal da mulher que desencadeia o amor. Outro exemplo, retirado de minha prática, é este: um patrão qüinquagenário recebe candidatas a um posto de secretária. Uma jovem mulher de 20 anos se apresenta; ele lhe declara de imediato seu fogo. Pergunta-se o que o tomou, entra em análise. Lá, descobre o desencadeante: ele havia nela reencontrado os traços que evocavam o que ele próprio era quando tinha 20 anos, quando se apresentou ao seu primeiro emprego. Ele estava, de alguma forma, caído de amores por ele mesmo. Reencontra-se nesses dois exemplos, as duas vertentes distinguidas por Freud: ama-se ou a pessoa que protege, aqui a mãe, ou a uma imagem narcísica de si mesmo.

P.: Tem-se a impressão de que somos marionetes!

 Miller: Não, entre tal homem e tal mulher, nada está escrito por antecipação, não há bússola, nem proporção pré-estabelecida. Seu encontro não é programado como o do espermatozóide e do óvulo; nada a ver também com os genes. Os homens e as mulheres falam, vivem num mundo de discurso, e isso é determinante. As modalidades do amor são ultra-sensíveis à cultura ambiente. Cada civilização se distingue pela maneira como estrutura a relação entre os sexos. Ora, acontece que no Ocidente, em nossas sociedades ao mesmo tempo liberais, mercadológicas e jurídicas, o “múltiplo” está passando a destronar o “um”. O modelo ideal do “grande amor de toda a vida” cede, pouco a pouco, terreno para o speed dating, o speed loving e toda floração de cenários amorosos alternativos, sucessivos, inclusive simultâneos.

P.: E o amor no tempo, em sua duração? Na eternidade?

 Miller: Dizia Balzac: “Toda paixão que não se acredita eterna é repugnante”, entretanto, pode o laço se manter por toda a vida no registro da paixão? Quanto mais um homem se consagra a uma só mulher, mais ela tende a ter para ele uma significação maternal: quanto mais sublime e intocada, mais amada. São os homossexuais casados que melhor desenvolvem esse culto à mulher: Aragão canta seu amor por Elsa; assim que ela morre, bom dia rapazes! E quando uma mulher se agarra a um só homem, ela o castra. Portanto, o caminho é estreito. O melhor caminho do amor conjugal é a amizade, dizia, de fato, Aristóteles.

P.: O problema é que os homens dizem não compreender o que querem as mulheres; e as mulheres, o que os homens esperam delas...
Miller: Sim. O que faz objeção à solução aristotélica é que o diálogo de um sexo ao outro é impossível, suspirava Lacan. Os amantes estão, de fato, condenados a aprender indefinidamente a língua do outro, tateando, buscando as chaves, sempre revogáveis. O amor é um labirinto de mal entendidos onde a saída não existe.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Ψ O terror Noturno e Outros Transtornos do Sono Infantil

Ψ COMPORTAMENTOS PATOLÓGICOS DURANTE O SONO TERRORES NOTURNOS E PESADELOS

 Considera-se que há diferenças entre pesadelos e terrores noturnos.

Durante o pesadelo, a criança faz alguns movimentos, geme e acorda; ela é capaz de exprimir sua ansiedade e pode ser consolada pelos pais, pois tem medo de retornar a dormir.

- Já durante os TERRORES NOTURNOS, a criança, após alguns gritos, levanta-se e senta-se na cama; aparenta angústia, grita, gesticula, agita-se, faz gesto como se fosse defender-se; não reconhece as pessoas que as pessoas que a rodeiam, mas reage mais ou menos às tentativas de reconfortá-la e volta a dormir.

-  Ao despertar não consegue lembrar o fenômeno que vivenciou.

- Os terrores podem repetir-se diversas noites seguidas, e excepcionalmente, numa mesma noite, normalmente em horários fixos.

 - Os pesadelos e os terrores possuem em comum a angústia infantil de um um conflito interno não resolvido.

- Segundo FREUD, a função do "guardião do sono" do sonho fracassa e o sonho se torna perturbador do sono, ao invés de protetor.

 - SONAMBULISMO: O sonambulismo predomina entre os meninos e se inicia em geral, entre os sete e os oito anos.

 - O sonâmbulo se levanta na primeira parte da noite e poderá executar atividades automáticas mais ou menos adaptadas, com os olhos abertos, olhar fixo, deslocando-se com uma marcha incerta.

 - Após determinado tempo de deambulação, de uma duração que varia entre alguns minutos e uma meia hora, a criança retorna em seguida à sua cama ou se deixa conduzir docilmente; ao dia seguinte ela terá uma amnésia completa do eisódio.

 - Em estudos científicos comparativo (A. KALES et al.) assinalam que não se pode deduzir características psicopatológicas particulares, nada consta do ponto de vista intelectual. Referem componentes ansiosos ou depressivos, mas em nenhum caso encontrou-se traços psicóticos.

- Segundo SPERLING, parece que o sonâmbulo quer fugir de um perigo interno, qual seria o de sucumbir aos impulsos profundamente recalcados, sádicos e perversos, o que é convertido em perigo externo, de modo similar ao mecanismo utilizado no sonho e nas fobias; a estreita relação dinâmica entre estes o outros estados (histéricos).

 - NÍVEL DO SONO E DISTÚRBIOS DO SONO a EPILEPSIA NOTURNA - Podem ocorrer durante o sono tanto em crianças quanto em adultos, elas são bastante acentuadas durante o sono e se manifestam, em geral, no período de despertar.

 FONTE BIBLIOGRÁFICA
 AJURIAGUERRA, J. - MANUAL DE PSIQUIATRIA INFANTIL - Atheneu.
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica) 

Ψ O Sonho e o Imaginário na Criança

O SONO NO QUADRO GERAL DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL

- O sono e a vigília correspondem a mecanismos fisiológicos bastante precisos e a evolução do sono é concomitante com uma maturação funcional do organismo e com variações da eletrogênese cerebral.

- Durante oas primeiros meses de vida da criança o adormecimento está ligado à sensação de saciedade, e o despertar à sensação de fome.

- Mas a partir de determinado momento, o despertar não mais depende de uma "vigilância de necessidade", ligada às necessidades alimentares, pouco a pouco, ele se torna uma "vigilância seletora", dependente do comportamento adaptado ao ciclo diurno, produz-se uma adaptação da criança ao seu meio e o meio cria os hábitos na criança.

- O sono infantil tem uma evolução particular (pode ser controlado por EEG - eletroencéfalograma) e que comporta fases de atividade cerebral lenta e rápida, e que se modificam durante a evolução.

- A organização do sono, do ponto de vista qualitativo e quantitativo, tem suas próprias características, das quais algumas dependem da maturação, mas que estão ligadas também à organização do Ego e do investimento da libido.

- Para SPITZ, o sono do recém-nascido é uma função normal de proteção, que faz parte da concepção mais ampla de barreira de proteção contra o estímulo. É um modo de evitar com sucesso o desprazer, por meio de uma regressão.
















- Entre três e cinco anos - Sono mais organizado, lentidão no adormecimento, despertar à noite com ansiedade.

- Entre cinco e sete anos - A criança consegue contar o seu sonho.

REPRESENTAÇÃO INFANTIL DO SONO EM DESENHO -  Nebuloso, uma nuvem ou figura esfumaçada.

- Segundo L. B. AMES, a criança começaria a sonhar por volta dos dois anos.

- Aos três anos começa a narrar seus sonhos ocasionais, com imagens do sonho e fantasias que ela mesma cria.

- As crianças relatam sonhos desgradáveis com imagens de animais, que a perseguem, bonecos deformados, isoladas em florestas, serem atacada ou devoradas.

- São sonhos encontrados em quase todas as crianças tendo um valor simbólico de temor, abandono ou separação, agressão projetada ou de punição.

- Somente a partir dos sete anos a criança se torna a personagem principal do sonho.

- Segundo PIAGET tanto em estrutura simbólica, quanto em seu conteúdo, o sonho infantil é bastante semelhante ao jogo de ficção, sendo que no jogo há uma construção intencional e a do sonho envolve o indivíduo bem além do plano de sua consciência, o sonho se restringe a apresentar o objeto por uma imagem mental ou a escolher uma outra imagem simbolizando o mesmo objeto.

- Os sonhos bizarros são relatados por indivíduos que vivenciam conflitos ainda não resolvidos.

MANUAL DE PSIQUIATRIA INFANTIL J. de AJURIAGUERRA, Atheneu.
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ψ A maior lição da psicanálise é esta: qualquer desejo implica perdas. (Calligaris)

*Contardo Calligaris:
1. Você pode escolher entre ficar em casa ou pegar a estrada e, sem dúvida, faz e fará um pouco dos dois. Mas, quando estiver em casa, tente não sonhar com a estrada e, quando estiver na estrada, tente não lamentar o calor do lar. Vivemos de sonhos e de nostalgias: é necessário cuidar para que essa alternância não nos mantenha constantemente afastados do momento presente.

  2. Quando alguém pedir esmola ou ajuda, dê (na medida de seu possível) o que está sendo pedido. Não tente moldar o desejo de quem pede, oferecendo pão e leite em vez do trocado. A humanidade dos mais desprovidos se refugia e resiste justamente na capacidade de continuar desejando o supérfluo.

  3. Todos os pedidos podem ser recusados, mas devem ser, ao menos, reconhecidos. Portanto é proibido recusar sem falar.

  4. Trate como íntimo só quem poderia sem riscos lhe devolver a mesma cordialidade.

  5. Caso você pretenda mudar o mundo, lembre-se de que, provavelmente, você não está à altura do mundo mudado segundo seu desejo. Se pretende transformar seu parceiro ou sua parceira, lembre-se de que você, provavelmente, não está à altura do parceiro ou parceira assim transformados. Quem quer mudar as coisas facilmente esquece de contar-se entre os itens a serem mudados.

  6. Qual é a melhor viagem: visitar as capitais européias num “tour” de 15 dias ou passar duas semanas numa cidade só e conhecê-la um pouco? É mais interessante manter um casamento complicado do que multiplicar as ou os amantes. O mesmo vale para os amigos e relações em geral.

  7. Uma vez por semana, durante uma hora, sente-se numa esquina de sua cidade e contemple os passantes. Tente imaginar a variedade das vidas, a dignidade de todas. Se você tem filhos, faça o exercício duas vezes por semana: será de grande ajuda para aceitar que a vida deles vale a pena, mesmo se não corresponde em nada aos seus sonhos.

  8. Considere como verdade absoluta que é possível ter uma vida boa e justa sem acreditar numa verdade absoluta.

*publicado originalmente no suplemento “Mais!”, da Folha de S.Paulo, de 13/10/2002.

sábado, 22 de setembro de 2012

(...)



"A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem." Pablo Neruda

"Se sou amado,
quanto mais amado
mais correspondo ao amor.

Se sou esquecido,
devo esquecer também,
Pois amor é feito espelho:
- tem que ter reflexo."




*Clarice Lispector entrevista Pablo Neruda:

- Escrever melhora a angústia de viver?
- Sim, naturalmente. Trabalhar em teu ofício, se amas teu ofício, é celestial. Senão é infernal.

- Quem é Deus?
- Todos algumas vezes. Nada sempre.

- Como é que você descreve um ser humano o mais completo possível? 
 - Político, poético, físico.

- Como é uma mulher bonita para você?
- Feita de muitas mulheres.

- Escreva aqui o seu poema predileto, pelo menos predileto neste exato momento.
- Estou escrevendo. Você pode esperar por mim dez anos?

- Em que lugar gostaria de viver, se não vivesse no Chile?
- Acredite-me tolo ou patriótico, mas eu há algum tempo escrevi em um poema:
Se tivesse que nascer mil vezes
Ali quero nascer.
Se tivesse que morrer mil vezes
Ali quero morrer…

- Qual foi a maior alegria que teve pelo fato de escrever?
- Ler minha poesia e ser ouvido em lugares desolados: no deserto aos mineiros no Norte do Chile, no Estreito de Magalhães aos tosquiadores de ovelha, num galpão com cheiro de lã suja, suor e solidão.

- Em você o que precede a criação, é a angústia ou um estado de graça?
- Não conheço bem esses sentimentos. Mas não me creia insensível.

- Diga alguma coisa que me surpreenda.
- 748. (E eu realmente surpreendi-me, não esperava uma harmonia de números.)

- Você está a par da poesia brasileira? Quem é que você prefere na nossa poesia?
- Admiro Drummond, Vinícius e aquele grande poeta católico, Claudelino, Jorge de Lima. Não conheço os mais jovens e só chego a Paulo Mendes Campos e Geir Campos. O poema que me agrada é o Defunto, de Pedro Nava. Sempre o leio em voz alta aos meus amigos, em todos os lugares.

- Que acha da literatura engajada?
- Toda literatura é engajada.

- Qual de seus livros você mais gosta?
- O próximo.

- A que você atribui o fato de que os seus leitores acham você o ‘vulcão da América Latina’?
- Não sabia disto, talvez eles não conheçam os vulcões.

- Qual é o seu poema mais recente?
- Fim do mundo. Trata do século XX.

- Como se processa em você a criação?
- Com papel e tinta. Pelo menos essa é a minha receita.

- A crítica constrói?
- Para os outros, não para o criador.

- Você já fez algum poema de encomenda?  Se o fez faça um agora, mesmo que seja bem curto.
- Muitos. São os melhores. Este é um poema.

- O nome Neruda foi casual ou inspirado em Jan Neruda, poeta da liberdade tcheca?
- Ninguém conseguiu até agora averiguá-lo.

- Qual é a coisa mais importante do mundo?
- Tratar de que o mundo seja digno para todas as vidas humanas, não só para algumas.

- O que é que você mais deseja para você mesmo como indivíduo?
- Depende da hora do dia.

- O que é o amor? Qualquer tipo de amor?
- A melhor definição seria: o amor é o amor.

- Você já sofreu muito por amor?
- Estou disposto a sofrer mais.

- Quanto tempo gostaria você de ficar no Brasil?
- Um ano, mas dependo de meus trabalhos.

 (…) LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p.185-6. Clarice Lispector; Entrevista-relâmpago com Pablo Neruda
(Fatima Vieira)

Ψ " Se você encontrar alguém disposto a caminhar na chuva do seu lado, não fuja, molhe-se." Calligaris



 
Ψ “Na minha literatura, como na minha vida, amar é, sobretudo, um ato de coragem que só é possível para quem viaja de mala de mão.”

A afirmação é do Psicanalista *Contardo Calligaris que numa entrevista  fala sobre amor, Psicanálise, Brasil e dá alguns conselhos a novos terapeutas.

- Que buscas, desejos, dificuldades mais se repetem naqueles que procuram um psicanalista?
- Calligaris: 1) amor e desejo; 2) sensação de não conseguir realizar as coisas das quais a gente se sente capaz ou às quais se sente destinado, realizações que são um pouco mais do que a dita “realização profissional."
 Agora, essa é uma distinção temática. No fundo, do ponto de vista da dinâmica interna, o que mais aparece é a dificuldade em desejar e em agir à altura do desejo da gente.

- Quais as principais questões que lhe desafiam nas pessoas que chegam ao seu consultório?
- Calligaris: Sem dúvida, quando ela ocorre, a pane do desejo, um “não querer nada” e “não gostar de nada”, que pode ser menos espetacular que uma depressão, mas é, a meu ver, mais grave.

- De que maneira as características culturais desse tempo modificaram a psicanálise? Que fenômenos emergentes nessa área poderia destacar?
- Calligaris: Fora os detalhes práticos (pouco relevantes), um fenômeno, sim: a extrema e progressiva sanitização do sexo.

- De que maneira a violência social no Brasil interpela a psicanálise, ela teria algo a dizer?
- Calligaris: Sim, sem dúvida. Citar o quê? Violência e Psicanálise, de Jurandir Freire Costa, ou o meu Hello, Brasil!, visto que seremos os palestrantes deste encontro. Pessoalmente, devo ter participado de cinco ou seis seminários “decisivos” sobre o tema, nos quais, claro, não se decidiu nada…

- Quais os três conselhos que você daria a um (a) novo (a) terapeuta?

- Calligaris: 1) se preocupar sempre mais com seus pacientes do que com seus colegas; 2) se preocupar sempre mais com seus pacientes do que com a doutrina de sua disciplina; 3) voltar a se analisar periodicamente;
 por três razões: para se lembrar que ele pode pouco (e conviver melhor com essa frustrante constatação), para não confundir seu sintoma e sua neurose com a regra e para descobrir e inventar coisas novas sobre ele mesmo.

- Você tem uma voz ativa (oral e escrita) sobre a vida do país. Comente duas razões de esperança do Brasil atual e as duas principais preocupações que lhe afetam na atualidade do paÍs.
- Calligaris: Para alguém que chegou ao Brasil pela primeira vez em 1985, como é meu caso, o país mudou muito. E mudou para melhor, decididamente. Duas razões de celebrar: diminuição da diferença econômica e a sensação, nas trocas cotidianas, de uma maior inclusão social (o outro se tornou mais gente, por miserável que seja). Agora, toda mudança é aos trancos e barrancos - isso é a regra. 

- Preocupações? Nenhuma, fora a lista que qualquer torcida nacional poderia enumerar. Ou melhor, uma: que (durante um bom tempo) a encenação ostentatória da justiça substitua seu exercício efetivo.

- Que características tem o amor na sua literatura?

- Calligaris: Na minha literatura, como na minha vida, amar é sobretudo um ato de coragem que só é possível para quem viaja de mala de mão. Também, é uma aventura que não acontece sem um respeito pelo outro, que raramente conseguimos oferecer.

- Qual é seu grande sonho que gostaria de um dia realizar?
- Calligaris: Não tenho sonhos que não esteja tentando realizar já. Há mais algumas histórias que quero contar e com as quais gostaria de contribuir ao “livro interior” de meus contemporâneos. Claro, tenho um sonho que depende não de mim, mas de meu filho: quero ter netos.

"O diálogo que leva ao amor dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de se apresentar por nossas falhas, feridas e perdas."
"É melhor falar logo das coisas mais difíceis de serem ditas. Pois, quando são silenciadas, elas acabam se vingando, sempre."

"Não conseguimos realizar nossos desejos porque, frequentemente, não estamos dispostos a pagar o preço que esses desejos exigem de nós."
 
*Contardo Calligaris (1948, Milão, Itália) Psicanalista, Doutor em Psicologia Clínica e Ensaísta.
 Radicado no Brasil, vive entre São Paulo e Nova York, onde já foi professor na Universidade de Berkeley e na New School. Autor de diversos livros, entre eles Crônicas do individualismo cotidiano (1996), A adolescência (2000) e Cartas a Um Jovem Terapeuta (2004);  
Também assina uma coluna no jornal Folha de S P, com a qual  vem desempenhando papel como formador de opinião a partir de reflexões sobre cinema, choque cultural, relações amorosas, política, violência e exclusão social.
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

... primavera, enfim!



Ψ A Angústia como Sintoma Neurótico: Neurose Fóbica

- Ψ Na NEUROSE FÓBICA, manifesta-se uma tensão interna geral sob a forma de angústia constante, que flutua livremente, ou de disposição para a mesma.

- Na FOBIA, a angústia liga-se, especificamente, a uma situação especial, esta representando o conflito neurótico.

- Se o EGO avalia o perigo - "Este ato ou situação instintiva é capaz de acarretar a castração ou a perda do amor" - visa a "advertir" no mesmo sentido em que o EGO normal adverte de um perigo verdadeiro, o que se vê é completamente esta intenção na NEUROSE FÓBICA.

- O que visava a impedir um estado traumático na realidade o induz; situação esta que mencionamos quando falamos na estratificação tríplice da angústia, isto é, a angústia de advertência regride à angústia do pânico.

- Esta falha da função de advertência do EGO explica-se pelo fato de que o aumento da tensão interna (o estado de represamento) já criara disposição geral para a angústia: barril de pólvora em que o sinal de perigo atua como se fosse um fósforo.

- As pessoas tensas reagem às situações de perigo por forma diferente das pessoas normais. As pessoas tensas desenvolvem disposição latente para a explosão, disposição que, por influxo acrescido do temor consequente à percepção do perigo, as faz ficar paralisadas.


- Do mesmo modo que reagem a perigos reais com pânico, em lugar de sentir medo e reagir de acordo, as pessoas "nervosas" também reagem a perigos imaginários com pânico.

- Quase sempre certa disposição difusa para o desenvolvimento de uma angústia que tem a ´índole de neurose terá existido durante algum tempo. Alguma coisa ocorre que, inconscientemente, mobiliza o conflito patogênico básico. O Ego quer advertir, falha a advertência e produz o primeiro ataque de neurose fóbica.

- Daí em diante, a disposição para o desenvolvimento de angústia liga-se à situação específica, que produziu este primeiro ataque.

- A limitação e a especificação da situação temida pode descrever-se como sendo uma espécie de ligação secundária da ansiedade difusa primária ao conteúdo específico, momento este a que a disposição explosiva contínua da neurose fóbica está controlada, desde que não se acendam fósforos de alusão às situações específicas; mas se nestas se toca, manifesta-se a angústia e secundariamente, o Ego desenvolve medidas que tentam combatê-la.

- Na neurose fóbica o temor que motivou a defesa ainda está manifesto, é o tipo mais simples de neurose, de modo que as primeiras reações neuróticas das crianças tem, em regra, o caráter da neurose fóbica. Todas as demais neuroses elaboram de maneira mais extensa a angústia.

O DESLOCAMENTO DA NEUROSE FÓBICA - O que determina a escolha do conteúdo específico? Que situações ou pessoas se acredita sejam perigosas?

- Existem casos em que não há muito deslocamento; a angústia é sentida em situações nas quais uma pessoa desinibida experimentaria ou excitação sexual ou raiva. A inibição, às vezes, se manifesta em certo temor, o qual se desenvolve sempre que se toca no terreno inibido.

  - Na impotência e na frigidez há uma fobia do sexo, o indivíduo se amedronta diante de tentações sexuais e tenta evitá-las.

- Há fobias gerais da comida, os quais se terão ligado a conflitos inconscientes; ou através de associações históricas, ou pela sua significação simbólica - Noutras fobias, ainda simples, a situação que se teme não constitui tentação temida; é a ameaça que causa a tentação a temer-se; castração ou perda de amor.

- Há fobias de facas e tesouras, nas quais se implica que sequer a vista destes instrumentos desperta a ideia temida de castração possível (hostilidade reprimida).

- Nos casos de histeria em que as forças defensivas mais realizaram do que simples desenvolvimento de angústia e atitudes fóbicas ulteriores; ficou mais oculta a conexão entre a situação temida e o conflito instintivo original. Não são as situações sexuais que se temem, mas, as situações sexualizadas.

-  Em geral, a situação ou a pessoa que se teme possui significação especial para o paciente. Alguns impulsos rejeitados buscam oportunidade de satisfação, mas a reativação respectiva também mobiliza as angústias antigas; as repetições neuróticas consistem em falsas interpretações da realidade no sentido ou de tentações inconscientes; ou num sentido e noutro.

- EXEMPLOS de situações de ansiedade que representam tentações inconscientes: A ideia de ruas, nas AGORAFOBIAS, é concebida, inconscientemente, como oportunidades de aventuras sexuais.

  - Pensa-se na rua como um lugar que se poderia ser visto e capturado; estar só significa estar desprotegido do inimigo.

- Há muitos temores hipocondríacos que significam ou "posso ser castrado", ou "pode vir a verificar-se que eu já esteja castrado".

- FOBIAS de doenças (nosofobia) em pessoas que na infância o medo de castração se deslocou para a ideia de adoecer. "Estar doente" significa "estar com febre"; e as sensações do estado febril representam a temida excitação sexual infantil.

  - MEDO DE CAIR DE LOCAL ALTO E MORRER: Quase sempre significa punição de desejos homicidas.; mas a própria sensação da queda representa, simultaneamente, as sensações da excitação sexual, que bloqueada no seu curso natural, adquire caráter doloroso e atemorizador.

- CLAUSTROFOBIA: O medo de ser confinado em espaços apertados, ou o medo de ruas estreitas são as próprias sensações de angústia que se experimentam como constrição e aumentam com as sensações vegetativas dolorosas que substituem a excitação sexual bloqueada.

- O "MEDO DE FICAR DOIDO" - Este temor pode ser justificado. Não é exata a regra segundo a qual quem tem medo de enlouquecer não enlouquece. Há muitos esquizofrênicos incipientes que percebem o seu alienamento crescente.

- É frequente este não constituir juízo fundado, mas sim fobia (e mesmo como fobia, o medo tem base objetiva); o que o paciente sente, em seu medo de enlouquecer, é a interação dos seus desejos inconscientes (pricipalmente os impulsos instintivos - sexuais ou agressivos - que dentro dele atuam).

- Neste sentido, o medo de enlouquecer o medo de sua própria excitação. Pois a excitação temida da sexualidade infantil quase sempre se experimenta em conexão com a masturbação, é fácil que as crianças aceitem como substitutos da ideia de castração as advertências dos adultos no sentido de que "a masturbação fazem as pessoas ficarem malucas".

- Os temores de ser feio ou de estar sujo podem significar o mesmo que os temores de ser doente ou louco; a feiúra, a aparênciarepulsiva significam estar sexualmente excitado (ou estar enraivecido), ou ser castrado. Acontece às vezes certas fobias desta ordem constituem estados de transição para delírios.

FERENCZI cita outro exemplo de da simultaneidade de tentação e castigo nas NEUROSES DE DOMINGO: Há pessoas que nos domingos sofrem fconstantemente de angústia (ou depressão). Os domingos são, em geral dias em que, supostamente, mais do que os outros dias ocorrem atividades sexuais; mas são os dias em que as crianças estão mais sob supervisão dos pais.

-  Por força da REPRESSÃO é frequente as fobias terem conteúdo indefinido, nebuloso, que se compara pela falta de clareza, ao conteúdo dos sonhos.; é comum ver grande parte do trabalho analítico ocupada com a determinação precisa do que é que mete medo ao paciente. Às vezes parece que o conteúdo do temor foi claro e definido para depois se tornar no curso da neurose vago e impreciso.

- A vantagem que tem o deslocamento está em que a ideia ofensiva original não se torna consciente. Tem-se o caso analisado por FREUD do pequeno HANS que teme cavalos. Aquelas pessoas que ameaçam são odiadas, o menino deixa de ser ameaçado pelo pai para ser ameçado pelo cavalo mau, assim consegue evitar o ódio ao pai. Com o pai ele precisa conviver todos os dias, enquanto a ameaça do cavalo é fácil evitar ficando em casa.

- QUEM TENHA FICADO COM MEDO DE SAIR DE CASA PODE EVITAR ESTA SITUAÇÃO TEMIDA, MAS NINGUÉM CONSEGUE EVITAR O PRÓPRIO CORPO E AS SUAS SENSAÇÕES, acaba por produzir projeção vantajosa de certo perigo instintivo interno para um perigo perceptivo externo.

- Logo, nas FOBIAS a projeção desta ordem é a tentativa de fugir de certo impulso perigoso interno pelo evitar de uma contigência externa específica, que representa este impulso, é o tipo de deslocamento que com mais freqência se vê nas fobias.

- Sabe-se que o perigo original, tem sido também perigo externo, visto não ser a expressão instintiva que se teme, e sim, as suas consequências externas (castração, perda de amor).

- Embora, o indivíduo fuja de pais ameaçadores, o indivíduo fóbico foge, primordialmente dos seus próprios impulsos, porque o perigo externo da castração é determinado pelo seu comportamento.

BIBLIOGRAFIA:
FENICHEL, Otto - Teoria Psicanalítica das Neuroses. Livraria Atheneu, Rio de Janeiro/ S.Paulo, 1981.
(Fatima Vieira - Psicóloga)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Ψ "Então, para que é que estou maluco"?



Ψ LUCROS SECUNDÁRIOS DAS DOENÇAS
*Enquanto se está estabelecendo uma neurose é, via de regra, muito incômoda.
O EGO, tenta então, fazer da necessidade uma 'virtude', seria capaz de servir da neurose para fins próprios.
*Pode tentar ganhar vantagens do meio, provocando a piedade, a atenção, o amor, a concessão de suprimentos narcísicos ou até compensações monetárias.
*Os lucros secundários possíveis são muito variáveis:
1. LUCROS SECUNDÁRIOS DO MUNDO EXTERIOR: Consiste em ganhar atenção pelo fato de estar doente. Qual a necessidade especial de "ganhar atenção"?
Precisa-se de atenção ou como satisfação sexual (substituto do amor), ou como tranquilização e promessa de ajuda e proteção.
Também se percebe a doença, muitas vezes, como direitos à privilégios, os quais consistem em vantagens materiais ou em proveitos psíquicos mais sutis.
 Muitas vezes os que mais lutam por "compensação" são os pacientes que de dinheiro pouco precisam, necessitando mais de afeição e tranquilização contra o abandono.
Conta-se a história de um paciente internado que indagou, quando lhe negaram privilégios especiais. "Então, para que é que estou maluco"?
*A doença mobiliza todas as vantagens do comportamento passivo-receptivo;
"Agora já não sou eu que tenho de agir; eles tem de agir por mim."

 2. LUCROS SECUNDÁRIOS ORIUNDOS DO SUPEREGO:
O orgulho ds formações reativas, bem como o apaziguamento de um SUPEREGO severo pelo sofrimento incluem nesta categoria.
Os privilégos da doença incluem a perda de sentimento de responsabilidade; e uma neurose pode servir para ganhar "atenção interna" do mesmo modo que para lograr atenção externa.
O lucro secundário que resulta da avaliação dos sintomas como punição tem sido considerado primária e fundamental. Não há, porém, quem se torne neurótico apenas para o fim de sofrer.
*Predominam várias vantagens secundárias conforme os diversos tipos de neurose:
NEUROSE DE ANGÚSTIA: Regressão á infância, proteção;
NA HISTERIA: Lograr a atenção pela "teatralização" e obtenção de de vantagens materiais;
NEUROSE OBSESSIVA: Proveitos narcísicos pelo orgulho da doença;
NOS DISTÚRBIOS PSICOSSOMÁTICOS: A negação de conflitos psíquicos pela
 projeção destes na esfera física.
*Os lucros secundários ora são muito evidentes, ora ocultos. Quem consegue lograr vantagens com a doença não as larga com facilidade.
*Logo, a ANÁLISE tem primeiro, de clarificar e trabalhar através dos lucros secundários.  Um lucro desta ordem pode até ser o único prazer que o paciente é capaz de sentir. 
*Neste particular, um lucro secundário, dificulta às vezes, a análise de um neurótico tanto quanto a de um pervertido.

FONTE BIBLIOGRÁFICA:  FENICHEL, Otto - TEORIA PSICANALÍTICA DAS NEUROSES
Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica