sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Ψ O Caminho dos Sonhos - Marie Louise-Von-Franz

*Marie Louise Von Franz Em Conversa Com Fraser Boa: *Dra. Marie Louise-Von-Franz é uma analista junguiana que vive e trabalha em Küsnacht, Suíça. Ela fez análise com C.G. Jung e trabalhou diretamente com ele durante mais de trinta anos. Colaborou com Jung em duas obras importantes, 'O homem e seus Símbolos' e 'Mysterium Conjunctionis'.
Nossas conversas tiveram lugar em seu consultório, que dá vista para o lago de Zurique.

- Em 'O homem e Seus Símbolos' Jung chamou de "animus" a personificação masculina do inconsciente nos sonhos da mulher.
- Em latim, essa palavra significa "espírito ". 

- Assim como a anima no homem, o animus exibe quatro estágios de desenvolvimento. 
- Von - Franz delineia esses estágios:
- Primeiro ele aparece como personificação do mero poder físico, por exemplo como campeão atlético ou homem musculoso.
 

- No estágio seguinte, ele tem iniciativa e capacidade de ação planejada.
- No terceiro, o animus torna-se o "verbo"...
 

- Na sua quarta manifestação, ele é a encarnação do significado.
- Em seu mais elevado nível ele se torna (assim como a anima) um mediador da experiência religiosa, através da qual a vida adquire um novo sentido. Ele dá força espiritual à mulher, uma invisível sustentação interior que compensa sua delicadeza exterior.
 

- Nesse nível mais elevado o homem interior funciona como uma ponte para o Self.
- Ele personifica a capacidade de uma mulher ter coragem, espírito e verdade, estabelecendo uma ligação com a fonte da sua criatividade pessoal.

- Mas, assim como a anima vampiresca do homem, o animus em sua forma negativa é um parasita.
- Ele personifica a brutalidade, a frieza e a obstinação, e paralisa o crescimento da mulher.
 

- (...) "Na época desse sonho, eu era o centro de uma instituição chamada matrimônio e ostentava o impressionante título de Mãe.
- Meus lindos filhos nunca pediam sem receber e meu belo marido nunca recebia sem pedir.
Externamente, a vida era uma alegria e uma glória... 
- No sonho estou deitada num enorme colchão King size. Enorme mesmo! Ele está suspenso e flutua no ar. Não há nada ao redor. Nem lençóis, nem nada. Sinto que algo se aproxima à direita. É uma mulher que vem vindo com dois 'dobermans' pretos presos pela coleira.
 

-  Ela se aproxima e eu observo. Ela chega cada vez mais perto. Quando está a um metro de mim, ela me olha com repulsa.
- Ela me olha, solta as guias e os dois cães se arremessam sobre minha garganta. Aí eu acordo. Não consigo respirar. Sento na cama ofegante,  fiquei com esse terror durante todo o dia, me perguntando o que isso podia significar. Tal fato era extraordinário, porque nunca antes eu havia me interessado por sonhos".


*Descida ao Mundo dos Sonhos:
 "... Os sonhos fornecem informações extremamente interessantes a quem se empenhar em compreender o seu simbolismo. O resultado, é verdade, pouco tem a ver com preocupações mundanas como comprar e vender. Mas o sentido da vida não é explicado pelos negócios que se fez, assim como os desejos profundos do coração não são satisfeitos por uma conta bancária." (Jung)

 - "... Ao lado desta imagem eu gostaria de colocar o espetáculo do céu noturno estrelado, pois o único equivalente do universo interior é o universo exterior; e, assim como atinjo este mundo através do corpo, atinjo aquele através da psique." (Jung)

- No decorrer da história os homens projetaram a mulher interior, a anima, na natureza.
- Mas dentre todas as várias manifestações da natureza que receberam essa projeção, aquela que até hoje conserva a numinosidade é a Lua.

 
  - A Lua também simboliza a natureza feminina de um homem:
"Alguns dias atrás tive um sonho de que me recordo muito bem. Eu passeava de carro com uma jovem. No começo do sonho, ela parecia uma pessoa que conheço, uma ex-aluna. No meio do sonho, havia uma parte em que eu podia olhar através do teto do carro. Era noite e eu via a abóbada celeste com muita clareza. As estrelas pareciam próximas. Eu as via não como pontos de luz, mas como esferas sólidas, e era possível perceber detalhes como os anéis de Saturno e Júpiter, que normalmente não se vêem. Lembro-me que no próprio sonho eu ficava muito impressionado. Lembro também que eu dizia à minha companheira que seria uma linda noite para se dar um passeio." (Professor universitário)
 

- Quando o sonho começa, esse senhor está dirigindo à noite acompanhado de uma mulher.
- Portanto, ele não está em casa; não está em seu ambiente profissional na universidade; não está num bar com amigos; ele está andando de carro à noite com uma mulher.

- Poderíamos perguntar-lhe: "Como uma pessoa se sente numa situação dessa? 
- Essa é uma situação em que a pessoa se descontrai, deixa de lado as preocupações cotidianas e se sente próxima da natureza. Fica-se aberto para ver algo novo.
- O que mais ele possa ter em mente depende do seu relacionamento com a companheira.
- A cena sugere uma situação positiva de relacionamento, em contraste com trabalho intelectual ou diversão social. É noite. A noite ficamos mais abertos, mais românticos, mais reflexivos, porque nossa atenção não é desviada por telefonemas e coisas do gênero.

- É um momento de reflexão descontraída, no qual os sentimentos e os aspectos reprimidos da personalidade vêm à tona. 
-  Daí ele olha para o céu.
- O céu sempre foi uma das visões mais fascinantes para o homem e em épocas passadas as estrelas eram figuras divinas, eram deuses. 
- Segundo os mitos, é do reino das estrelas que nossa alma vem e para lá retorna após a morte.

- Pense na história da astrologia, que se expandiu não só pelo Ocidente, mas também na índia, na China e em todas as civilizações mais elevadas.
- Todas têm suas tradições astrológicas. Os astros permitem que se prognostique o futuro não apenas de um indivíduo, mas da humanidade inteira.

- Na China, todo um grupo de astrólogos observava o céu dia e noite e relatava ao imperador os sinais percebidos, que eram interpretados no que se referia ao império chinês. Analogamente, na antigüidade, tudo era visto no céu.
- Dra. Von Franz, a senhora acha que há uma relação entre a constelação dos astros e o destino de indivíduos ou mesmo da humanidade?

- As constelações no céu representam as constelações por trás dos grandes eventos históricos, como se na profundeza do inconsciente não estivéssemos isolados, mas de algum modo ligados ao conjunto da humanidade, que sonha um sonho ininterrupto.
- É isso que explica as mudanças políticas e religiosas. 

- Se você pensar por um momento o quanto a situação da humanidade mudou nos últimos trinta anos, perceberá a rapidez dessas grandes mudanças coletivas.
- Naturalmente, seres humanos inteligentes refletem sobre os processos mais profundos por trás dos eventos históricos externos.

 - Olhar para o céu pode assim ser entendido como o sonhador olhando para as constelações mais profundas não só da sua própria vida, mas também da nossa sociedade.
- A palavra constelação vem de stella e portanto significa proximidade de estrelas, a humanidade junto com as estrelas.
 

- Ele precisa de orientação: "Onde estou nesta altura da vida? Qual é a minha missão?"
- Então ele olha para o céu e vê as belas constelações de planetas, especialmente Júpiter e Saturno, bem próximos um do outro.
 

- Ora, a conjunção de Júpiter e Saturno tem uma longa história.
- Ela ocorreu vinte vezes na época do nascimento de Cristo; com efeito, sete anos antes de Cristo nascer, segundo a tradição histórica.

- Saturno, como se sabe, é um agente maligno. Os escorpiões, as serpentes, os asnos, pertencem a seu reino.  Ele é um espírito obscuro e destrutivo.
- Júpiter, por outro lado, é em geral a estrela dos reis, do Rei da Justiça, da expansão no mundo, da magnanimidade e todas as qualidades positivas de uma personalidade com realeza.

- Considera-se que o Cristianismo surgiu num tempo em que se aproximavam esses contrastes extremos, o obscuro e o luminoso, o corpo e o espírito.
- Tudo estava cindido em oposições e conflitos.

- A idéia central era de que a era do Cristianismo se caracterizaria inicialmente pela dominação de Cristo, o espírito jupiteriano, e depois pelo anticristo, o espírito saturnino.
- A combinação de Saturno com a Lua (que veremos no próximo sonho) era tida como prenúncio de uma época de revolução, inquietações religiosas e mudanças.

- Assim, quando o sonhador procura a constelação do momento vivido e também da sua vida, o sonho lhe diz que há uma combinação de opostos extremos.
- Trata-se de um momento de mudança, no qual forças destrutivas e construtivas estão consteladas simultaneamente.
 

- No sonho, ele está impressionado apenas pela beleza da cena noturna e propõe-se deixar o carro e dar um passeio.
- Trata-se de um grande passo adiante, pois ele deixa o carro, deixa seu modo mecânico de mover-se pela vida.

 - A pé você desacelera e intensifica o contato com a natureza. Você anda passo a passo; sente o lugar, a terra, as árvores e o ar ao seu redor.
- É essa a mudança positiva que resulta dessa visão do céu. Essa ideia de encontrar orientação no céu noturno repete-se em seu segundo sonho na mesma noite.


Sonho do homem:
 -  (...) "Eu estava no jardim da casa dos meus pais em Dover, Inglaterra, olhando para o céu noturno. Dava para ver a Lua. Era uma Lua crescente, sob a qual se agrupavam três estrelas muito brilhantes, que mais ou menos acompanhavam sua curva. Essa configuração me parecia algo fora do comum. Como eu queria ver mais de perto, olhei através de um jogo de lentes (acho que tinha uma lente na mão). Vi que a Lua estava cheia, mas mesmo assim, por trás dela, as três estrelas ainda eram visíveis, apesar da substância da Lua. Continuando a olhar, vi a Lua dividida: dava para perceber o crescente e continuando a linha curva, a forma-fantasma da Lua cheia - mas as duas partes tinham substância e eram perfeitamente equilibradas. No próprio sonho, achei que essa divisão da Lua era algum tipo de símbolo Yin/ Yang..."
 - Na tradição histórica, a Lua sempre foi encarada como o regente do mundo transitório e mutável.
- Havia também as constelações eternas, masculinas, o mundo das idéias platônicas, por assim dizer, no qual nada mudava; ou só mudava através de longos processos históricos.

- Mas a Lua era uma constelação feminina, em perpétua mudança. Ela regia a menstruação, o nascimento, a morte, os animais, as marés e assim por diante.
- Pode-se dizer que a proeminência da Lua neste sonho reflete uma situação coletiva, ou seja, a aproximação do arquétipo feminino.
 

- Uma característica típica da nossa época é a emergência de um forte elemento feminino.
- Este pode ser visto tanto na liberação feminina como na psicologia masculina.

 O sonho o indica pelo fato de que agora a Lua é dominante.
- E as três estrelas que brilham através da Lua?
- Eu diria que as três estrelas representam a Trindade cristã, três poderes divinos masculinos dos quais o quarto elemento, a Lua - o feminino - foi excluído.

- Na medida em que a tradição cristã caracteriza-se por ser puramente patriarcal e de orientação espiritual, ela não inclui o feminino, a Terra, o corpo - o elemento que agora vem à tona. 
- Em seguida, o sonhador olha melhor e vê que as três estrelas estão atrás da Lua, como se tivessem desaparecido ou por ela sido encobertas. Entretanto, elas ainda brilham. 

- A questão é tão - somente que agora a Lua está na frente. 
- Isso quer dizer que o feminino atualmente passa para a dianteira.
- A Trindade Cristã não é eclipsada, mas deve retroceder para a linha de fundo por trás do princípio feminino da Lua.
- Quando nova ou quase eclipsada, a Lua fica muito próxima do Sol, o que significa que o princípio feminino que agora emerge não deve dominar como anteriormente o fez o masculino, mas im tentar estar em conexão com este, uma conjunção do Sol e da Lua.

- No sonho, o contorno da Lua cheia e a linha divisória que indica onde exatamente a Lua crescente brilha é associado ao símbolo de Yin/Yang, o conhecido símbolo do jogo dos opostos na filosofia taoísta.
- Nesse caso, o lado escuro seria o dominante, embora esteja prestes a entrar na área iluminada. Isso seria, digamos, o momento crucial em que o lado sombrio, que esteve dominante em nossa época, começa a ceder espaço para uma nova luz.

 - "Nesse ponto do sonho, entrei em casa e senti que eu era de novo uma criança. Eu me encontrava só na casa e me preocupava se a porta estava bem fechada. Percebi que algo acontecia nos fundos da casa. Meu pai estava descarregando algum tipo de material de um caminhão. Era areia..."
- " Para esse tipo de homem, um intelectual, as esferas da vida cotidiana - cozinhar, costurar, cuidar da cozinha, do dinheiro...,  são um fardo pesado e a areia em geral é associada a falta de sentido, esterilidade, coisas mundanas. Desse modo, para ele, até agora, a Terra não faz sentido e é estéril, uma chateação -  digamos - que ele arrasta mas gostaria de evitar.  Este foi provavelmente o problema do pai dele e agora é o dele mesmo. É como se o sonho dissesse: "O problema do seu pai agora está com você. Você tem o mesmo problema."

- Seu pai descarrega areia de um caminhão. Isso indica que mais areia está por vir. Os montes de coisas terrenas com as quais terá que lidar acumular-se-ão. A razão disso é que a Lua agora domina a cena. Agora o que importa é o feminino, o mundo cambiável do corpo.
- Agora ele tem que cuidar da própria vida física. 

"A cena mudou de novo, e desta vez eu estava numa espécie de foguete ou nave espacial muito alto no céu. Estratosfera é o que me vem à mente.
- Encontrava-me deitado na nave e sentia-me aprisionado, porque meus dois polegares estavam presos em argolas. Eu estava sozinho na espaçonave, mas tinha a sensação de que meu pai também estava lá, apesar de não haver comunicação explícita entre nós. Durante o vôo, outras naves e foguetes similares chegavam perto, assustadoramente perto de nós, mas nunca nos atingiam. Aparentemente, não havia perigo de colisão. Daí fiquei com muito medo, mas não era capaz de identificar o problema. Havia uma sensação física que me afetava. Pensei que talvez fosse fome ou sede, mas não parecia ser isso - no fim decidi que era a extrema rarificação do ar. Era difícil respirar. Eu sabia que devia abandonar a nave espacial e voltar à Terra."

 - A situação no sonho tem a ver com o fato de que o sonhador é um professor universitário, dono de uma mente ampla e brilhante.
- Trata-se de alguém que não liga para pequenas coisas e vai direto à essência do problema em seu campo de literatura moderna.

- Mas ele está terrivelmente confinado na nave espacial; seus polegares, em particular, estão amarrados. 
- Ele mal pode se mover e de repente se sente tremendamente desconfortável. O polegar, se você pensar naquele personagem dos contos de fada, o Pequeno Polegar, é o anão dos dedos e tem a ver com criatividade, com fantasia criativa. 
- Até o presente o sonhador certamente confinou sua própria criatividade.
- Talvez ele devesse tornar-se um escritor em vez de estudar a produção alheia, ou de alguma outra forma realizar algo mais criativo em termos artísticos.

- O Pequeno Polegar é também o 'trickster', um espírito que goza sua liberdade e aplica seus truques no mundo burguês dominante.
- Esse lado travesso e criativo da sua personalidade foi de todo confinado, provavelmente devido à sua situação profissional, e deveria agora ser libertado.
- Assim, ele repentinamente se dá conta de que está confinado em seu mundo intelectual, que o ar elevado dos círculos universitários é muito rarefeito para ser respirado e que sua criatividade está prejudicada.
- A imagem positiva que recebe do sonho está em sua última frase.
 

- A última frase é sempre a solução, se houver alguma.
- Ele percebe que deve descer para o chão, deve deixar a nave espacial e voltar para a Terra. Como é que o sonho se refere tanto à psique única e individual do sonhador, como ao problema coletivo muito mais amplo do princípio feminino na época atual?

 - De início o sonho responde a perguntas que ele deve ter feito conscientemente, questões profundas: "Qual é a atual situação? Em que tipo de época estamos vivendo?
- " Interessado que é em literatura, com certeza ele se preocupa com esses problemas porque a literatura moderna como um todo só repete essas questões.
Uma vez que os poetas sempre foram profetas, há um anseio secreto de procurar na literatura os sinais do tempo. O sonho lida com isso, responde a isso e só na última parte volta à sua situação de vida. O sonho faz uma incursão na situação atual e diz que o feminino - O corpo, o mundo material, terreno, mutável - vem se tornando importante, devendo ser cuidado com amor.
- A partir daí o sonho focaliza seu lado pessoal: "Quanto a você, isso significa que deve sair da nave espacial e voltar para a Terra."

- Há um paralelo entre esse sonho e o de Gilgamesh, que vimos antes.
- Poderíamos dizer que esse sonhador moderno enfrenta uma situação vital análoga à de Gilgamesh?
 - Assim como Gilgamesh, este sonhador moderno também se encontra numa situação em que a primeira metade da vida já foi vivida e agora ele procura orientação no céu.
-  A primeira coisa que vê é a conjunção de Júpiter e Saturno. Isso lhe diz que ele pertence à era dos opostos extremos e que Saturno, o homem animal, e Júpiter, o homem espiritual, estão em oposição, como de fato estão no Cristianismo.
-
Em seguida, no segundo sonho, ele vê a Lua, o princípio feminino, e depois repentinamente se dá conta de que está numa nave espacial e deve descer para a Terra. Podemos dizer que essa tomada de consciência no final do sonho - de que deve descer para a Terra - é exatamente o que Gilgamesh teve de perceber depois que a estrela caiu sobre ele.
- Quer dizer, ele precisou tomar consciência do homem terreno e tornar-se amigo daquele que, na épica, primeiro o atacou. Eles travaram uma batalha antes de se tornarem amigos e participarem juntos em sua jornada heróica.
- Podemos, portanto, esperar que este sonhador tenha agora que encontrar o homem terreno a que faz alusão a figura do pai carregando um saco de areia. Esse saco é a carga de tarefas terrenas e de existência corpórea que o sonhador deve integrar em sua vida para poder prosseguir e cumprir seu destino.
- Seu destino tem a ver com a integração do princípio feminino, a Lua. Isso já difere do que ocorre na épica. Naquela época, o mundo matriarcal da inconsciência devia ser vencido pelo herói. Hoje em dia, cerca de quatro mil anos depois, a situação se inverte.
-  O princípio feminino deve ser não vencido, mas integrado. Mas em ambas as situações, o aparecimento da estrela tem a ver com a tentativa de perceber o significado único da importância do indivíduo no cosmos. Não passamos de um grão de pó em algum canto do universo. Se encararmos nossa vida através de padrões científicos e coletivos, ela é totalmente transitória e nada significa. Mas se olharmos para dentro, assim como olhamos para as estrelas, poderemos perceber que, no interior da diversidade cósmica, temos uma missão única a realizar, que é o que chamamos de sentido da nossa vida.
- A Noiva Interior:
"A anima é a força motriz, a instigadora de mudanças, cujo fascínio impele, atrai e encoraja os homens a todas as aventuras da alma e do espírito, da ação e da criação no mundo interior ou exterior." (Erich Neumann)

- A Grande Mãe A anima, em sua forma desenvolvida, atua como mediadora entre o ego dos homens e o Self.  Ela estabelece uma conexão com a fonte do seu ser.
- Os sonhos a seguir mostram esse componente feminino da psique masculina transformando-se no vínculo que conecta o sonhador à fonte de vida.

- "No começo do sonho, uma peça era ensaiada numa igreja nos tempos atuais e duas atrizes pregavam o personagem de Cristo na cruz.
- A cruz jazia no átrio da igreja e eu podia ouvir o terrível som do martelo sobre os cravos.
- Mas, não sei como, elas estavam apenas prendendo a pessoa na cruz, e não pregando. Quando terminaram, ergueram a cruz e o crucificado ficava bem elevado. Era muito perigoso para aquela pessoa.
- Daí começou a verdadeira representação na igreja: O ator que representa Cristo entra solenemente pela nave e, para minha surpresa, é uma mulher. Como se não bastasse, é minha mulher, embora não minha esposa na realidade. Ela veste uma simples túnica cinza presa no ombro por um broche e está grávida.
- A cena da crucificação é repassada como no ensaio e ela é erguida bem alto. É muito tocante, é magnífico. Daí a cena muda de novo.
- A peça acabou e estamos indo para casa. Olho para minha mulher, que caminha à minha esquerda. Seu cabelo é curto e ela é magra como um menino, apesar da gravidez.
- Ocorreu-me depois que ela lembrava a atriz Jean Seberg no filme Joana d'Arc.
- Olhando para ela, fico cheio de orgulho e de amor. Mas... não  lhe digo nada disso. Guardo só para mim. Aí o sonho acaba."

- Primeiro devemos observar o fato de que o personagem central do sonho é a esposa grávida do sonhador, mas não a esposa de fato.
- Trata-se de uma figura que ele associa a Joana d'Arc. Se alguém sonha com um marido ou mulher que não se assemelham aos parceiros reais, trata-se então da esposa interior, ou do marido interior. Isto é, a principal figura de anima ou animus com a qual a pessoa está, por assim dizer, sempre casada interiormente: é o casamento interior.
- No começo do sonho, há uma espécie de teatro religioso no qual é encenada a crucificação de Cristo. Um pouco perigoso, porque a cruz está muito elevada, mas no fundo é apenas uma encenação. Isso espelha com exatidão a situação religiosa do nosso tempo. O Cristianismo, sob certo aspecto, tornou-se uma reminiscência histórica. É como se estivéssemos ensaiando um pouco do nosso passado histórico, transformando esse  passado numa imitação exterior.

- O problema é que as igrejas nos ensinaram a imitar Cristo do jeito errado, ou seja, a imitar suas ações exteriores.
- Eu chamaria isso de macaquear Cristo, e essa macaqueação de Cristo não entrou fundo em nós.

- Não nos cristianizamos. Se observar a história do mundo ocidental, com suas guerras e lutas sanguinárias, você verá que a cristianização não nos atingiu.
- Somos cristãos da boca para fora e exteriormente, mas quando se trata de fatos psicológicos, somos pagãos bárbaros completos.
 

- Fazemos piedosas reminiscências históricas. Lemos o Evangelho. Repetimos seus versículos na igreja, mas a maioria das pessoas não se toca.
- Este sonho diz ao sonhador que agora algo fora do comum vai acontecer.

Ou seja, essa misteriosa esposa grávida será crucificada no lugar de Cristo e ele treme diante do solene ato. Esse é o momento crucial em que o ensinamento cristão, ou o mistério do que Cristo representa, atinge sua própria alma. 
- A esposa interior que é crucificada é a alma do sonhador. Trata-se de sua anima.
 

- A anima é o sentimento de um homem, sua sensibilidade, sua consciência de coisas interiores.
- Se tiver uma relação positiva com a anima, o homem é receptivo aos processos espirituais que ocorrem nas profundezas da psique.
- Esse é seu lado feminino. E a crucificação, que simbolicamente significa estar esticado entre os opostos, sofrendo a extrema colisão entre eles, é causada por sua anima.
 

- Os dois opostos unem-se através da colisão. É por isso que na cruz Cristo disse: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" Ele ficou completamente dilacerado, aniquilado entre os opostos.
- Esse ensinamento central do mistério cristão será agora compreendido pela alma do sonhador.

- Isso significa que ele sofrerá; suportará a experiência e então passará a sentir que o ensinamento cristão é uma realidade psicológica.
- Não se trata de um gesto exterior que temos de imitar, ou de algum tipo de comportamento convencional ensinado por padres e pastores.

- É algo que nos toca e diz respeito ao nosso ser psíquico mais profundo.
- "O que acha desse sonho?"

 "Que devo prestar mais atenção e dar muito mais valor a esse lado feminino e sensível da minha personalidade.
- Não é fácil para um homem desenvolver esse lado porque não dá para dizer: 'Ah, esse é meu feminino interior. Encontrei. Saquei. Ótimo. Está na mão. Agora não preciso mais me preocupar.' 
- Isso é apenas o princípio. Aí ele se sente mal. Portanto, é uma luta consciente muito difícil. É um pêndulo que vai de um lado para outro e dói porque a cada vez implica desistir de algo que é ele mesmo."  (...) Certos místicos cristãos diziam que deveríamos ser crucificados, que a verdadeira imitação de Cristo é nos tornarmos Cristo nós mesmos, interiormente ou psicologicamente, e é isso que o sonho prediz estar acontecendo ao sonhador.  
- Depois dessa experiência, ele será um cristão, saberá o que significa ser crucificado entre os opostos, carregar sua própria cruz e carregar seu próprio destino até o fim.
Cristo, de certo modo, é o modelo de um homem que viveu seu próprio destino, carregou sua cruz e cumpriu sua missão sem desviar ou ceder a qualquer pressão coletiva. 

É por isso que o cultuamos como homem que se torna Deus, como Deus que nele se torna homem. Ele realiza isso. E agora o sonhador também o realiza. O ensinamento cristão agora penetra em sua alma.
- Ele associa a mulher crucificada a Joana d'Arc, associação esta bastante apropriada porque Joana d'Are era uma figura crucificada desse tipo.

- Ela não macaqueava Cristo; ela o imitou vivendo seu próprio destino individual, até a cruz e até a morte exterior.
*Canção: Ó Senhora da Cruz quem te pôs lá fui eu. 
Devia eu também estar lá; Ladrão a te escarnecer;
Escória que sou, e esplendor.
Senhora da Conceição da Cruz;
Será que o menino-homem; 
Que cresce dentro de ti; 
Vibrando cada tendão;
Não saberá libertar-te;
Da altura em que te pregaram?
Nesse auto sou Pilatos;
Que ergue o pano de boca;
Sou eu todo s e o mesmo que escreve, dirige e olha. 
Quando caio em agonia;
É que penso em te soltar;
Dá-me força para estar em teu lugar;
Pregado na árvore em dor;
Ó Senhora da Cruz;
Senhora da Conceição da Cruz.
 
Dra. Von Franz, em contraste com as outras imagens de anima que vimos em sonhos masculinos, a mulher no sonho a seguir não instiga a menor ação dramática. Pelo contrário, sua beleza cria um sublime estado de espírito.

O sonhador disse que esse é o mais belo sonho de que se recorda.

 "Sonhei caminhar ao longo de um rio caudaloso; a correnteza era ligeira e a luz refletia na água. No alto de uma colina via-se um castelo rodeado por um fosso. Atravessei a ponte levadiça e entrei no pátio central. Bem no meio, uma mulher estava sentada na mureta de um poço. Ela puxou um balde lá do fundo e o entregou a mim. Bebi a água do balde. A mesma coisa repetiu-se uma segunda e uma terceira vez. Bebi de novo e sentei-me na mureta em frente a ela. Seu traje era azul-celeste e sua beleza extrema. Estar ali a seu lado me dava uma enorme sensação de paz." 
- Vimos antes que o mundo dos sonhos e a psique inconsciente só nos mostram sua face positiva se nos deixamos ir com a vida, se não nos recusamos a viver. 

- Vejamos primeiro o rio, ao longo do qual caminha o sonhador: Costuma-se falar do rio no sentido do fluir da vida, o fluir do tempo.
- O tempo é um rio que desemboca no oceano da eternidade. 
- O rio é um símile famoso para os sempre mutáveis fatos da vida, que na verdade são as mudanças constantes da substância psíquica que nos carrega.
- Pense por um minuto neste fato estranho: nossa consciência de ego fica apagada por horas durante a noite e reaparece idêntica na manhã seguinte.
- Por que não despertamos e descobrimos que somos outro? Somos totalmente contínuos.
- Deve haver portanto, algo que carrega nossa identidade pela vida afora.
- Ainda que o nosso corpo troque todas as células a cada sete anos, não restando praticamente nenhuma célula velha, mesmo assim continuamos a ser nós mesmos.
- Algo em nós, como uma substância psíquica essencial, carrega nossa identidade no decorrer da vida.
- É isso o rio, esse misterioso fluxo da vida.
- E aí, ao lado do rio, o sonhador encontra a mulher sentada na beira do poço.
- Vem à mente a conversa de Cristo com a samaritana, um dos poucos encontros significativos em que Cristo entra em contato com o feminino. 

- Em sua forma desenvolvida, a anima é no homem a capacidade de amar, em contraste com o desejo de poder.
- É amar por amar, da forma mais elevada. É por isso que essa mulher aparece num castelo medieval rodeado por um gramado. Ela está no que os franceses chamavam cours d'amour, onde pela primeira vez na civilização cristã ocidental ocorreu a conscientização da anima.


- Cada cavaleiro elegia uma mulher de sua escolha, que não era sua esposa e representava sua  amada imagem da anima.
- Para ela fazia poemas, por ela realizava atos heróicos. Ele a cultuava como a uma deusa.

- Assim esses homens superaram seu bárbaro comportamento guerreiro e se tornaram gente cultivada.
- Eram homens capazes de se relacionar com uma mulher, homens que cultivavam sua capacidade de amar, sua sensibilidade. 

- Esse era o tempo das lendas do Graal, dos trovadores, da história de Tristão e Isolda.
- A Igreja não gostava dessa novidade, pois levava a vários tipos de complicação e tornava as pessoas um pouco independentes demais, e assim a suprimiu.
 

- É de se notar que, quando as cours d'amour foram extintas e os cavaleiros viram-se forçados a cultuar a Virgem Maria em lugar de suas idealizadas senhoras, começou a caça às bruxas.
 - O feminino tornou-se negativo e mulheres atraentes e interessantes foram perseguidas como bruxas em razão de ter sido suprimido o despontar do desenvolvimento do amor. 
- Agora que nos defrontamos com a questão de renovar a relação entre os sexos e encontrar novas formas de relacionamento entre homem e mulher, temos que voltar à Idade Média, ao ponto em que o problema foi deixado, nesse castelo com seu gramado.
- Aí o problema foi abandonado, dando lugar ao desenvolvimento unilateral masculino e racional do Ocidente.

- Nós, portanto, precisamos retornar. No nosso tempo, o  desenvolvimento da anima é de fundamental importância para os homens, assim como o do animus para as mulheres.
- Qual é, no sonho, o significado simbólico dos baldes de água oferecidos pela anima?

- Esse sonho fala através de sua beleza e seu valor sentimental, não exigindo muita explicação racional.
- A única ação é que a anima por três vezes dá de beber ao sonhador a água da vida.- A anima tem a água da vida, e esta é difícil de definir. 
- Direi o seguinte: quando as pessoas se sentem bem, elas dizem que se sentem vivas.
- Mesmo que em suas vidas haja sofrimento e dificuldades, há momentos e m que as pessoas se sentem vivas.
- Já quando estão numa fixação neurótica ou com alguma perturbação elas dizem: "Estou morto por dentro, estou sem vida."

- Isso mostra que estar vivo não é apenas um fato físico, mas psíquico.
- Estamos vivos quando nos sentimos vivos e o que nos faz sentir assim é o contato com esse fluir da psique inconsciente.
- É por isso que os sonhos são tão importantes. Você pode dizer que cada balde cheio de água da vida é um sonho. É isso o que um sonho é. Toda noite, por assim dizer, tomamos um gole de água da vida e se compreendermos o sonho, seremos vivificados.  
- Sentimo-nos em contato com a nossa profundidade psíquica e a nossa própria substância viva - e então, subjetivamente, sentimos que a vida flui e que estamos vivos.
 (Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

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