terça-feira, 22 de julho de 2014

Ψ Rubem Alves

 (...) Já tive medo de morrer. Não tenho mais. Tenho tristeza. A vida é muito boa. Mas a Morte é minha companheira. Sempre conversamos e aprendo com ela. Quem não se torna sábio ouvindo o que a Morte tem a dizer está condenado a ser tolo a vida inteira. (Rubem Alves - 1933/ 2014)

*Quem sou eu?
*Minha filosofia pode ser resumida em duas frases latinas: "Tempus Fugit": o tempo foge, passa, tudo é espuma... 


*E "Carpe Diem": colha cada dia como um fruto saboroso que cresce na parede do abismo. Colha hoje porque amanhã estará podre. Sonho em ter tempo para aprender a vagabundear.

*O que tenho sentido?
Beleza. Nostalgia. Tristeza. Cansaço. Urgência. A curteza do tempo. Esperança? Sonhei ser um pianista. Mas os deuses tinham outros planos para mim. Gosto de brincar com palavras. Por isso sou escritor. Escritores e poetas são meus companheiros.

*Dentro de mim mora um palhaço e um poeta: riso e beleza... Se eu não fosse escritor acho que seria um jardineiro.


*No paraíso Deus não construiu altares e catedrais. Plantou um jardim.

*Deus é um jardineiro. Por isso plantar jardins é a mais alta forma de espiritualidade. Acredito, como poeta e palhaço, que o fruto paradisíaco era o caqui...

*Golpes duros na vida me fizeram descobrir a literatura e a poesia. Dão pão para corpo e alegria para a alma.

*Ciência dá saberes à cabeça e poderes para o corpo. Ciência é fogo e panela: coisas indispensáveis na cozinha. 

*Mas poesia é o frango com quiabo, deleite para quem gosta...

*Sou Psicanalista, embora heterodoxo. Minha heterodoxia está no fato de que acredito que no mais profundo do inconsciente mora a beleza. Com o que concordam Sócrates, Nietzsche e Fernando Pessoa. Exerço a arte com prazer. Minhas conversas com meus pacientes são a maior fonte de inspiração que tenho para minhas crônicas.

 ** Leituras de prazer especial: Nietzsche, T. S. Eliot, Kierkegaard, Camus, Lutero, Agostinho, Angelus Silésius, Guimarães Rosa, Saramago, Tao Te Ching, o livro de Eclesiastes, Bachelard, Octávio Paz, Borges, Barthes, Michael Ende, Fernando Pessoa, Adélia Prado, Manoel de Barros.
**Pintura: Bosch, Brueghel, Grünnenwald, Monet, Dali, Larsson.
** Música: Canto Gregoriano, Bach, Beethoven, Brahms, Chopin, César Franck, Keith Jarret, Milton, Chico Buarque, Tom Jobim.
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Fonte Site oficial do escritor 

Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Ψ A Secreta Vida das Imagens: Corpo, Imagem, Desejo, Fetiche.

*Freud refere sobre Pulsão: [...] De uma maneira geral, são os mesmos órgãos e os mesmos sistemas de órgãos que estão à disposição das pulsões sexuais e das pulsões do eu. O prazer sexual não está ligado simplesmente à função dos órgãos genitais; 

A boca serve tanto para o beijo quanto para comer e para comunicar a fala; Os olhos não percebem somente as modificações do mundo externo importantes para conservação da vida, mas também aquelas propriedades dos objetos que os alçam à categoria de objetos de escolha amorosa, isto é, seus atrativos. (Freud, 1915).

 “Eu sei o que você deseja e eu tenho o que você deseja promete
o sedutor com seu jogo de esconder e desvelar. O desejo, por desconhecer seu objeto, é facilmente mobilizado pelo artifício que vela, no corpo, o que de fato não está lá. Nem lá, nem em lugar nenhum." (Maria Rita Kehl)

 *"O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão mais inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão". (Clarice Lispector)

*"Todo amor se baseia numa certa relação entre dois saberes inconscientes." (Lacan)

*Alegoria da Loucura: "Os dois se tornaram uma só carne" (Coríntios, 6:15-16).

*"Para existir, um par precisa inventar e compartilhar uma longa aventura". (Calligaris)


*Seres  humanos se torturam em nome do desejo.

*Escraviza-se o corpo nas academias na tentativa de transformar-se em monumento vivo do prazer; o objeto incontestável e unânime do desejo.

*Ao acreditar no poder da imagem, pensamos ter finalmente enquadrado o desejo (inconsciente) sob o domínio do ego: desejar e fazer-se desejar.

*É uma armadilha o que parece uma afirmação triunfante do direito a desejar na verdade é um recuo ante o desejo.

*É claro que toda sedução, a serviço do desejo sexual, comporta um artifício.

*Os adornos corporais, os olhares e frases insinuantes, a sensualidade sugerida em gestos e posturas, são recursos mobilizados pela sedução.

*O intuito é produzir no outro a esperança de que ele, o sedutor detém o objeto do desejo que o seduzido desconhece, já que o desejo é, por definição, inconsciente.

*Com qual objeto o ser humano se relaciona?

*A noção de objeto a talvez tenha sido a contribuição mais relevante de Jacques Lacan para a teoria psicanalítica.

*Segundo Lacan, "não há relação sexual!"


*Os animais tem relação sexual. A sexualidade de um leão, de uma tartaruga, não conta com tamanha plasticidade. Leão só sente tesão por leoa, touro por vaca, peixe por peixe...

(... ) O ser humano tem relações. Ele não possui um  objeto fixo com o qual saciar seu desejo sexual. 

*Apenas o homem sente encanto por sapatos, cores de cabelo, brilhos nos olhos (...) A variação dos objetos que provocam a imaginação humana é quase infinita.

*É por isso que Lacan dirá no Seminário 11:  “Amo em ti, mais do que tu”.

*Sim, porque cada um está interessado não no outro em si, mas naquilo que no outro lhe provoca seu desejo! Essa foi a grande descoberta de Freud.

*Freud aprendeu com as crianças e com os perversos que a pulsão sexual não tem objeto. 

*É isso o que os psicanalistas querem dizer quando afirmam que o ser humano é marcado por uma falta.*Que falta é essa? É a falta de um objeto que esteja de acordo com o nosso desejo.

*Pelo fato de, no caso da espécie humana, esse objeto não existir, toda vez que nossa pulsão, essa fome de viver fundamental, se depara em algum objeto nós temos a ilusão de que ele nos satisfará plenamente.

*É cilada, logo vem a decepção e nós vamos buscar outra coisa.

*É como se nosso desejo nunca pudesse ser satisfeito, mas apenas aguçado, ele nunca será saciado plenamente.

*Mas se a pulsão não possui um objeto adequado o que provoca o desejo no ser humano?
No animal é a imagem do parceiro, ou seja, do objeto.

*Lacan refere: No ser humano é justamente essa falta de objeto que provoca o desejo. 

*Na medida em que não temos um objeto adequado, os objetos que nos são oferecidos para ocupar esse lugar não vêm de uma estruturação pré-ordenada da natureza, mas sim da cultura.

*A cultura nos diz o que devemos desejar. O Outro, vai "sugerir" o que devemos desejar (pai e a mãe, ou um programa de televisão). A mídia sabe muito bem como atingir esse hiato, a falta, estimulando a aquisição compulsiva de objetos.

*No entanto, esse Outro nunca consegue realizar essa tarefa completamente porque nenhum objeto que ele nos oferece para desejar vai ser capaz de saciar completamente nosso desejo. 

*E não há um objeto único que nos satisfaça plenamente, de modo que sempre haverá um resquício de desejo insatisfeito que nos moverá na busca por outro objeto.

*Frequentemente mascaramos com imagens quando não conseguimos descarregar esse restinho de desejo. E esse resquício é um dos aspectos que Lacan chama de objeto a, o objeto que causa o desejo.


*Sendo assim, só conseguiremos sentir desejo sexual em condições específicas, o que é mais explícito na experiência do perverso.

*O que é um neurótico? Para Freud e Lacan é o que a maioria de nós somos, isto é, seres que vivem imersos na fantasia de que é possível um gozo completo, uma felicidade plena.


*Por isso, no fundo, é esse pedaço perdido de satisfação que buscamos nas relações ou no consultório da analista, na esperança de que esse objeto volte a nos saciar completamente.

*Na década de 50 analistas falavam da teoria de Freud sobre a sexualidade da seguinte forma: no início da vida o bebê se relaciona com pedaços de um objeto, nunca com um objeto inteiro.

*De fato, para Freud os objetos com os quais a criança lida são objetos parciais (seio, fezes, pênis, clitóris). 

*No entanto, e é nesse ponto que  esses especialistas se afastavam de Freud, pois admitiam que a criança vai amadurecendo ao longo do tempo, e que após o período de latência ela não mais se relaciona com objetos parciais, mas com um objeto inteiro e harmônico, capaz de satisfazer plenamente ao seu desejo.

*O neurótico seria aquele ser insatisfeito que ainda permanece agarrado aos objetos parciais, imaturo para lidar com um objeto total. 

*Nesta perspectiva, o objetivo da análise seria levar o sujeito ao amadurecimento.

*Para Freud, nós os neuróticos, não somos imaturos. E a ideia de “amadurecimento” não faz qualquer sentido para o pai da Psicanálise.


*Através da Análise o sujeito a se dá conta justamente de que o objeto pleno não existe, de que essa falta de objeto é estrutural na existência humana e de que é justamente ela que permite o exercício da criatividade e da plasticidade do desejo.

*"Não há sintoma senão na medida em que o sujeito se defende de seu desejo." (Melman).

*Lacan ao criar o conceito de objeto a, tem em vista justamente dar ênfase a essa falta de um objeto natural, adequado e harmônico para o ser humano.


*Para Lacan e como também para Freud nós nunca deixamos de nos relacionar com objetos parciais, com pedaços de pessoas.

*Em nossa fantasia fundamental, a qual regula de fato a nossa relação com o mundo, continuamos a ser ávidos bebês que desejam o seio da mãe porque o consideram uma parte perdida de si mesmos. 

*E é justamente essa parte perdida de nós mesmos, irremediavelmente perdida, que nós buscamos ao longo da vida.

*É essa parte perdida, para Lacan, o objeto com o qual nos relacionamos: um objeto que, por sua ausência, se faz presente, o objeto a.

Ψ  Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O quintal da casa: o arquétipo das travessuras inocentes...

O Lápis
É por demais de grande a natureza de Deus.
Eu queria fazer para mim uma naturezinha particular.
Tão pequena que coubesse na ponta do meu lápis.
Fosse ela, quem me dera, só do tamanho do meu quintal.
No quintal ia nascer um pé de tamarino apenas para uso dos passarinhos.
E que as manhãs elaborassem outras aves para compor o azul do céu.
E se não fosse pedir demais eu queria que no fundo corresse um rio.
Na verdade na verdade, a coisa mais importante que eu desejava era o rio.
No rio eu e a nossa turma, a gente iria todo dia jogar cangapé nas águas correntes.
Essa, eu penso, é que seria a minha naturezinha particular:
Até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar. (Guimarães Rosa)
- A sensibilidade do poeta integra a ponta do lápis como parceira de seu percurso e seu trabalho exaustivo em criar, em labutar e esfregar as palavras até chegar ao bom verso que, então se torna imortal; mas, com o auxílio da ponta do lápis.   
- Como seria a “naturezinha particular” do poeta? O poeta julgou a infância o lugar privilegiado para se ‘brincar de Deus', para inverter a ordem das coisas e tornar o mundo independente da lógica que a racionalidade lhe imprimiu. Lá não há espaços ociosos ... Lá no arquétipo do quintal tudo pode mudar e se transformar em sua natureza e nas relações; tudo depende da criatividade e da fantasia imaginante. 
Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

sábado, 21 de junho de 2014

"O Anjo Mudo"

"Quando o vento se levanta e passa, tua cabeça adormecida põe-se a brilhar. 

Em redor dela um halo de sombra onde a minha mão entra, vagarosamente, pedindo-te um Sinal.

 Procuro o rosto com os dedos afiados pelo desejo. 


(...)  Ouvimos o mar, como se tivéssemos encostado a cabeça ao peito um do outro.

Mas não há repouso nesta paixão.

 (...)  Nada podemos fazer.


 (...)  A noite cerca-nos, devora-nos.


Estamos definitivamente sozinhos. 

Começamos, então, a imitar a vida um do outro.

E, abraçados, amamo-nos como se fosse a ultima vez... 

O tempo sempre esteve aqui, e eu passei por ele quase sempre sozinho. 


No entanto, recordo: deixaste-me sobre a pele um rasgão que já não dói. 

Mas quando a memória da noite consegue trazer-te intacto, fecho os olhos, o corpo e a alma latejam de dor.

Antes, o olhar seduzia e matava outro olhar. Agora, odeio-te por não me pertenceres mais.

(...) Se fugias, perseguia-te.

E  o pior é que o tato também esqueceu, rapidamente, a sensualidade da pele...


Não devo perder tempo com o ciúme.


A paixão desgastou-me.


E nunca houve mais nada na minha vida - paixão ou ódio..." (Al Berto)                                                                                             
Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

O Diário do Poeta

*Nada funciona comigo e parece que a alma e o corpo estão em suspenso... 

*Sinto falta de tudo, de afetos, de ternura... de amor, de paixão, de gestos que me indiquem que estou aqui, que estou vivo e, apesar de tudo, vale a pena ir celebrando a vida. Dentro do possível. Dentro do que me parece justo.

* Só espero que meia dúzia de doidos me leiam agora e isso os toque.

* A eternidade é uma permanência da força que está dentro de nós.

 *... um dia, um desconhecido virá ao meu encontro na rua e dirá: conheço-te, sou  a tua imagem perdida uma noite dentro do espelho.


*... ergue-se para o espelho que lhe devolve um sorriso do tamanho do medo.

*(...) amanheço dolorosamente,  hoje vou correr à velocidade da minha solidão e  do medo: vou destruir todas as imagens onde me reconheço e passar o resto da vida assobiando ao medo.

*... sozinho atravessei noites e noites de medo.

*... é no silêncio que que melhor ludibrio a morte.

*...  já não me prendo a mais nada, ouço o rumor do vento: vai alma vai até onde quiseres ir.

*... dizem que a paixão o conheceu mas hoje vive escondido nuns óculos escuros.

*... passo o dia a observar os objetos e sinto o tempo a devorá-los impiedosamente.

*(...)  o que sobrou do adolescente rosto conhece a solidão de quem permanece acordado quase sempre estendido ao lado do sono pressente o suave esvoaçar da idade. 

*... dizem que à beira mar envelheceu vagarosamente sem que nenhuma ternura nenhuma alegria , nenhum ofício, o tenha convencido que é bom permanecer entre os vivos.
 * ... Desde que te conheço invade-me uma grande calma quando penso em ti.

*Sinto-me bem, disposto para as mais difíceis tarefas, para os mais complicados e demorados trabalhos.

*As noites cansaram-me, ia acabando comigo de vez na desordem e na ânsia de viver.

*... claro que continuo a sair à noite e a amar esse espaço fantástico que é a cidade, esta cidade que amo, mas tu estás nela também.

*A cidade mudou desde o instante em que nela entraste.

*Já não percorro a noite numa angústia que se esquece e anula na bebedeira, ao nascer do dia.

*Deixei de beber,  tenho levado uma vida bastante regrada.

*Deixei de andar por aí a ver se alguém me pega ou se eu pego em alguém. Acabou.

*Tenho-te e sinto uma felicidade estranha a dominar-me.

*(...) e trabalho calmamente, com vagar, e avanço sem ser aos tropeções.

*Leio e releio o que escrevo. tudo se torna, de texto em texto, mais preciso, mais próximo do que penso

*Escrevo somente (como de resto sempre fiz) o que me dá gozo e ao mesmo tempo me perturba.

*Por isso odeio tanto reler-me. Sinto-me perturbado. O que ficou escrito foge-me, parece já não me pertencer, no entanto, sei que estou ali, por trás de cada texto escrito.

*Sinto que são ainda parte integrante de mim - raramente me consigo desligar (friamente) do que escrevi, mesmo que o tempo tenha tentado apagar as motivações que me levaram, na altura, a escrever o que ficou escrito.

 *... Sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio, e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.


* Sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.  A dor de todas as ruas vazias.
 
“Ele adentra em nossa paisagem, testemunha incorruptível da comédia humana, fotógrafo atento de nossos gestos trêmulos, de nossa hesitação em viver com toda lucidez”. (Pascal Thuot)
 (Al Berto Raposo P. Tavares - 1948/ 1997 - Escritor Português)
 Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica