quinta-feira, 20 de julho de 2017

Ψ Freud, Drogas Psicoativas e o Chocolate...

A história de como uma substância estimulante e ainda não proibida ajudou a fundar as bases da psicanálise.

"Se tem uma pessoa que podemos responsabilizar pela popularização da cocaína como fármaco recreativo é Freud"(Dominic Streatfeild)

*O fundador da Psicanálise, Sigmund Freud, uma vez disse que apenas três revoluções científicas tinham conseguido derrubar a humanidade de seu poleiro como suposto centro do universo.

1. Copérnico, que mostrou que a Terra era só um pequeno corpo orbitando o Sol no meio de uma vastidão inconcebível.

2. Darwin, que demonstrou que o homem não era a criação privilegiada de Deus, mas um descendente dos macacos, "implicando que não havia uma natureza inerradicável nele".

3. Finalmente, refere Freud, "O desejo de grandiosidade do homem agora sofre seu terceiro e mais amargo golpe com a pesquisa psicológica da atualidade, tentando provar ao 'ego' de cada um de nós que ele não é o mestre em sua própria casa, mas que deve se contentar com restos de informação sobre o que está acontecendo inconscientemente na sua própria cabeça".

(...)  a psicanálise deve muito de seu surgimento às extensas experimentações de Freud com o pó, que na época estava disponível em todo lugar e custava o mesmo que qualquer xarope na farmácia. A cocaína influenciou a psicanálise (da descoberta da "estrada real do inconsciente" nos sonhos à terapia baseada nisso).

*Mastigar folhas de coca, por exemplo, é algo bem usual há milênios pra quem vive ou visita os Andes.

*A cocaína, só foi sintetizada em 1855 por Freidrich Gaedcke, que nomeou a substância como "eritroxilina".

*Somente cerca de 1880, o produto adquiriu o nome de "cocaína", além de um refinamento de seu processo de purificação, e passou a ser apontado como a cura pra tudo pelas empresas farmacêuticas que a produziam.

*Freud descobriu a nova droga por meio de um jornal chamado Therapeutic Gazette, de propriedade de Parke-Davis, uma subsidiária da Pfizer, que o patrocinou inicialmente com US$ 24 [cerca de R$ 72] para endossar seus produtos.

*A Merck também mandou amostras para o ambicioso assistente de pesquisa de neuropatologia da Universidade de Viena. Nem é preciso dizer que ele se tornou um entusiasta do produto.

*Nessa fase, Freud ainda farejava o grande avanço que faria seu nome, tendo conseguido alguns pequenos sucessos com um método para colorir tecido nervoso e um trabalho teorizando a possível localização dos testículos das enguias.

*Seus experimentos com a droga seria seu bilhete para a fama e fortuna, ele achou, fornecendo um toque de glamour e celebridade para o velho mundo da medicina acadêmica. Recebeu seu primeiro lote em abril de 1884, e começou a experimentar em si mesmo imediatamente. Tudo em nome da ciência.

*Tanto os efeitos físicos como mentais foram instantaneamente atraentes, e em correspondências Freud descreveu como ele tinha começado a usar o pó "contra depressão e indigestão, e com o maior sucesso" (e sem dúvida notando que os efeitos eram mais interessantes que o do sal de frutas).

*Ele publicou um trabalho, "Über Coca", no qual descrevia "a mais linda excitação" na primeira vez que ingeriu o medicamento, uma "exaltação e euforia duradouras", além de notar a supressão da fadiga e da fome.

*No entanto, Freud foi menos óbvio em se tratando das propriedades viciantes e efeitos colaterais da cocaína, escrevendo: "Me parece digno de nota - e descobri isso em mim mesmo e em outros observadores capazes de julgar coisas assim - que uma primeira dose ou mesmo doses repetidas de coca não produzem desejo compulsivo de usar mais do estimulante; pelo contrário, a pessoa sente uma certa aversão desestimulada com a substância".

*Talvez o bom médico imaginasse que não era dependente simplesmente porque nunca chegou ao fim do estoque que ganhou de brinde.

*Como o amigo porquinho da índia, Bez, Freud devia estar sempre uma carreira à frente da síndrome de abstinência. "Se uma pessoa trabalha intensivamente sob influência da coca, depois de três ou cinco horas há um declínio da sensação de bem-estar, e mais uma dose de coca é necessária para se livrar da fadiga..."

*Freud logo estava mandando amostras do remédio para amigos da profissão, citando suas aplicações em potencial como estimulante mental, um tratamento para asma e transtornos alimentares, e afrodisíaco... e, de maneira alarmante, como uma cura para o vício em morfina e álcool.

*Ele introduziu o produto a Ernest von Fleischl-Marxow, um amigo psicólogo que tomava morfina para a dor crônica que sofria depois de ferir o dedão dissecando um cadáver.

*Em vez de neutralizar seu vício, isso apenas acrescentou outro ao caldeirão... (Fleischl-Marxow, logo estava gastando seis mil marcos por mês com o novo hábito, e morreu sete anos depois, com 45).

*Uma aplicação médica de maior sucesso foi encontrada por um amigo oftalmologista, Karl Koller, o primeiro a descobrir que os efeitos amortecedores da cocaína poderiam ser úteis como anestésico local em operações do olho.

*Mas Koller não adquiriu o mesmo gosto pessoal que Freud pela droga...  (uma amostra nunca usada foi  encontrada em 1995 entre seus documentos).

*Eram com tal zelo que os colegas de Freud estavam experimentando em si mesmo a panaceia em pó que as coisas devem ter ficado cabeludas, com as curas milagrosas se mostrando um pouco exageradas.

*Por exemplo, o Dr. Wilhelm Fleiss - um otorrinolaringologista alemão - publicou um trabalho intitulado "A Relação Entre o Nariz e os Órgãos Sexuais Femininos", no qual especulava que o nariz era um microcosmo do corpo, e que qualquer doença poderia ser tratada achando a localização correspondente na napa e aplicando a cocaína ali, uma teoria que Freud curtiu tanto que acabou precisando de cirurgias para desobstruir o nariz, assim como Fleiss.

*E enquanto tentavam tratar uma mulher com histeria - uma neurose que então se acreditava emanar do útero - Freud e Fleiss estragaram a operação e quase mataram a paciente, depois imortalizada como "Irma" em 'A Interpretação dos Sonhos', em que Freud relembra o episódio que hoje o levaria à desgraça, perda da licença médica e até processo e cadeia.

*Freud começou a elaborar as teorias que formariam a base da psicanálise - conceitos como o id, ego e superego; libido como uma energia sexual que flutua livremente; o Complexo de Édipo - enquanto distribuía quantidades de cocaína para os vienenses neuróticos de classe média que vinham conversar, interminavelmente, com ele sobre seus problemas que sempre, achava Freud, acabavam sendo seus pais ou sua má adaptação às normas burguesas (que continuaram intocadas, tornando a psicanálise uma disciplina capitalista).

*Então foi assim que a crítica de Gilles Deleuze e Félix Guattari da Psicanálise, 'O Anti-Édipo', retratou nas três fases da carreira de Freud: "o elemento exploratório, pioneiro e revolucionário" onde o desejo de forma livre da libido foi descoberto; o classista que então impôs o mito edipiano naquela fábrica latejante do inconsciente, prendendo o desejo à família; e finalmente o terapeuta que criou a "interminável cura pela fala". ... Ele era "um fantástico Cristóvão Colombo, um brilhante leitor burguês de Goethe, Shakespeare e Sófocles, e um Al Capone mascarado".

(...) Apesar da popularidade duradora entre aqueles com grana pra torrar em papos solipsistas, muitos consideram a psicanálise uma disciplina desacreditada, que só serve para piadas internas em Frasier.

*Seus críticos já a consideraram uma pseudociência (o próprio Freud esperava que suas construções teóricas barrocas mais tarde fossem provadas por neurocientistas), antes mesmo que o hábito - que alguns classificariam mais como abuso de substância que vício - de seu fundador fosse descoberto.

*Céticos apontam a influência da cocaína em sua maior obra, 'A Interpretação dos Sonhos', no qual o modelo, parece, foi um devaneio de livre associação febril induzido pelo pó: "Me vejo como um boneco de neve, uma cenoura como nariz, parado num vasto campo de neve pristina, que de repente derrete, como eu, meu nariz caindo e me deixando com um sentimento de profundo vazio." 
... "Isso é sobre ansiedade de fertilidade: a cenoura é seu pênis..."


*Um dia na vida você conhece aquela pessoa - a rara pessoa que não gosta de chocolate.

*O resto do mundo não só gosta, como deseja chocolate mais do que qualquer outra guloseima.

*Na verdade, muitos estudos psicológicos usam o chocolate como o santo graal da larica, o ingrediente que nos faz salivar a menor menção ao ingrediente.

*Então, quando surgem estudos ligando o chocolate a uma saúde melhor, estamos mais que dispostos a acreditar.

*Veja a descoberta de 2015, por exemplo, de que uma barra de chocolate por dia ajudava na perda de peso. A notícia circulou desde o The Irish Examiner até estações de TV no Texas.

*Que pena que era só uma armação bem elaborada, para mostrar a cobertura preguiçosa da mídia em pesquisas científicas para um documentário expondo a indústria de dietas.

*E quando um estudo no jornal Heart, ligou o consumo de chocolate a uma redução do risco de fibrilação atrial - uma irregularidade dos batimentos cardíacos potencialmente mortal -  as manchetes declararam a sobremesa boa para o coração mais uma vez. Isso apesar de os autores do estudo escreverem, logo no resumo, que "perturbação residual não pode ser descartada".

*Um editorial que acompanhava o estudo previa a cobertura positiva da mídia - É excitante pensar no potencial de anúncios de saúde pública divertidos, como 'Coma mais chocolate para prevenir fibrilação atrial!' ou 'Um chocolate por dia mantém o cardiologista longe!', (Sean Pokorney e Jonathan Piccini).

*Ainda assim, os pesquisadores advertiram que slogans encorajadores do consumo do chocolate poderiam ser prematuros.

*Por exemplo, os consumidores de chocolate no estudo eram mais saudáveis, tinham mais estudo e se exercitavam mais que aquelas pessoas que passam meses sem comer um pedacinho de chocolate - significando que você não pode provar que foi o doce que fez diferença em seus batimentos cardíacos.

*Questões assim surgiram em estudos sobre nutrição de maneira geral, e sobre chocolate em particular, o que dificulta que um leitor médio desse tipo de assunto (eu e você) tenhamos dificuldades de tirar alguma informação útil da pesquisa.

*Estudos observacionais como o que citamos envolvem pegar um grupo grande de pessoas, pedir a elas que digam o que estão comendo (usando questionários de frequência de consumo, que os próprios autores apontam que levantam preocupações com "falta de memória") e aí ver as associações entre o que as pessoas dizem que comem e os tipos de problemas que elas desenvolvem - ou não - ao longo do tempo.

"O chocolate apareceu como um fator, mas outros alimentos também podem ser [na prevenção a doenças cardíacas]. É por isso que você não pode dizer que chocolate é a causa de uma redução na fibrilação atrial; essa observação pode vir de vários outros fatores"...  diz Marion Nestle (que não tem relação com os fabricantes chocolate), professora de nutrição, estudos alimentares e saúde pública da Universidade de Nova York, nos EUA).

*Ela também mencionou os problemas da falta de memória: "Acho essas coisas [questionários de frequência de consumo] impossíveis de preencher, porque não lembro o que comi com tanta especificidade".

*Outros estudos já ligaram cacau ou chocolate a uma redução no risco de insuficiência cardíaca, diabetes, derrame e declínio cognitivo.

*Quando estudos descobrem associações entre certos alimentos e benefícios à saúde, os cientistas geralmente trabalham de trás para frente para entender o porquê.

*No caso do chocolate, eles suspeitam que um composto chamado flavano-3-ol -  encontrado também em chás e vinho tinto - merecem muito do crédito.

*O flavano-3-ol parece aumentar a produção de óxido nítrico no corpo, um composto que dilata as veias e artérias, fazendo o sangue fluir com maior eficiência. Isso inclui o cérebro, o que pode explicar os efeitos do chocolate no humor e cognição.

*O flavano-3-ol também impede que as células vermelhas se tornem perigosamente grudentas e parece aumentar a sensibilidade à insulina, melhorando nossa capacidade de usar esse hormônio para converter açúcar em energia e afastar a diabetes, diz  a nuticionista Georgie Fear (Lean Habits For Lifelong Weight Loss).

*Testes controlados aleatórios (2016) - o padrão de ouro para medir a eficácia de dada intervenção, seja uma nova droga ou uma barra de chocolate - encontrou evidências de que 200 a 600 miligramas de flavano-3-ol por dia melhoram a sensibilidade à insulina e os níveis de colesterol. 

*E um estudo publicado pela Cochrane Database of Systematic Reviews, muito respeitada por seus resumos cuidadosos de pesquisas médicas, descobriu que uma dose média de 670 miligramas reduz a pressão arterial em cerca de quatro pontos em pessoas com hipertensão.

*Testes de longo prazo são necessários para determinar se o consumo de chocolate pode prevenir coisas como ataques cardíacos e diabetes.

*Nos dois casos, os revisores de pesquisa apontaram que testes de longo prazo são necessários para determinar se o consumo de chocolate ou flavano-3-ol, com o tempo, tem realmente um impacto em prevenir coisas como ataques cardíacos e diabetes - em outras palavras, se isso realmente pode melhorar a saúde e estender a vida.

*Isso é importante de se medir porque, mesmo se o flavano-3-ol tem benefícios, eles podem vir num pacote com calorias, açúcar e gorduras extras, diz a nutricionista da Filadélfia Libby Mills, porta-voz da Academia de Nutrição e Dietética. Então é importante considerar a imagem maior quando estiver tomando decisões nutricionais.

*Outra questão: muitos desses estudos sobre os benefícios para a saúde do chocolate (mas não o estudo sobre fibrilação atrial) são financiados pela indústria do cacau.

*Na verdade, o fabricante dos M& Ms, Snickers e outros doces estabeleceu em 2012 o Mars Center for Cocoa Health Science especificamente para esse tipo de pesquisa.

*A empresa também vende um suplemento chamada CocoaVia, que diz "promover um fluxo sanguíneo saudável da cabeça aos pés" - apesar de, como muito suprimentos, essas afirmações não serem avaliadas pelo FDA (The Food and Drug Administration).

*O financiamento da indústria não significa que um estudo é, automaticamente, inválido, mas indica que os resultados tendem a vir com conclusões mais favoráveis e exigem "interpretações cuidadosas" ... (Marion Nestle).

*E aí tem a questão da dosagem. Testes controlados aleatórios podem usar barras de chocolate, bebidas feitas à base de cacau, ou cápsulas como o CocoaVia.

*Mas em cada caso, eles são calibrados precisamente para entregar um número específico de miligramas de flavano-3-ol, um número que não está incluindo nas informações nutricionais de uma barra de chocolate que você compra no mercado, por exemplo.

*Quanto mais amargo o chocolate melhor, diz Fear. Chocolate branco, por definição, não contém nenhum flavano-3-ol.

*Um estudo do Journal of Functional Foods apoia a noção de quanto maior a porcentagem de cacau num chocolate amargo, mais flavano-3-ol ele contém.

*Mas ainda não é possível ter certeza exatamente de quanto de flavano-3-ol você está absorvendo.

*Suplementos prometem altas doses com menos calorias, mas grupos de teste de consumo desses produtos dizem ter encontrado uma variação grande de níveis de flavano-3-ol e até alguns contaminantes (e diferente de medicamentos prescritos ao até de venda liberada em farmácias, o FDA não regula exatamente o que entra nesses suplementos).

*Apesar de acreditarem que cacau e chocolate contém substâncias que promovem a saúde cardíaca, nem Mills nem Fear aconselham pessoas que não comem chocolate a começar a comer o doce agora.

*Afinal de contas, você consegue as mesmas vantagens de alimentos com muito mais nutrientes que contém mais vitaminas, minerais e outros compostos com cada caloria.

"Se podemos conseguir flavano-3-ol em chás, frutas ou vegetais, essa é a primeira coisa que eu recomendaria fazer", disse Mills.

*Mas há outro benefício importante para considerar: comer alimentos que você realmente gosta: "Nunca conheci alguém que não gostasse de consumir algum tipo de doce", disse Fear.

*Para muitas pessoas, o consumo de chocolate é mais fácil de controlar que outras sobremesas; entre uma fornada de brownies ou  um pote de sorvete, você pode se exceder, mas alguns quadrados de uma barra de chocolate de qualidade parecem muito mais satisfatórios.

*Acrescente a isso o fato de que o chocolate pode ter alguns benefícios para a saúde, e essa pode ser uma escolha mais inteligente para sua larica de doce.

*Fonte: Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK - Tradução: Marina Schnoor

Ψ  Fatima  Vieira - Psicóloga Clínica 


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