quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O Psiquismo da Relação Amorosa

Você já se perguntou por que escolhemos exatamente 'aquela pessoa'? Como dizia Roland Barthes em Fragmentos de um Discurso Amoroso: "Eis um grande enigma do qual nunca terei solução. Por que desejo esse? É ele inteiro que desejo — uma silhueta, uma forma, uma aparência? Ou é apenas uma parte do seu corpo? E nesse caso, o que nesse corpo amado, tem tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente?"

O início de uma história de amor costuma ser pavimentado pelo encanto. Vivemos uma época feliz, imediatamente subsequente à primeira sedução, onde tudo parece leve: o jantar, o luar, o riso, a promessa clara do prazer. "Fui envolvido pelo doce começo. De uma doçura tão docemente doce..." (Ronsard)
Ou como refere Barthes: "Vivo dias tão bem aventurados como aqueles que Deus reserva a seus eleitos; e venha o que vier, não poderei dizer que as alegrias, as mais puras alegrias da vida, não as terei experimentado." 
                                               Pierre Auguste Cot
Contudo, como lembrou Goethe,"somos nossos próprios demônios". 
                                                 Edvard Munch 
A sequência do episódio amoroso comumente deixa um rastro de angústias, mágoas e ressentimentos. O sujeito se vê preso em um nó de razões inexplicáveis e exclama: "Quero entender o que está acontecendo comigo!"
Ao deslumbramento inicial e à projeção exultante de um futuro perfeito, sucede-se muitas vezes um longo túnel de paixão triste.
É nesse momento que o casal costuma recorrer à psicoterapia. Não para repetir o passado, mas para tentar enunciar sua dor em uma linguagem diferente. O desejo é olhar de frente para o que divide e machuca a relação.
Na prática clínica, porém, o que se observa no início desse processo é uma constante ciranda de queixas:
Ela: Reclama do isolamento dele, das noites no computador, do desinteresse e da sobrecarga com a casa e a criação do filho.
Ele: Justifica-se no refúgio digital por sentir que só ocupa "um terço da casa", queixa-se de não ser compreendido e expressa a dor silenciosa de fumar compulsoriamente, da insatisfação sexual e da ejaculação precoce.
Muitas vezes, a narrativa do casal baseia-se em um livro de contabilidade afetiva: "Eu lhe dou mais do que recebo". Essa exposição dos próprios sacrifícios opera, na verdade, como uma sutil estratégia de dominação, e a relação vai se transformando em um ruído repetitivo.
Seriam as queixas repetitivas uma forma de encobrir a verdade?
Um artifício inconsciente para manter cada um distante de si mesmo e do outro?
Às vezes, por trás de anos de mágoas acumuladas, de um casamento que talvez tenha começado sob o peso de uma obrigação ou de expectativas não ditas, o que surge na sessão é a necessidade urgente de romper o ciclo.
Como bem pontua Barthes, "O sentimento de um acúmulo de sofrimentos amorosos explode no grito: Isso não pode continuar"!
                                                  Edvard Munch 
No fundo, esse protesto não é o fim, mas um grito de amor. É a tentativa de dizer: Quero me entender, me fazer conhecer, me fazer abraçar, quero que alguém me leve consigo, e quero encontrar um lugar saudável no amor. Em suma, quero que respeite minha subjetividade.
A psicoterapia de casal caminha sob essa neblina inicial para que, aos poucos, o inconsciente se torne consciente. Trata-se de resgatar o casal da armadilha das acusações mútuas e abrir espaço para a construção de novos projetos, sonhos e possibilidades reais de convivência.

Fonte:
BARTHES, Roland - FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO
LAMANNO, Vera Lúcia - REPETIÇÃO E TRANSFORMAÇÃO NA VIDA CONJUGAL/ A PSICOTERAPIA DO CASAL (interagindo pressupostos de Freud, Bianca, Winnicott e Joyce Mc Dougall)
𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica
http://www.fatimavieira.psc.br/

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

A luta pela adaptação é uma coisa penosa...

“O Momento em que aparece uma situação mitológica é sempre caracterizado por uma intensidade emocional peculiar; é como se as cordas fossem tocadas em nós que nunca antes ressoaram, ou como se forças poderosas fossem desencadeadas de cuja existência nunca desconfiávamos. A luta pela adaptação é uma coisa penosa, pois temos que nos confrontar constantemente com condições individuais, quer dizer, atipicas. Não é de admirar que, quando alcançarmos tal situação, sintamos de repente ou a libertação toda especial, como se estivéssemos sendo carregados, ou nos sintamos agarrados por uma força superior. Em tais momentos não somos mais indivíduos, mas uma espécie; pois a voz de toda humanidade ressoa em nós.

(…) Toda referência ao arquétipo, seja experimentada ou apenas dita, é “perturbadora”, isto é, ela atua, pois ela solta em nós uma voz muito mais poderosa do que a nossa.
Quem fala através de imagens primordiais, fala como se tivesse mil vozes; comove e subjuga, elevando simultaneamente aquilo que qualifica de único e efêmero na espera do continuo devir, eleva o destino pessoal ao destino da humanidade. e com isso solta em nós aquelas forças benéficas que desde sempre possibilitaram a humanidade salvar-se de todos os perigos e também sobreviver à mais longa noite.” (JUNG, C.G, O Espirito na Arte e na Ciência)
                       𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Estamos imersos no mundo das imagens

”Encontramo-nos sempre presos à nossa experiência psicológica. Estamos imersos no mundo das imagens.
Independentemente do que dizemos sobre o psíquico, falamos sempre a partir de um arquétipo. Quando Freud diz que a razão e o inicio de tudo é a sexualidade, trata-se igualmente de uma ideia arquetípica. É a ideia primitiva por excelência, assim como a ânsia de poder de Adler. Estas duas idéias estão presentes entres os filósofos antigos, na ideias gnósticas e alquímicas: a natureza se deleita com a natureza, a natureza domina a natureza. Essa realidade foi expressa pelo símbolo da cobra que morde a própria cauda, o Uroboros.

Quando então acreditamos estar pronunciando uma verdade definitiva, estamos enganados: expressamos somente um arquétipo. Em suma, isso indica que o arquétipo vive. Vive em Freud, vive em Adler e igualmente em mim.” (JUNG, C.G. Seminários sobre Sonhos de Crianças)
                           𝚿 Fatima Vieira - Psicóloga Clínica