domingo, 24 de setembro de 2023

(...)

doce primavera é o seu tempo

é o meu tempo é o nosso tempo

para a primavera é o tempo do amor

e viva doce amor

(todos os passarinhos alegres estão
voando e flutuando nos
próprios espíritos cantando
estão voando no florescimento)
(e. e. cummings)

Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica 

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Ψ Jung: uma visão integral, complexa e holística da realidade

Jung foi um antecipador de tudo aquilo que nos últimos anos buscávamos: uma visão integral, complexa e holística da realidade.


Sigmund Freud e Carl Gustav Jung são os geniais criadores do discurso psicanalítico. Não tiveram mestres. Eles mesmos observando-se a si mesmos e a seus pacientes foram criando os instrumentos teóricos para decifrar os enigmas da alma humana. Freud e Jung possuíam sensibilidades diferentes. Enquanto Freud enfatizava o fato sexualidade, desde a mais tenra infância. Jung discordava, pois achava que esta dimensão era importante mas não podia ser o eixo articulador da compreensão da vida psíquica humana. Para Jung a libido constituía a energia fundamental que perpassava todo o ser humano para além de sua expressão sexual.
Quero me concentrar em Carl Gustav Jung porque vejo nela um antecipador de tudo aquilo que nos últimos anos buscávamos: uma visão integral, complexa e holística da realidade. Para Jung a psicologia não possuía fronteiras, entre cosmos e vida, entre biologia e espírito, entre corpo e mente, entre consciente e inconsciente, entre individual e coletivo. A psicologia tinha que ver com a vida em sua totalidade. Por isso tudo lhe interessava, os fenômenos exotéricos, a alquimia, a parapsicologia, o espiritismo, a filosofia, a teologia, a mística, ocidental e oriental, os povos originários e as teorias científicas mais avançadas. Sabia articular estes saberes descobrindo conexões ocultas que revelavam dimensões surpreendentes da alma humana. A psicologia de Jung é uma espécie de cosmologia, pois para ele o ser humano não pode ser entendido fora da evolução total. A psique é tão ancestral quanto o universo, é parte objetiva da natureza. A autorrealização como processo de individuação possui um sentido cósmico. Como dizia ele, “na visão que faço do mundo existe um vasto reino exterior e um outro reino interior, igualmente vasto; entre esses dois mundos, situa-se o homem, ora frente a um, ora frente a outro" (Obras 4,777).
Os numerosos estudos de Jung sobre a alquimia demonstram que estes mundos ultrapassam o humano e alcançam o cósmico. A equação macrocosmos-microcosmos, a coincidência entre a totalidade do humano com a totalidade do extra-humano, conduzem a uma nova consciência capaz de fundar uma nova relação entre homem e universo.

Coube a Jung o mérito de valorizar e decifrar a mensagem escondida nos mitos. Eles constituem a linguagem do inconsciente coletivo. Este possui sua relativa autonomia. Ele nos possui mais a nós do que nós a ele. Cada um é mais pensado do que propriamente pensa. O órgão que capta o significado dos mitos, dos símbolos e dos grandes sonhos é a razão sensível ou da razão cordial. Esta foi na modernidade colocada sob suspeita pois poderia obscurecer a objetividade do pensamento. Jung sempre foi crítico do uso exacerbado da razão ocidental pois fechava muitas janelas da alma.Os numerosos estudos de Jung sobre a alquimia demonstram que estes mundos ultrapassam o humano e alcançam o cósmico. A equação macrocosmos-microcosmos, a coincidência entre a totalidade do humano com a totalidade do extra-humano, conduzem a uma nova consciência capaz de fundar uma nova relação entre homem e universo. Os astronautas lá de suas naves espaciais nos testemunharam que Terra e humanidade se pertencem. Formam uma única realidade. Ao abordar o inconsciente coletivo e cósmico Jung se confronta com os grandes mitos da totalidade como o do urobos, da mândala, do animus/anima e da Sofia.
Há um spiritus mundi e um spiritus terraeExiste um estrato mais radical e profundo da psique onde já não tem valência as distinções entre psique e mundo, céu e terra. Aí emerge a realidade originaria e total do mundo, antes de qualquer separação e divisão, o arquétipo-raiz o Self. Aí todos nos sentimos um, como bem o expressou a tradição do Tao e filosofia da Índia e que Jung tanto apreciava. É o unus mundus ou a lápis philosophorum. Coube a Jung o mérito de valorizar e decifrar a mensagem escondida nos mitos. Eles constituem a linguagem do inconsciente coletivo. Este possui sua relativa autonomia. Ele nos possui mais a nós do que nós a ele. Cada um é mais pensado do que propriamente pensa. O órgão que capta o significado dos mitos, dos símbolos e dos grandes sonhos é a razão sensível ou da razão cordial. Esta foi na modernidade colocada sob suspeita pois poderia obscurecer a objetividade do pensamento. Jung sempre foi crítico do uso exacerbado da razão ocidental pois fechava muitas janelas da alma. Conhecido foi o diálogo em 1924-1925 de Jung manteve com um indígena da tribo Pueblo no Novo México nos USA. Este indígena achava que os brancos eram loucos. Jung lhe pergunta por que os brancos seriam loucos? Ao que o indígena responde:  “Eles dizem que pensam com a cabeça”. “Mas é claro que pensam com a cabeça”, contestou Jung. “Como vocês pensam”, continuou? E o indígena, surpreso, respondeu: “Nós pensamos aqui” e apontou para o coração (Memórias, sonhos, reflexões, p. 233).

Esse fato transformou o pensamento de Jung. Entendeu que os europeus havia conquistado o mundo com a cabeça mas haviam perdido a capacidade de pensar com o coração e de viver através da alma (cf. Anthony Stevens, Jung, vida pensamento, Vozes, p. 269). Por isso dominaram o mundo e fizeram tantas guerras.

Fonte: *Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Habitar a Terra (Vozes)

(*txt do site A Terra é Redonda)

Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica 

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sexta-feira, 30 de junho de 2023

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"Seguir sua própria estrela significa isolamento, não saber para onde ir, ter que descobrir um caminho completamente novo para si mesmo, em vez de apenas seguir o caminho trilhado por todos os outros. É por isso que sempre houve uma tendência nos humanos de projetar a singularidade e a grandeza de seu próprio eu interior em personalidades externas e se tornarem servos, servos dedicados, admiradores e imitadores destas personalidades. É muito mais fácil admirar e tornar-se discípulo ou seguidor de um guru ou profeta religioso. Isso é muito mais fácil do que seguir sua própria estrela." (Marie-Louise von Franz, O Caminho do Sonho)

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quinta-feira, 20 de abril de 2023

Ψ 'A Criança, sua "Doença" e os Outros'

No livro 'A Criança, sua "doença" e os Outros', Mannoni tenta esclarecer o "mal-estar" da família quando procura um psicoterapeuta referindo praticamente dois tipos de discursos:

1 - O discurso fechado, em que há uma recusa à experiência psicoterapêutica.  Dá-se um discurso diante do analista, em vez de para o analista. Os pais buscam uma confirmação da irrecuperabilidade do quadro.
O desejo inconsciente fatal de que a criança permaneça doente. O drama aqui não é a doença, mas a existência dos pais. Os pais dirigem-se ao analista para falar de si próprios. O passado da criança é reordenado não para fazer dele surgir um sujeito, mas para fixá-lo. O analista é situado no lugar de cúmplice de sua mentira. Não há lugar para o terceiro. Nestes casos se nota como o genitor patogênico constitui o seu próprio ideal do eu. As intervenções aqui podem provocar a paralisação do tratamento.

2 - O discurso de drama, em que há um pedido de ajuda. A análise é então possível, e o tratamento consistirá em encontrar, na palavra do adulto, o que marcou a criança no plano do corpo.

Para Rosenfeld, na fase aguda da doença, todas as técnicas psicoterapêuticas, sejam quais forem as referências teóricas, alcançam sucesso. É na fase crônica silenciosa que o sucesso depende de como ela é manejada.

Para que serve a psicoterapia de crianças e adolescentes?
A psicoterapia infantil pode ser particularmente útil na profilaxia e no tratamento de uma série de problemas emocionais e comportamentais:
• Depressão
• Ansiedade
• Auto-mutilação
• Dificuldades de apego, incluindo crianças cuidadas e adotadas
• Problemas comportamentais, incluindo criminalidade e uso de substâncias químicas.
• Dificuldades com amigos e colegas, incluindo bullying, cyberbullying
• Distúrbios alimentares
• Identidade de gênero
• TDAH
• Autismo
• Distúrbios comportamentais ou conflitos na área sexual
• Baixa autoestima/confiança
• Problemas de aprendizagem e concentração/ atenção
• Dificuldades nos relacionamentos interpessoais/ apego/ vínculos
• TOC
• Fobias
• Atraso no desenvolvimento
neuropsicológico
• Traumas e Estresse pós traumático, separação/ perda/ luto

Como ocorre a primeira Avaliação Psicológica?

Para avaliação, a criança/adolescente é inicialmente atendida com seus pais/ familiares/ responsáveis, para que o terapeuta obtenha o máximo de compreensão possível sobre o problema ou dificuldade. Em algumas situações, os pais podem querer ser vistos separadamente como parte do processo de avaliação para explorar quaisquer preocupações que possam ter. O trabalho individual com os pais pode facilitar a verbalização de suas lutas cotidianas e oferecer uma oportunidade de refletir sobre seus estilos parentais e suas próprias experiências como pais em um ambiente confidencial. Pode envolver a identificação de gatilhos ou padrões de comportamento e formas de relacionamento que possam estar afetando negativamente o vínculo com o filho. Ao final da Avaliação é apresentado um feedback aos pais, psicodiagnóstico e sugestão quanto a periodicidade dos encontros dando início à psicoterapia.

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sábado, 8 de abril de 2023

A morte é uma nova vida


Hulton Collection - Hulton Archive -  Getty Images

"Este é o trabalho de uma vida, aqui na terra: inventar o corpo astral, criá-lo, dando-lhe a nossa consciência. Assim, a pessoa sobreviverá à morte. Pode-se também morrer quando se quer... E ao morrer, não perder a consciência 'daqui'.
O que acontece neste processo é um desprendimento de seu corpo astral enquanto seu corpo físico dorme. É um processo inconsciente automático. Às vezes, por simples acaso, um vislumbre de consciência chega a este belo corpo e então, ao acordar repentinamente ou no dia seguinte, tem-se a impressão de estar experimentando algo muito mais real do que a realidade física. O déjà-vu que referem os psicólogos tem sua explicação neste fenômeno de distanciamento.
(...) O corpo astral se desprende, ainda preso ao corpo físico por um cordão chamado  'cordão de prata', que só é cortado na morte. Graças a este cordão podemos percorrer distâncias imensuráveis ​​sem perder a conexão com nosso corpo físico. Ele sempre retorna. 
(...) Preste atenção a esta analogia: assim como uma criança se encontra ligada à mãe pelo cordão umbilical, o corpo astral está unido ao pai, o corpo físico, por um cordão de prata. A criança chora e se desespera ao nascer, quando o cordão que o liga à mãe é cortado. Ele pensa que isso é a morte, mas é uma nova vida. O mesmo acontece quando se morre; quando o cordão de prata é cortado, entra-se em outra vida. A morte é uma nova vida. Tudo isso é arquetípico. Apenas aqueles eventos que expressam arquétipos têm realidade ontológica. (Miguel Serrano)

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terça-feira, 7 de março de 2023

(...)


Charna W.

Harold Knight.
Francois Bruycker

Ron Hicks
Philip de Laszlo
                                                James Francis
(...) As mulheres, nas quais a vida habita e habita de forma mais imediata, mais fecunda e mais confiante, devem ter amadurecido mais profundamente, tornando-se seres humanos mais humanos do que os homens, que, na sua arrogância e impaciência, desconhecem e menosprezam o que pensam amar. Esta humanidade que habita a mulher, levada a termo na dor e na humilhação, após ter descartado as convenções da mera feminilidade por meio das transformações de seu status externo, virá à luz e os homens, que hoje ainda não sentem isso se aproximando, serão pegos de surpresa e atingidos por ela. (...) Este passo à frente mesmo que contra a vontade dos homens, transformará a experiência do amor, agora cheia de erros. Remodelará em uma relação entre dois seres humanos e não mais entre homem e mulher isolados. E esta forma mais humana de amor que será realizada de maneira infinitamente gentil, atenciosa, verdadeira e clara, será semelhante àquela para a qual todos os seres buscam o amor que consiste em duas solidões que se protegem, se definem e se acolhem. (Rainer Maria Rilke: Cartas a um jovem poeta/ 1903)

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sexta-feira, 3 de março de 2023

(...)

“O verdadeiro feminino é o receptáculo do amor. O verdadeiro masculino é o espírito que vai ao eterno desconhecido em busca de sentido. O grande recipiente, o Self, é paradoxalmente masculino e feminino e contém ambos. Se estes são projetados no mundo exterior, a transcendência deixa de existir. O Eu - a totalidade interior - está petrificado. Sem o verdadeiro espírito masculino e o verdadeiro amor feminino interior, não existe vida interior. Ser livre é quebrar as imagens de pedra e permitir que a vida e o amor fluam."
Marion Woodman - Addiction to Perfection: The Still Unravished Bride

Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica 

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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Imaginação Ativa - conversando e aprendendo com os sentimentos

"O símbolo, assim como o sintoma, é o modo como a psique se regula e se cura". (Jung, 1970)

Como é a sua imaginação?

Pode parecer um tanto óbvio mas tudo o que existe (ou existiu) no Universo partiu de uma imaginação. Determinada pessoa visualizou/ imaginou o seu desejo e aquilo foi materializado (é claro que até chegar a esta materialização muito foi feito, perdido, trabalhado...) mas a questão é que este celular ou computador do qual você está lendo minha mensagem partiu de uma imaginação. Carl Gustav Jung, há 100 anos atrás, na Suiça, desenvolveu a técnica muito usada que é a Imaginação Ativa. Esta técnica é voltada para a introspecção psíquica em que você aprende a dialogar com seus sintomas.

O que é Imaginação Ativa?
Em síntese, é a vivência da experiência da criação de imagens do seu inconscientes que ganharão “vida” no processo terapêutico.

Como a imaginação ativa pode te ajudar?
A técnica surge para trabalhar com o seu autoconhecimento abrangendo as suas dores, basicamente. Quando temos um sintoma que é aparentemente físico, esquecemos que por trás destas dores existem emoções, e que por trás destas emoções, existem imagens. Em outras palavras: ao encontrarmos a imagem e a emoção, podemos transformar este sintoma (lembrando que quando atuamos com vidas atuamos com complexidades, portanto, o tempo é incerto neste processo). Com tantos afazeres, esquecemos que o corpo depende da psique assim como a psique também atua no corpo.

Quais são os sintomas trabalhados pela Imaginação Ativa?
Basicamente todos. Caso você tenha dores nas costas, dores nos braços, dores nas pernas, dores de cabeça, apertos no peito, ansiedade, medo, angústias, pânicos, bruxismo entre tantos outros sintomas recorra a um profissional que possa te auxiliar neste processo. É uma técnica de introspecção psíquica em que você aprende a dialogar com seus sintomas. Com o corpo e a mente dialogando entre si, transformações poderão surgir.

Como é que esta Imaginação Ativa funciona?
Ao chegar no consultório, depois de diversos encontros, haverá o momento que o psicólogo irá conversar com a dor específica do seu corpo. Caso você tenha fortes dores, por exemplo, no peito, ambos irão focar na impressão desta dor através das emoções: raiva, tédio, medo, tristeza, entre diversas outras opções que caberão apenas ao paciente destacar. A partir desta identificação, diante de diversos tipos de perguntas, podemos perguntar: "E se essa dor tivesse uma imagem, qual imagem ela teria para você?"

Eu posso fazer a Imaginação Ativa sozinho?
Não é recomendável. É algo que requer muito cuidado pois é um tipo de técnica que lida com forças muito profundas. Caso você sinta interesse, recomendo um profissional que atue com esta técnica.

IMAGINAÇÃO ATIVA - conversando e aprendendo com os sentimentos 
"Houve um tempo em que fugia do medo, então o medo me controlava. Até que aprendi a segurar o medo como um recém-nascido, ouvi-lo, mas não ceder. Honrá-lo, mas não o adorar. O medo não podia mais me impedir. Eu entrei com coragem na tempestade. Ainda tenho medo, mas ele não me tem. Houve um tempo em que eu tinha vergonha de quem eu era. Eu convidei a vergonha para o meu coração. Eu a deixei queimar. Ela me disse: “Estou apenas tentando proteger sua vulnerabilidade. Eu agradeci à vergonha, e entrei na vida de qualquer maneira, sem vergonha, com a vergonha como minha amante. Houve um tempo em que tive muita tristeza enterrada bem no fundo. Eu a convidei para sair e brincar. Eu chorei oceanos. Os meus canais lacrimais estavam secos. E eu encontrei a alegria ali mesmo. Bem no centro da minha tristeza. Foi o desgosto que me ensinou a amar. Houve um tempo em que tinha ansiedade. Uma mente que não parava. Pensamentos que não silenciavam. Então parei de tentar silenciá-los. E eu larguei da mente fui para a terra, para a lama. Onde fui abraçado fortemente como uma árvore, inabalável, segura. Houve um tempo em que a raiva queimou nas profundezas. Eu chamei a raiva para a luz de mim mesmo. Eu senti seu poder chocante. Eu deixei meu coração bater e meu sangue ferver. Escutei, finalmente. E ela gritou: “Respeite-se ferozmente agora!”. "Fale a sua verdade com paixão!” “Diga não quando você quer dizer não!” “Ande o seu caminho com coragem!” “Que ninguém fale por você!” A raiva se tornou uma amiga sincera. Um guia sincero. Uma linda criança selvagem. Houve um tempo em que a solidão me tomou profundamente. Eu tentei me distrair e me entorpecer. Corri para pessoas, lugares e coisas. Até fingi que estava “feliz”. Mas logo eu não pude correr mais. E eu caí no coração da solidão. E eu morri e renasci em uma requintada solidão e quietude. Isso me conectou a todas as coisas. Então eu não estava só, mas sozinho com toda a vida. Meu coração Um com todos os outros corações.
Houve um tempo em que fugia de sentimentos difíceis. Agora, eles são meus conselheiros, confidentes, amigos,  e todos eles têm um lar em mim e todos eles me pertencem e têm dignidade. Eu sou sensível, suave, frágil, meus braços envolveram todos os meus filhos internos. E na minha sensibilidade, poder. Na minha fragilidade, uma presença inabalável. Nas profundezas das minhas feridas, no que eu tinha chamado de “escuridão”, eu encontrei uma luz ardente. “Isso me guia agora em batalha.” 
Texto: Jeff Foster (1980), astrofísico inglês (Cambridge)
'Imaginação Ativa', técnica utilizada por JUNG  

Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica 

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"Cultivar a alma é permitir que a essência eterna penetre e experimente o mundo externo por todos os orifícios do corpo: vendo, sentindo o aroma e o sabor, ouvindo, tocando - de tal maneira que a alma cresça durante sua permanência na terra. Cultivar a alma é descobrir-se um ser eterno habitando um corpo temporal. É por isso que sofre e aprende pelo coração". (Marion Woodman)

Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica 

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"Na busca de sua alma e do sentido de sua vida, o homem descobriu novos caminhos que o levam para a sua interioridade: o seu próprio espaço interior torna-se um lugar novo de experiência. Os viajantes destes caminhos nos revelam que somente o amor é capaz de gerar a alma, mas também o amor precisa da alma. Assim, em lugar de buscar causas, explicações psicopatológicas às nossas feridas e aos nossos sofrimentos, precisamos, em primeiro lugar, amar a nossa alma assim como ela é. Deste modo é que poderemos reconhecer que estas feridas e estes sofrimentos nasceram de uma falta de amor. Por outro lado, revelam-nos que a alma se orienta para um centro pessoal e transpessoal, para a nossa unidade e para a realização de nossa totalidade. Assim a nossa própria vida carrega em si um sentido, o de restaurar a nossa unidade primeira. Finalmente, não é o espiritual que aparece primeiro, mas o psíquico, e depois o espiritual." (Léon Bonaventure) 
Texto extraído da introdução à coleção “AMOR E PSIQUE”  
Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica 

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Ψ O Sonho de Jung

A casa é um símbolo arquetípico de fato. Os humanos procuram um lugar seguro que seja fundamentalmente seu para viver, seja a caverna do troglodita ou o palácio do rei. O útero materno é nosso lar mais antigo, e todos os nossos lares físicos subsequentes carregam suas sombras e tons. Nas tradições mitológicas de todo o mundo, nosso primeiro lar é um paraíso e estamos sempre procurando retornar a ele.

“Eu estava numa casa desconhecida, de dois andares. Era a ‘minha’ casa. Estava no segundo andar onde havia uma espécie de sala de estar, com belos móveis de estilo rococó. As paredes eram ornadas de quadros valiosos. Surpreso de que essa casa fosse minha, pensava: ‘Nada mau!’ De repente, lembrei-me de que ainda não sabia qual era o aspecto do andar inferior. Desci a escada e cheguei ao andar térreo. Ali, tudo era mais antigo. Essa parte da casa datava do século XV ou XVI. A instalação era medieval e o ladrilho vermelho. Tudo estava mergulhado na penumbra. Eu passeava pelos quartos, dizendo: ‘Quero explorar a casa inteira!’ Cheguei diante de uma porta pesada e a abri. Deparei com uma escada de pedra que conduzia à adega. Descendo-a, cheguei a uma sala muito antiga, cujo teto era uma abóbada. Examinando as paredes descobri que entre as pedras comuns de que eram feitas, havia camadas de tijolos e pedaços de tijolo na argamassa. Reconheci que essas datavam da época romana. Meu interesse chegara ao máximo. Examinei também o piso recoberto de Lages. Numa delas, descobri uma argola. Puxei-a. A laje deslocou-se e sob ela vi outra escada de degraus estreitos de pedra, que desci, chegando enfim a uma gruta baixa e rochosa. Na poeira espessa que recobria o solo havia ossadas, restos de vasos e vestígios de uma civilização primitiva. Descobri dois crânios humanos, provavelmente muito velhos, já meio desintegrados. – Depois acordei.

Era claro que a casa representava uma espécie de imagem da psique, isto é, da minha situação consciente de então, com complementos ainda inconscientes. A consciência era caracterizada pela sala de estar e parecia habitável, apesar do estilo antiquado.

No andar térreo já começava o inconsciente. Quanto mais eu descia em profundidade, mais as coisas se tornavam estranhas e obscuras. Na gruta, descobri restos de uma civilização primitiva, isto é, o mundo do homem primitivo em mim; esse mundo não podia ser atingido ou iluminado pela consciência. A alma primitiva do homem confina com a vida da alma animal, da mesma forma que as grutas dos tempos primitivos foram frequentemente habitadas por animais, antes que os homens se apoderassem delas. Por causa desse sonho pensei, pela primeira vez, na existência de um a-priori coletivo da psique pessoal, a-priori que considerei primeiramente como sendo os vestígios funcionais anteriores. Só mais tarde, quando minhas experiências se multiplicaram e meu saber se consolidou, reconheci que esses modos funcionais eram formas do instinto: os arquétipos”.

(Compilação e Prefácio de Aniela Jaffé – Jung, Memórias-Sonhos-Reflexões)

 
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sábado, 12 de novembro de 2022

Nazareth🌹Love Hurts

09.11.2022 - Morreu aos 76 anos Dan McCafferty, vocalista e co-fundador banda escocesa Nazareth. 

terça-feira, 11 de outubro de 2022

"A infância dura toda a vida." (Bachellard)

A criança e a Casa da infância 

"Se me pedissem para citar o principal benefício da casa, eu diria: "A casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa permite sonhar em paz." (Gaston Bachelard) 

☆A casa como 'verticalidade' do universo; um universo dentro de um universo é o que faz as polaridades da casa tradicional.

☆Sótão e Porão: o sótão e o porão tais reflexos do céu e do inferno; um é racional o outro, irracional. Ambos são espaços nos quais a criança pode passar horas brincando, e cada um deve ser tão essencial quanto o outro, polaridades em perfeito equilíbrio. (...) mas o que sabemos é que o porão é invariavelmente um lugar a temer; um lugar de cheiro duvidoso e saídas entupidas. É um lugar que abriga monstros equivocados e feras do fundo do mar, um lugar onde a maioria não gostaria de ficar presa. O porão representa o subconsciente e nossa sombra à espreita lá. (...) O sótão, por outro lado, é alto; alcançando os céus como a torre de Babel. É a colina que escalamos para experimentar a vertigem do oxigênio puro, o mais longe que podemos chegar do mundano. O sótão não é a pura consciência, mas o lugar em que nos encontramos quando livres das influências do mundo. É liberdade, e podemos olhar por um vitral ou encontrar alguns travesseiros para deitar e olhar para as nuvens que passam e sonhar com coisas maiores do que nós mesmos. É no sótão que, não muito diferente do canto com sua falta de distração, podemos esbarrar em nosso verdadeiro eu, sem que nenhuma preocupação mundana o obscureça.

☆Vela na Janela: “O inverno acrescenta à poesia de uma casa.”

                                       Damião Lechoszest

A vela ou lâmpada na janela parece ser a imagem final do devaneio. Quando a tempestade está furiosa ao nosso redor e o eremita procura uma cabana, a vela acesa na janela é um símbolo de esperança. 
(...) Embora muitas vezes seja uma imagem que simboliza idade e grande sabedoria, para a criança a vela é a luz que abafa toda a escuridão e deve ser nosso foco durante os longos invernos de incerteza e compromisso que estão por vir. Um símbolo do fragmento do Divino queimando intensamente dentro de todos nós, a vela nos atrai como um ímã, e talvez seja a melhor maneira de resumir o verdadeiro significado de nossas vidas.

☆Ninhos e conchas: A arquitetura da imaginação e seu papel no processo de iluminação podem ser lindamente resumidos pelo ninho e pela concha. Mais do que uma imagem da consciência humana, a imagem poética do ninho é muito parecida com a casa; nosso próprio cantinho do mundo e, portanto, uma expressão de conforto e abrigo, uma construção perfeita de simetria e força delicada.

☆Gavetas, cómodas e roupeiros: “Nosso passado está situado em outro lugar, e tanto o tempo quanto o lugar estão impregnados de uma sensação de irrealidade.” A imagem da gaveta e outros recipientes pesados ​​de madeira; de caixas de lembrança e baús de tesouro onde o excesso de bagagem de pensamento; objetos sem propósito e chaves que abrem portas misteriosas para várias partes do subconsciente proporcionam à criança um playground de imagens poéticas.

                                         Gleb Goloubetski

☆O guarda-roupa sem encosto e o baú sem fundo nos levam a outras terras, a gaveta contém tesouros que só a criança pode apreciar e usar em suas aventuras pelos emaranhados do desconhecido no fundo do jardim. O armazenamento de tempo e recipiente de artefatos, gavetas e baús representam a organização meticulosa e os entesouramentos de memórias que a mente deveria ter descartado há muito tempo: "Eles contêm os colecionáveis ​​bizarros de nossos anciões excêntricos e murchos; camadas de intimidade e objetos esquecidos no passado, são os  verdadeiros órgãos da vida psicológica secreta".

☆Os cantos da casa: “Às vezes a casa do futuro é melhor construída, mais leve e maior que todas as casas do passado, de modo que a imagem da casa dos sonhos se opõe à da casa da infância.” (...) Os cantos podem ser os lugares em que nos encontramos, as paredes em branco e a falta de estímulos um gatilho para a reflexão interior. Assim como a criança travessa enviada para o canto para pensar sobre o que fez, (embora não deva ser associado a um lugar de punição), o canto também pode refletir o vazio interior e o potencial de manifestação. O canto é o lugar ideal para sonhar acordado e perceber a natureza de nossa existência: “A criança acaba de descobrir que ela é ela mesma em uma explosão para fora, que é uma reação, talvez, a certas concentrações em um canto de seu ser."

Fonte: "La Poétique de l'Espace (A Poética do Espaço)". Livro de Gaston Bachelard, 1964.

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