terça-feira, 13 de outubro de 2009

eu sou a deusa menina!

Eu sou a deusa menina
cheiro de flores

Eu sou a deusa menina
do amanhecer

Eu sou a deusa menina
eu sou uma bailarina

Que gira e gira no leste
para crescer

Eu sou a deusa menina
luz da semente




A primavera da vida
e o respirar

Eu estou voando no céu
eu estou brincando em teu eu

E tenho uma espada mágica
para te dar

Oh! deusa! deusa menina
brinca comigo

Dissolve o meu sofrimento
tira a minha dor

Libera minha tristeza
com teus poderes do vento

Revela-me teu mistério
a criação

(iniciação aos mistérios femininos/
as quatro fases da deusa)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

"...pois só quem ama tem ouvido capaz de ouvir e entender estrelas"

... Qualquer dia destes os homens vão encontrar Deus... Mas não serão os filósofos, serão os astronautas... 
Os astronautas, esses seres fantásticos, caminhando pelo espaço sideral, fora das cápsulas, como escafandros do céu, em levitação, serão os primeiros habitantes do romântico satélite.
E entre eles, se houver mesmo algum poeta, leremos algum dia o primeiro poema lunático, que a terra há de inspirar... 
Mas a verdade é que, enquanto isto ainda não acontece, a lua continua a musa em atividade. Os poetas sempre foram tidos como homens que vivem "no mundo da lua ".
 E quando alguém tem um ar de abstração e de sonho, é um poeta.
... Quem não se lembra, por exemplo, daqueles versos que acordaram tantas namoradas, enquanto o violão lá fora , pela madrugada, era dedilhado ao luar? "Lua, manda a tua luz prateada despertar a minha amada quero matar meus desejos sufocá-la com meus beijos. . . "
E os grandes poetas não ficaram insensíveis à beleza da rainha da noite, ao seu mistério e aos seus encantos.

 Mesmo com os pés no chão, olham para o alto. E se a lua vai-lhes sendo roubada, restam-lhes as estrelas, aquelas mesmas que Bilac ouvia, recomendando: "Amai, para entendê-las pois só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas. 
"Eu já a vi simbolizando a própria poesia: "Tudo é trova, a flor, a onda,a nuvem que passa ao léu e a lua, trova redonda, que a noite canta no céu..."
As mais curiosas e lindas imagens ocorreram aos românticos, parnasianos, simbolistas, modernos, líricos de todas as escolas.Para Alberto de Oliveira, o hierático parnasiano, "o luar era um cortinado todo lírios na barra, e em cima estrelas".
Catulo, o nosso Catulo, que enriqueceu a poesia com imagens simples, num típico linguajar sertanejo, diz que: "o céu parecia uma tigela cumo o fundo azu imborcado todo ismartado de novo adonde a lua tão bela ia boiando, amarela cumu uma gema de ovo."
Até o nosso singularíssimo Augusto dos Anjos contribuiria com uma imagem, bem a seu jeito: "Do observatório em que estou situado a lua magra, quando a noite crescevista, através do vidro azul, parece um paralelepípedo quebrado."
Está claro que esta não seria a visão dos românticos ou dos simbolistas. Para Cruz e Souza, ela se transfiguraria: "Ó monja branca dos espaços parece que abre para mim os braços fria, de joelhos, trêmula, rezando."
E Alphonsus de Guimarães, das altas montanhas mineiras, como que completaria a estrofe: "... Parece que se ouve o leve passo da lua pobre morta que passeia nos castelos hieráticos do espaço."
Castro Alves havia de associá-la a lembranças de amor.. E ei-lo declamando: "Entre rendas sutis, surge medrosa a lua plena, qual moreno seio."
Olegário Mariano, outro amoroso, teria impressões semelhantes: "Entre as árvores surge a lua como uma náiade nua mostrando em suaves coleioso torso, os braços os seios."
Seriam infinitas as citações. Antigos ou modernos, os poetas de todas as épocas se enfeitiçaram pela sua beleza.
 Não poucas vezes foi invocada como testemunha de amor. Desde o idílio de Romeu e Julieta, no drama shakespeariano: "Linda! Por esta lua que tem zelos por ti, por este límpido luar, que é menos puro do que teus cabelos que brilha menos do que teu olhar..."
E a réplica, bem feminina de Julieta: "Não jures pela lua que é inconstante!"
Certa vez coloquei como epígrafe de meu livro "A Outra Face", este pensamento: "O poeta em mim, é como aquela face da lua que ninguém vê, voltada sempre para o infinito."
Não faz sentido mais. Hoje os astronautas e os foguetes teleguiados já fotografaram até a " outra face " da lua. Nosso lindo satélite não posa mais de "odalisca", com veuzinho no rosto.
Sinal dos tempos... Aviso de despejo. A lua pertence agora aos seus novos donos. Contentem-se os namorados com o luar, e os poetas, com a saudade.
"Se o cotidiano te parece pobre, não o acuse: acusa-te a ti próprio de não seres bastante poeta para conseguires te apropriar de suas riquezas."
Como quem diz: não desesperes. Colhe o mundo ao teu redor. Aí estão o homem e suas fronteiras. Aí está, portanto, a poesia.
Rejubila-te, enquanto os foguetes sobem. A poesia sobreviverá ao ano 2000 e a todos os tempos. E por isto justamente: porque está dentro de ti e em tudo que te cerca, é que ela é imortal.
A lua dos verdadeiros poetas é a sua poesia, e esta é um satélite onde só eles podem chegar. Mas cujo luar pertence a todos nós...
( J.  G.  de Araujo Jorge - No Mundo da Poesia/ 1969)

dança bela criança!


  imagem: Antônio Manuel Silva
Dança sobre restos de cristais
deste tempo não tão belo
porque sozinha não estás
Dança sobre antigas cinzas
sobre todas as tuas feridas
Dança sobre tua casa,
entre a erva
... o odor do inverno
Dança bela criança,
pequena criança
distorções do tempo
Sózinha não estás
Sobre a fumaça que cobriu
a luz de nossa cidade
e ainda que doa
não a podemos modificar
Dança sobre a dor
que a dança à consumirá
Dança sobre a tua rua que dança
sobre esta casa que dança
se não se pode fazer mais...
Dança sobre a desventura
à luz da lua
sobre o campo e o mar
Dança, é caricia, é pudor
é aprender a voar
Se puderes dançar pelo ar
também as estrelas
poderão abraçar-te
não sigas agarrada as tuas dores
que não sabem dançar
Dança junto a tua vida
que dança...
Dança... Dança... Dança...
(Marilina Ross)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

o que mata um jardim?

                                                       pinturas: van gogh
 "O que mata um jardim não é mesmo alguma ausência nem o abandono... 
   
O que mata um jardim é esse olhar vazio de quem passa indiferente." (Mario Quintana)


CONCERTO PARA CORPO E ALMA

"Compreendi,
então,
que a vida
não é uma sonata
que,
para realizar
a sua beleza,
tem que
ser tocada
até o fim.
Dei-me conta,
ao contrário,
de que a vida
é um álbum de minissonatas.
Cada momento
de beleza
vivido e amado,
por efêmero que seja
é uma experiência
completa que está destinada
à eternidade. Um único
momento de beleza e amor
justifica a vida inteira."
(Rubem Alves)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

obras de arte

ROSALBA NINFA
DELACROIX

MIRO MAINOU
FOGARTY
RUDNITSKAYA

mais obras de arte

RICARDO VIDELA

TARSILA AMARAL

DI CAVALCANTI

TARSILA AMARAL

MARYSIA PORTINARI

obras de arte

"O sonho é a força artística que se projeta em imagens e produz o cenário das formas e figuras."
(Nietzsche)
PABLO PICASSO
TAMARA LEMPICKA SALVADOR DALI
GISELLE GARMASH
EDGAR DEGAS

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

a voz do vento sussurra no meu ouvido...

E então meu amado retorna a mim
Sinto-o vinculado ao meu coração
Eis que devagar se aproxima
Posso até sentir sua vibração
Silencioso, cauteloso
Para em seguida
seguir seu rumo cabelo ao vento
nada poderá detê-lo
Homem,
Posso até afirmar
sem medo de errar
Eu já conheço esses passos...
em algum tempo nossos olhares já dançaram
e por ti já fui tocada,
é uma sensação forte
pois sinto-me vulnerável e atingida
feito um raio de luz
É assim que Deus pensou o amor?
E assim uma experiência divina?
(Fatima Vieira/ 2009)

quer dançar comigo?

"ASSIM É A VIDA TÃO ÓBVIA E SIMPLES
QUE CHEGA A CONFUNDIR
UNS A VIVEM TÃO CONCRETAMENTE FEITO PEDRA
OUTROS FAZEM POEMAS, AMAM, CANTAM E DANÇAM ..."
 (Fatima Vieira - 2001)

 

                                                         

por que eu estarei vivo nos meus filhos...

Aquilo que se acredita, se cumpre o homem é o seu projeto. Ele precisa viver com responsabilidade seus projetos.

Nenhuma escolha é gratuita, na medida em que tomo uma decisão não escolho somente por mim outros dependem de tais escolhas.

No dizer de Sartre, se escolho ser livre outros também o serão,

porém, se escolho ser escravo estarei escravizando a humanidade inteira. O homem está engajado na história e a sua liberdade é a liberdade do outro...

Opta-se sempre e o não optar por nada também é opção.

Enfim, estamos escolhendo sempre até chegarmos a morte que é nossa ferida existencial mais secreta, mas também é preciso morrer... O homem livre em é um ser para a morte.

(Fatima Vieira/ 1985)

o que minha alma ignora, é isso que quero possuir...

"Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?
Não quero a noite senão quando a aurora a faz em ouro e azul se diluir. O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir..."
(Fernando Pessoa)

domingo, 13 de setembro de 2009

hoje não há poemas...

São só letras
Sem significado
sem sentido
sem garra sem emoção
Hoje não há poemas
São só letras soltas
Quebradas
Cansadas
Que não se juntam em palavras
porque nascem já castradas
E estéreis morrem aqui
hoje não há poemas
Só cansaço!
(autor desconhecido)

domingo, 9 de agosto de 2009

Pai

(...) lembrei-me dos meus sentimentos antigos de pai, diante dos meus filhos adormecidos.
Veio-me à mente a imagem de um ninho... 
Bachelard Imaginou que, 'para o pássaro, o ninho é uma cálida e doce morada'. 
É uma casa de vida: continua a envolver o pássaro que sai do ovo.
Para este, o ninho é uma penugem externa antes que a pele nua encontre sua penugem corporal. 
Era isso que eu queria ser. Eu queria ser ninho para os meus filhos pequenos.
Queria que meu corpo fosse um ninho-penugem que os protegesse, um ninho que balança mansamente no galho de uma árvore ao ritmo de uma canção de ninar... 
Que felicidade enche o coração de um pai quando o filho que ele tem no colo se abandona e adormece!
Adormecida, a criança está dizendo: “tudo está bem; não é preciso ter medo“. Deitada adormecida nos braços-ninho do seu pai ela aprende que o universo é um ninho! Não importa que não seja! Não importa que os ninhos estejam todos destinados ao abandono e ao esquecimento! 
A alma não se alimenta de verdades. Ela se alimenta de fantasias. O ninho é uma fantasia eterna.
(...) Aquela cena, a criança adormecida nos braços do pai, nos reconduz à cena de uma criancinha adormecida na estrebaria de Belém! Tudo é paz! 
Desejaríamos que ela, a cena, não terminasse nunca! Que fosse eterna!
E serão os olhos do pai, no espaço que seus braços já não podem conter, que irão marcar os limites do ninho.
A criança se sente segura se, de longe, ela vê que os olhos do seu pai a protegem. Olhos também são colos. Olhos também são ninhos.
O que a criança deseja não é liberdade. O que ela deseja é excursionar, explorar o espaço desconhecido, desde que seja fácil voltar. 
Tela de Van Gogh. É um jardim. No lado direito do jardim, mãe e criança que acabam de chegar. Ao lado esquerdo o pai, jardineiro, agachado com os braços estendidos na direção do filho.
 É preciso que o pai esconda o seu tamanho, que ele esteja agachado para que seus olhos e os olhos do seu filho se contemplem no mesmo nível. A cena é como um acorde suspenso, que pede uma resolução.
A volta ao ninho é o momento que não se deseja.
Porque a vida não está no ninho, está no vôo. Os ninhos se transformam em gaiolas. É certo que o filho largará a mão da mãe e virá correndo para o pai...
 O tempo passa. Os pássaros tímidos aprendem a voar sem medo. Já não necessitam do olhar tranquilizador do pai.
 É a adolescência. Ser pai de um adolescente nada tem a ver com ser pai de uma criança. Pobre do pai que continua a estender os braços para o filho adolescente, como na tela de Van Gogh! Seus braços ficarão vazios.
 Como se envergonharia um adolescente se seu pai fizesse isso, na presença dos seus companheiros! 
É o horror de que os pássaros companheiros de vôo o vejam como um pássaro que gosta de ninho! Adolescente não quer ninho. Adolescente quer asas.
Os ninhos, agora, só servem como pontos de partida para vôos em todas as direções. Liberdade, voar, voar... 
E a fantasia pinta a cena final de felicidade que o pintor não pode pintar: o pai pegando o filho no colo, os dois rindo de felicidade...
Aos pais só resta contemplar, impotentes, o vôo dos filhos, sabendo que eles mesmos não podem ir. Nos espaços por onde seus filhos voam os ninhos são proibidos. Mas eles terão de voltar ao ninho, mesmo contra a vontade.
E o pai se tranquiliza e pode finalmente dormir ao ouvir, de madrugada, o barulho da chave na porta: 'Ele voltou...' Mas não é. 
Quem é pai tem o coração fora de lugar, coração que caminha, para sempre, por caminhos fora do seu próprio corpo. Caminha, clandestino, no corpo do filho.
Dito pela Adélia: 'Pior inferno é ver um filho sofrer sem poder ficar no lugar dele'
Dito pelo Vinícius, escrevendo ao filho: 'Eu, muitas noites, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua...
É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de uma criança.
 É impossível calcular a importância desses momentos efêmeros na vida de um pai.
 O efêmero e o eterno abraçados num único momento! 
'Conter o infinito na palma da sua mão e a eternidade em uma hora': o pai que tem o seu filho adormecido nos seus braços é um poeta! 
Essas palavras do poeta William Blake bem que poderiam ser suas.
 Um homem que guarda memórias de ninho na sua alma tem de ser um homem bom. Uma criança que guarda memórias de um ninho em sua alma tem de ser calma! 
Mas logo o pequeno pássaro começará a ensaiar seus vôos incertos. 
Agora não serão mais os braços do pai, arredondados num abraço, que irão definir o espaço do ninho.
 Os braços do pai terão de se abrir para que o ninho fique maior. 
Mas chega o momento quando os filhos partem para não mais voltar. 
Através da minha janela vejo um ninho que rolinhas construíram nas folhas de uma palmeira. A pombinha está chocando seus ovos.
Vejo sua cabecinha aparecendo fora do ninho. Mas numa outra folha da mesma palmeira há um outro ninho, abandonado.
 Esse é o destino dos ninhos, de todos os ninhos: o abandono.
 ... esse é o destino dos pais: a solidão. Não é solidão de abandono. E nem a solidão de ficar sozinho.
 É a solidão de ninho que não é mais ninho. E está certo. Os ninhos deixam de ser ninhos porque outros ninhos vão ser construídos. 
Os filhos partem para construir seus próprios ninhos e é a esses ninhos que eles deverão retornar.
 Assim é na natureza. Assim é com os bichos. Deveria ser conosco também.
 Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho.
 Eu mesmo sempre os empurrei para fora. Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas. 
Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira...
Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo..."
(Rubem Alves)