quinta-feira, 30 de maio de 2013

Ψ sobre a peste emocional - Wilhelm Reich

"... tem gente que machuca a gente, tem gente que não sabe amar,

 tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá.

... mas é claro que o sol vai voltar amanhã mais uma vez, eu sei

 escuridão já vi pior, de endoidecer  gente sã!" (composiçao: Renato Russo)


- Ψ *Escuta Zé Ninguém! - 1945: Reich fala sobre como o ser humano submete-se ao poder dominador e o sofrimento profundo que vem desta funesta submissão.

 - Fala também de amor e o seu poder transformador, onde o indivíduo conseguiria sair desta condição e seria mais saudável e feliz.
 
- Reich dizia que o Zé Ninguém estava doente, por ter medo de encarar a sua verdade, mas só ele poderia se libertar.

 
- A doença é o corpo que se retrai por medo da falta. Nos meios sociais é valorizado o que o individuo tem, para Reich essa avidez, essa busca desenfreada por satisfações ainda que efêmeras, se desvia da verdade, só ela pode nos ensinar a amar. Exigimos felicidade, mas a segurança é mais importante. 


- O amar exige cuidados. O Zé Ninguém obedece dogmas, não pensa por si e não suporta quem é livre.
 
- Reich fala sobre o encouraçamento e a incapacidade de amar: "O organismo encouraçado, se distingue do organismo não encouraçado essencialmente por uma barreira rígida que se interpõe entre seu núcleo biológico, fonte de todos os impulsos naturais, e o mundo no qual ele vive e age. Como resultado, todos os impulsos naturais e mais especificamente o impulso do amor, ficam bloqueados." (Reich, 1974)

 
- O recado de Reich: O ser humano está em demolição, mas ele dá uma boa notícia, que ele tem as ferramentas necessárias para a reconstrução. É possível encontrar na fé e no amor o poder de cura.

 
- Segundo Reich, se o organismo pudesse se expressar livremente, suas couraças se dissolveriam e seria capaz de amar.

- Reich acreditava na capacidade de autorregulação do organismo, ou seja, há uma força intrínseca em cada indivíduo que o impulsiona para o bem estar sempre que ele optar por uma vida natural e saudável e que as energias vitais organizam-se naturalmente quando livres das obrigações morais desnecessárias. É fácil constatar quando se ama. 

- Reich enfatiza um princípio básico; o indivíduo tem que acreditar no seu potencial, no seu poder realizador. É o que as religiões pregam como fé, só que para ele, não existiria nenhuma lei, nenhum clero detentor deste poder, (vemos que o pedágio da fé pode ser muito caro).

 
- A *peste emocional é uma biopatia crônica do organismo, que compromete o físico e o emocional. esse indivíduo relacionando-se com o meio social compromete toda a sociedade  ao mesmo tempo é contaminado por ela.

 
- A fofoca, a inveja, a difamação são os principais mecanismos usados em nossa sociedade pela 'peste emocional'.

- São aquelas pessoas que cuidam da vida dos outros, mas não conseguem administrar a própria. E tampouco suportam o sucesso alheio.

- São egocêntricas, manipuladoras, interesseiras, rancorosas, amarguradas, invejosas ou fracassadas, que exibem falta de consideração pelo outro com abusos verbais ou físicos.


- Pessoas muito perigosas de se conviver. São verdadeiros vampiros, sem luz própria, que consomem nossa energia vital, que exploram e manipulam pessoas de acordo com os seus interesses e vivem às custas da energia dos outros para se sustentarem.

 - Não suportam ser contrariados e confrontados. Quando o são, se vingam, perseguem a pessoa até 'livrarem-se' dela. Seu Ego é Superlativo para compensar a sua extrema falta de amor-próprio.

 - Usam as pessoas conforme seus interesses e, quando estas discordam de suas idéias, são descartadas e eliminadas, sem a menor consideração. 
 
- A "toxicidade" reside exatamente no fato de não nos darmos conta de que estamos sendo manipulados até o dia em que  despertamos e tomamos consciência de que estamos muito mal, morrendo por dentro, e que algo urgente necessita ser feito. Um corte se faz necessário

(e tem que ser radical!), para resgatar a nossa sanidade, saúde, alegria de viver.
 
- E acima de tudo, se possível, saber relevar, já dizia o Mestre: "eles às vezes não sabem mesmo o que fazem!"

Termos usados:
*COURAÇA DO CARÁTER - A soma total das atitudes caracteriais típicas que o indivíduo desenvolve como um bloqueio contra seus impulsos ("excitations") emocionais, resultando em rigidez corporal, perda de contato emocional, "amortecimento" ("deadness"). Funcionalmente idêntica à couraça muscular.
*COURAÇA MUSCULAR - A soma total das atitudes musculares (espasmos musculares crônicos) que o indivíduo desenvolve como um bloco contra a irrupção de emoções e sensações de órgão, particularmente angústia, raiva e excitação sexual.

*PESTE EMOCIONAL - O caráter neurótico atuando destrutivamente na cena social.

*CARÁTER NEURÓTICO - O tipo de caráter que, devido a uma estase bioenergética crônica, funciona em concordância com o princípio da regulação moral compulsiva. A [potência orgástica] sempre está ausente em indivíduos neuróticos. Ela pressupõe a presença ou o estabelecimento do caráter genital, ou seja, a ausência das patológicas couraça do caráter e couraça muscular. Geralmente, a potência orgástica não é [devidamente] diferenciada das potências eretiva e ejaculatória, as quais são apenas pré-requisitos para a potência orgástica.

 

Fonte: WEIL, Pierre, YVES, Jean Leloup
REICH, Wilhelm. Escuta, Zé ninguém. São Paulo: Martins Fontes, 1982.
(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

domingo, 12 de maio de 2013

... minha canção de amor para você é o meu corpo


 Eu canto uma canção de amor
a partir das pedras do meu corpo
dos picos mais altos das minhas montanhas
das areias quentes dos meus desertos

Eu acaricio com folhas verdes
plantas verdes
relvas verdes
Eu a banho em vegetais
alimento-a em meus seios
a Terra
Eu a acalmo com águas cintilantes


refresco-a em meus oceanos
Minha canção de amor para você
é o meu corpo
a Terra
para alimentá-la
vesti-la
acolhê-la 
(Pachamama - Amy Sophia Marashinsky)
(Fatima Vieira) 
 Imagem: Modelo Picture Window. Tecnologia do Blogger. http://cantinhodosdeuses.blogspot.com.br/2011_11_01_archive.html

domingo, 24 de março de 2013

Ψ Winnicott



Ψ outros fragmentos sobre o desejo...



 Ψ “Pessoas  sofridas são perigosas porque elas sabem que podem sobreviver.” (filme Perdas e Danos sobre o desejo).
 *no filme: ... quando ele encontra Anna pela primeira vez acende-se nele o inebriamento da sua paixão que o desembaraça das suas inibições e do recalque.

 - Desejo:
 (...) a força que nos põe em movimento, e dá o significado à existência.

- Para Freud, o passado, o presente e o futuro são entrelaçados pelo fio do desejo que os une. 

- No início era apenas fome... saciados ou não, é esta a imagem que ficará registrada.

- Mais tarde isso não bastará, a homeostase é pouco, DESEJA-SE muito além do princípio do prazer... 

- A * 'jouissance' transgride este limiar de homeostase e "coloca-se" para além do princípio de prazer, o prazer que deixou de ser possível quantificar e ficou em excesso. (*Em francês tem ainda uma forte conotação sexual: deleite, gozo, fruição; que se perdeu em inglês, onde é normalmente traduzido por "enjoyment", significando literalmente 'orgasmo') 

 - Se a 'jouissance' ordinária se atinge por 'ejaculação', a jouissance é uma' jaculação', isto é, um arremesso para o infinito e, ao mesmo tempo, um arremesso interminável. 

 - Se o prazer é desejo que obedece a um princípio de constância, a essa tendência do homem para reduzir as suas tensões através da satisfação do desejo, a 'jouissance' é tudo o que não permanece e tudo o que não permanece pré-ocupa-nos de tal forma que o prazer se torna numa proibição para não irmos além de um certo limite de jouissance. 

- Isto conduz a um certa tensão que é aquele sentimento de impotência perante a morte que todos experimentamos e que ameaça tornar-se o centro da vida -  em tudo equivalente ao instinto de morte que Freud identificou como o instinto por excelência por ser o que tende a reduzir completamente todas as tensões por via da autodestruição.

 - Este é o caminho da'jouissance' original: a pulsão de Tanatos (a personificação mitológica da morte a que Freud recorre para ilustrar o instinto de morte, regula a actividade psíquica de todo o sujeito em conflito consigo mesmo).

 - O desejo que ferve dentro de nós, as nossas pulsões explosivas que buscam uma satisfação, uma descarga (a qualquer preço).

 - Inventamos a vida para caber dentro dela e darmos conta da demanda. 

- Nas entrelinhas das nossas experiências, pensamentos e devaneios há muito mais do que a (nossa) ética reconhece.  

 - A vida segue e vamos dando as respostas neste contrato, fazendo arranjos, dando um 'jeitinho' de acordo com os desejos que nos habitam. Quando não respeitamos nosso desejo genuíno, criamos SINTOMA.

 - Freud diz que somos feitos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro. 
  Bibliografia: Alberto Eiguer: Des perversions sexuelles aux perversions morales: La jouissance et la domination (2001);
Carlos Ceia: Sexualidade e Literatura (2002); Didier Moulinier: Dictionnaire de la jouissance (1999);
Jacqueline Rose: Feminine Sexuality: Jacques Lacan and the École Freudienne, ed. por Juliet Mitchell e Jacqueline Rose, (1982); Jacques Lacan: Seminário XX (Encore) (1972-3);
Jacques-Alain Miller: Percurso de Lacan - Uma Introdução (2ª ed., Rio de Janeiro, 1988);
Pierre Boudot: La Jouissance de Dieu: ou, Le Roman courtois de Thérèse d'Avila (1979). 

(Fatima Vieira - Psicóloga Clínica)

domingo, 17 de março de 2013

Ψ ... nós raramente vemos as pessoas

Ψ "Se pudéssemos olhar dentro dos olhos das pessoas com a necessária profundidade, veríamos seus temores, sua dor, a sua tristeza e a sua raiva - todos os seus sentimentos.

Entretanto, esses são sentimentos que as pessoas não querem demonstrar. 

Nós procuramos esconder as nossas fraquezas tanto de nós mesmos quanto dos outros. 

Creio que agimos em conformidade com um acordo tácito: “Não olharei para dentro de sua alma se você não olhar para dentro da minha.” 

Nós consideramos uma questão de polidez não penetrar nas máscaras que as pessoas usam.

Conseqüentemente, nós raramente vemos as pessoas. 

Quando as pessoas se cumprimentam, elas raramente olham para dentro dos olhos umas das outras.

 Em resposta ao 'Como vai?', elas respondem de forma rotineira: 'Tudo bem.' ... 

O contato de olhar com olhar é não só uma forma de reconhecimento como também uma ligação energética com outra pessoa.

 Nós literalmente nos tocamos mutuamente com nossos olhos.

 Isto se deve ao fato de que os olhos, quando carregados, emitem um feixe energético. 

Pessoas sensíveis à aura que envolve o corpo humano podem efetivamente ver esse feixe, ao passo eu outras conseguem senti-lo fisicamente.

 Muitos indivíduos dizem poder sentir quando alguém está olhando para eles mesmo quando estão de costas.

 Se o feixe entre os olhos de duas pessoas for terno e afetuoso, poderá despertar um sentimento de amor dentro dos seus corações. Este é o fundamento da expressão “amor à primeira vista”... 

Todavia, os olhos não irradiam apenas amor, mas também raiva e ódio. Fala-se em 'mau-olhado', qualidade que se atribui a certas pessoas de causarem desgraça àqueles para quem olham...

Um olhar cheio de ódio pode ser suficientemente poderoso para congelar um indivíduo vulnerável.”

(O Olhar - Alexander Lowen)
Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

(...)

 
 "O sonho daqueles que sonham diz respeito
 àqueles que não sonham. 
Por que isso lhes diz respeito? 
Porque sempre que há o sonho do outro, há perigo.
 O sonho das pessoas é sempre um sonho devorador, que ameaça nos engolir. 
Que os outros sonhem é algo perigoso.
 O sonho é uma terrível vontade de potência.
Cada um de nós é mais ou menos vítima do sonho dos outros."
(Gilles Deleuze diz, em Qu'est-ce que l'acte de la création)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Irene Sheri

Irene Sheri nasceu em Belgorod-Dnestrovsky, Ucrânia, em 1968.
Graduada pela Academia de Arte de São Petersburgo, inspirou-se no trabalho de Boticelli, Chagall, Kandinsky, Picasso e Goya. Entretanto, Cézanne e Matisse produziram o maior impacto. Expoentes da Vanguarda Russa, como Falk, Konchalovsky, Mashkov e Lentulov, foram seguidores desses artistas franceses. O talento e o estilo de Sheri foi reconhecido em 2001, quando recebeu o maior  prêmio artístico da Rússia, a "Medalha Estatal por Extraordinária Realização na Arte".  (Fonte: http://www.terigalleries.com/sheri.shtml)
 
                                                                                                                                                                                            (Fatima Vieira)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

a insustentável leveza ...

Engenheiro elétrico turco radicado nos Estados Unidos ele fotografa várias formas de fumaça e, ao sobrepor as imagens, obtém as figuras desejadas.
Mehmet Ozgur adotou a fotografia como hobby e agora se dedica a registrar “esculturas” de fumaça. Ozgur conta que utiliza incensos e nitrogênio líquido para obter a fumaça. 
                                                                                                          (Fatima Vieira)

sábado, 26 de janeiro de 2013

Ψ JUNG - Sincronicidade I Ching


- Sentado no chão do pátio, à sombra de uma pereira centenária, o sábio lança varetas e consulta os oráculos do I Ching.

- Dia após dia, durante horas e horas, sem se cansar.

 - A cena descrita acima não se passa na China antiga, mas em um pequeno castelo na cidadezinha de Bollingen, na Suíça, durante o verão de 1920.

- O sábio é o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, um pioneiro no estudo do inconsciente humano no século 20.


Em 1920 começou a lançar as varetas proféticas. Foi amor à primeira consulta: "Encontrei relações cheias de sentido entre o que diziam os textos dos hexagramas e meus próprios pensamentos - fato que eu não conseguia explicar a mim mesmo", (Jung em Memórias, Sonhos, Reflexões).


 - Jung, acreditava que a mitologia e as religiões da Antiguidade podiam ajudar o homem a conhecer melhor sua própria alma.



- O fascínio do I Ching levou Jung a formular a teoria da "sincronicidade", segundo a qual, em determinadas ocasiões, paralelos emergem entre o mundo da mente e  o mundo real - paralelos que, segundo ele, a civilização ocidental chama de "mera coincidência".
- Para Jung, a coincidência não deve ser desprezada: o acaso, muitas vezes, faz sentido. A indicação de um determinado hexagrama pelo lançamento de varetas ou moedas pode parecer algo aleatório, mas também pode iluminar elementos ocultos no inconsciente de quem faz a consulta.

-  Mesmo quando o sentido das frases é ambíguo, o simples ato de refletir sobre elas pode levar o paciente ao autoconhecimento.


-  [...] "Não sendo um sinólogo, meu prefácio ao LIVRO DAS MUTAÇÕES terá que ser um testemunho da experiência pessoal com esse grande e único livro".

- Se o significado do Livro das Mutações fosse de fácil apreensão, a obra não precisaria de um prefácio.
- ...  há tantos pontos enigmáticos em seu conteúdo que os estudiosos ocidentais tenderam a considerá-lo como um conjunto de “fórmulas mágicas” que, ou seriam abstrusas demais para serem inteligíveis, ou careceriam de todo valor.

- Wilhelm, com auxílio dos seus estudos de filosofia e orientação do sábio  Lao-Nai-hsüan iniciou o estudo do i ching.

-  A apreensão do sentido vivo do texto dá à sua versão do I Ching uma profundidade de perspectiva que um conhecimento exclusivamente acadêmico da filosofia chinesa nunca poderia proporcionar.

- ... Tenho uma enorme dívida para com Wilhelm pelo esclarecimento que trouxe à complicada problemática do I Ching e também pelas intuições relativas à sua aplicação prática
".

- ...  Por mais de 30 anos, interessei-me por essa técnica oracular, ou método de explorar o inconsciente, que pareceu-me de excepcional significado.

- De modo a poder compreender de que trata esse livro, é indispensável deixar de lado certos preconceitos da mente ocidental.

- É curioso que um povo tão dotado e inteligente como o chinês nunca tenha desenvolvido o que chamamos ciência.

- Nossa ciência, entretanto, é baseada no princípio da causalidade, o qual é considerado uma verdade axiomática. Mas uma grande mudança está ocorrendo em nosso ponto de vista. O que a “Crítica da Razão Pura” de Kant não conseguiu, está sendo realizado pela física moderna.

- Os axiomas da causalidade estão sendo abalados em seus fundamentos: sabemos agora que o que denominamos leis naturais são meramente verdades estatísticas que supõem, necessariamente, exceções.

- Ainda não nos apercebemos que necessitamos do laboratório com suas decisivas limitações para demonstrar a validade invariável das leis naturais. Se deixarmos a natureza agir, veremos um quadro muito diferente: o acaso vai interferir total ou parcialmente em todo o processo, tanto assim que, em circunstâncias naturais, uma seqüência de fatos que esteja em absoluta concordância com leis específicas constitui quase uma exceção.


- A mente chinesa, como a vejo trabalhando no I Ching, parece preocupar-se exclusivamente com o aspecto casual dos acontecimentos.

- O que chamamos de coincidência parece ser o interesse primordial desta mente peculiar e o que cultuamos como causalidade passa quase desapercebido.

- Devemos admitir que há muito a dizer a respeito da imensa importância do acaso.

- Uma quantidade incalculável do esforço do homem visa a combater e limitar os incômodos ou perigos representados pelo acaso.

- Considerações teóricas de causa e efeito freqüentemente parecem fracas e pobres em comparação com os resultados práticos do acaso.

- É correto dizer que o cristal de quartzo é um prisma hexagonal. A afirmação é verdadeira quando se considera um cristal ideal; entretanto, na natureza não se encontram dois cristais exatamente iguais, ainda que todos sejam inequivocadamente hexagonais. A forma concreta, no entanto, parece interessar mais ao sábio chinês que a forma ideal.
- O emaranhado de leis naturais que constitui a realidade empírica é mais significativo para ele que uma explicação causal de fatos que, além disso, em geral devem ser separados uns dos outros para que possam ser adequadamente tratados.

- A maneira como o I Ching tende a encarar a realidade parece não favorecer nossa maneira causal de proceder.
-  O momento concretamente observado apresenta-se à antiga visão chinesa, mais como um acontecimento fortuito que o resultado claramente definido de um concordante processo causal em cadeia.

- A questão que interessa parece ser a configuração formada por eventos casuais no momento da observação e de modo nenhum as hipotéticas razões que aparentemente justificam a coincidência.

- Enquanto a mente ocidental cuidadosamente examina, pesa, seleciona, classifica e isola, a visão chinesa do momento inclui tudo até o menor e mais absurdo detalhe, pois tudo compõe o momento observado.

- Assim ocorre quando são jogadas as três moedas, ou quando se contam as 49 varetas; esses detalhes casuais entram no quadro do momento de observação e fazem parte dele – uma parte que para nós é insignificante, porém para a mente chinesa é de suma importância.

- Seria para nós uma afirmação banal e quase sem sentido (pelo menos à primeira vista) dizer que tudo que acontece num determinado momento tem inevitavelmente a qualidade peculiar àquele momento.

- Esse não é um argumento abstrato mas, ao contrário, muito prático.
- Alguns especialistas são capazes de determinar só pelo aspecto, gosto e comportamento de um vinho a sua procedência e o ano de sua origem.


- Existem conhecedores de antigüidades que podem afirmar com extraordinária precisão a data, o lugar de origem e o autor de um “objet d´art” ou de um móvel, simplesmente olhando-os.

- Existem astrólogos que podem dizer a uma pessoa, sem nenhum conhecimento prévio, a data de seu nascimento, qual era a posição do sol e da lua, e qual o signo que se encontrava sobre o horizonte no momento de seu nascimento. Diante de tais fatos é preciso admitir que os momentos podem deixar marcas duradouras.

- Em outras palavras, quem quer que tenha inventado o I Ching estava convencido de que o hexagrama obtido num determinado momento coincidia com esse momento tanto em qualidade quanto em tempo.
- Para ele o hexagrama era o intérprete do momento no qual era tirado – mais que as horas do relógio ou as divisões de um calendário -, uma vez que o hexagrama era compreendido como sendo o indicador da situação essencial que prevalecia no momento de sua origem.

- Essa suposição envolve um certo princípio curioso que denominei sincronicidade, conceito este que formula um ponto de vista diametralmente oposto ao da causalidade. A causalidade enquanto uma verdade meramente estatística não absoluta é uma espécie de hipótese de trabalho sobre como os acontecimentos surgem uns a partir dos outros, enquanto que, para a sincronicidade, a coincidência dos acontecimentos, no espaço e no tempo, significa algo mais que mero acaso, precisamente uma peculiar interdependência de eventos objetivos entre si, assim como dos estados subjetivos (psíquicos) do observador ou observadores.
- O pensamento tradicional chinês apreende o cosmos de um modo semelhante ao do físico moderno, que não pode negar que seu modelo do mundo é uma estrutura decididamente psicofísica. O fato microfísico inclui o observador tanto quanto a realidade subjacente ao I Ching abrange a subjetividade, isto é, as condições psíquicas dentro da totalidade da situação momentânea. Assim como a causalidade descreve a seqüência dos acontecimentos, a sincronicidade, para a mente chinesa, lida com a coincidência de eventos.

- O ponto de vista causal nos relata uma dramática história sobre como D chegou à existência: originou-se de C que existia antes de D, e C, por sua vez, teve um pai, B, etc. Por outro lado, a visão da sincronicidade tenta produzir uma representação igualmente significativa da coincidência. Como é que A, B, C, D, etc. aparecem todos no mesmo momento e no mesmo lugar? Isso acontece, em primeiro lugar, porque os eventos físicos A e B são da mesma qualidade dos eventos psíquicos C e D, e ainda porque todos são intérpretes de uma única e mesma situação momentânea. Assume-se que a situação representa um quadro legível ou compreensível.

- Os 64 hexagramas do I Ching são o instrumento pelo qual se pode determinar o significado de 64 situações diferentes, porém típicas. Essas interpretações são equivalentes a explicações causais.

- A conexão causal é estatisticamente necessária e pode, portanto, ser submetida à experiência. Uma vez que as situações são únicas e não podem ser repetidas,
não parece ser possível, em condições normais, realizar experiências com a sincronicidade.
- No I Ching, o único critério de validade da sincronicidade é a opinião do observador de que o texto do hexagrama eqüivale a uma interpretação fiel de sua condição psíquica.

- Supõe-se que a queda das moedas ou o resultado da divisão do conjunto de varetas de caule de milefólio é o que necessariamente deve ser uma “situação” dada, já que qualquer coisa que aconteça naquele momento pertence a ele como parte indispensável do quadro.
- Se um punhado de fósforos é jogado no chão, eles formam o padrão característico daquele momento. Porém, uma verdade tão óbvia como essa só revela seu caráter significativo se for possível ler o padrão e verificar sua interpretação, em parte pelo conhecimento, do observador, da situação objetiva e da subjetiva e, em parte, pelo caráter dos fatos subsequentes.


 - Obviamente esse não é um procedimento que atraia uma mente crítica, acostumada à verificação experimental de fatos ou à evidência factual. Mas para alguém que goste de olhar o mundo segundo a perspectiva da antiga China, o I Ching pode exercer alguma atração.  


  O  I Ching operando:
- (...)  Com esse propósito realizei uma experiência rigorosamente de acordo com a concepção chinesa: personifiquei, de certo modo, o livro, perguntando seu julgamento sobre sua situação atual, isto é, sobre minha intenção de apresentá-lo à mente ocidental.  

   - Utilizei o método de moedas e a resposta obtida foi o hexagrama 50 - Ting, O CALDEIRÃO.

- De acordo com a maneira como foi formulada minha pergunta, deve-se entender o texto do hexagrama como se o próprio I Ching fosse a pessoa que fala.

- Assim, ele descreve a si próprio como um caldeirão, isto é, como um recipiente de ritual contendo comida preparada. Deve-se entender comida, aqui, como alimento espiritual.


- Wilhelm diz a respeito: “O Ting, enquanto um utensílio pertencente a uma civilização refinada, sugere o cuidado e a alimentação dos homens capazes, o que resulta em benefício da nação…"
- Aqui a cultura atinge sua culminância na religião. O Ting serve para a oferenda de sacrifícios a Deus. Os mais elevados valores terrenos devem ser oferecidos em sacrifício a Deus…

- A suprema revelação de Deus encontra-se nos profetas e nos santos. Venerá-los é, na verdade, venerar a Deus. Os desígnios de Deus, manifestados através deles, devem ser aceitos com humildade”.


- Em meu hexagrama os “agentes espirituais” enfatizaram com um nove as linhas na segunda e terceira posições. Diz o texto:
Nove na segunda posição significa:
Há alimento no Ting.
Meus companheiros têm inveja,
mas nada podem contra mim.
Boa fortuna.


Assim, o I Ching diz de si mesmo: “Eu contenho alimento (espiritual)”. Como a participação em algo grande sempre desperta inveja, o coro dos invejosos é parte da cena. Os invejosos querem despojar o I Ching daquilo que ele possui de grandioso, isto é, procuram roubar ou destruir o seu significado. Mas essa hostilidade é em vão. Sua riqueza de significado está assegurada, isto é, o I Ching está seguro de suas positivas conquistas, as quais ninguém lhe pode tirar.  


O texto continua:
Nove na terceira posição significa:
A alça do Ting está alterada.
Ele é impedido em suas atitudes.
A gordura do faisão não é comida.
Quando a chuva cair, o remorso desaparecerá.
A boa fortuna virá ao final.

A alça (em alemão Griff) é a parte pela qual o Ting pode ser segurado (gegriffen). Portanto, significa o conceito (Begriff) que se tem do I Ching (o Ting). No decorrer do tempo, esse conceito aparentemente mudou, de modo que hoje já não podemos apreender (begreifen) o I Ching. 

Assim, “ele é impedido em suas atitudes”. Já não somos mais amparados pelo sábio conselho e pela profunda visão intuitiva do oráculo; por isso, não mais encontramos nosso caminho através das complexidades do destino e da escuridão de nossa própria natureza. Já não mais se come a gordura do faisão, isto é, a melhor e mais rica parte de um bom prato.

- Mas quando, finalmente, a terra sequiosa novamente receber a chuva, isto é, quando esse estado de carência for superado, o “remorso”, isto é, a tristeza pela perda da sabedoria tiver cessado, virá a tão esperada oportunidade. Wilhelm comenta: “Isso descreve alguém que, em meio a uma cultura muito desenvolvida, encontra-se numa posição em que não é notado nem reconhecido. Isso é um grande obstáculo à sua atuação”. O I Ching parece estar lamentando que suas excelentes qualidades não sejam reconhecidas e portanto permanecem inexploradas. Conforta-se com a esperança de recuperar, em breve, o reconhecimento.

- A resposta dada, nessas duas linhas de destaque, à pergunta que formulei ao I Ching não requer nenhuma sutileza especial de interpretação, nenhum artifício, nenhum conhecimento incomum. Qualquer pessoa com um pouco de bom senso pode compreender o significado da resposta; é a resposta de alguém que tem uma boa opinião sobre si próprio, mas cujo valor não é pela maioria reconhecido, nem sequer amplamente conhecido. 


- Quem responde tem uma noção interessante sobre si mesmo: se vê como um recipiente no qual as oferendas ao sacrifício são trazidas aos deuses, a comida do ritual destinada à sua alimentação. Concebe a si próprio como um utensílio de culto destinado a prover o alimento espiritual para os elementos ou forças inconscientes (“agentes espirituais”) que foram projetados como deuses – em outras palavras, para dar a essas forças a atenção que elas necessitam para desempenhar seu papel na vida do indivíduo. Na realidade, esse é o significado original da palavra “religio” – uma cuidadosa observação e consideração (de ”relegere”) do numinoso.

- O método do I Ching leva realmente em consideração a oculta qualidade individual existente nas coisas e nos homens e também no nosso próprio inconsciente.


"... aqueles a quem a ele não agradar não têm por que usá-lo, e quem se opuser a ele não é obrigado a achá-lo verdadeiro. Deixem-no ir pelo mundo para benefício dos que forem capazes de discernir sua significação." (Jung)

Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Dumitru Brodetsky

Brodetsky nasceu na URSS/ Moldávia em 1976. 
 "A pintura e as artes em geral são na verdade, os únicos canais de comunicação que ainda estão disponíveis para mim hoje. Isso é porque eu não sou um ser social, no sentido de tomar a realidade como ela é e simplesmente cumprir com as regras vigentes. Eu estou em constante negação de tudo o que é feio e mal no mundo, e meu protesto se manifesta nas pinturas que eu crio".