quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Ψ “A realidade é aquilo sobre o que a gente repousa para continuar a sonhar.” Lacan

 As Flores no Vaso
"(...) ela sabe que é necessário por flores no vaso constantemente: é preciso preencher o vazio com a beleza mais pura, mais gratuita, para que a vida tenha algum sentido e para aplacar a dor de existir."

*O filme 'As Horas' - Stephen Daldry - 2002, conta a história de três mulheres - Virginia Woolf, Laura Brown, Clarissa Vaughan - passada em três épocas diferentes, diante da vida e da morte.


*Três sujeitos diante da pulsão de morte e atravessados por três posições fantasísticas diversas: como as Horas da mitologia grega, Eunômia, Dicéa e Irene, elas podem representar o dia, o entardecer e a noite.

*Em 1923, cuidada por Leonard, um marido que a ama, Virginia Woolf é a noite: mulher melancólica, insone, inapetente, doente, tentando sobreviver, através de tratamento psiquiátrico, à ideação suicida e alucinações auditivas.
*Ela não se cuida, está absorta apenas em sua escrita, no seu romance, nas suas personagens.
*Sua relação com o marido, a irmã, os sobrinhos e as empregadas é distante, superficial, pois ela está tragada pela força de seu mundo interior.
*Tentou se matar duas vezes e na terceira consegue, afogando-se num rio com pedras no bolso do casaco.
*Virginia passou o último período da vida escrevendo Mrs. Dalloway e tentando dar um destino à personagem que não fosse a morte.
*Mas a morte é o grande interesse de Virginia, como na cena em que encontra-se deitada ao lado da ave morta, olhando-a após ter cercado o seu corpo com flores.
*Apenas a escrita de Virginia consegue dar um contorno fantasístico à sua vida, uma janela para o real.
*Mas eis que de dentro de sua própria fantasia de escritora, a morte lhe acena continuamente.
*Nem o intenso e dedicado amor de Leonard consegue deter esse fluxo inexorável de autodestruição.
*Leonard satisfazia todos os seus caprichos, tentando com isso dar-lhe todas as alegrias possíveis, mas seu desejo mais profundo era a morte.

 
*Em 1951, Laura Brown está lendo o romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf.
*Casada com um marido dedicado, tendo um filho adorável, morando num lindo bairro e numa casa perfeita, Laura está infeliz.
*Ela é uma mulher dividida e angustiada como o entardecer.
*Não quer aquela vida para ela, mas não sabe o que fazer senão matar-se para se ver livre daquela prisão de luxo.
*Aquela confortável prisão domiciliar não é a que lhe convém.
*O olhar de seu filho, Richard, parece compreendê-la todo o tempo -  ele se tornará um importante poeta.
*Chega a ir até um hotel para ingerir frascos inteiros de remédios e desaparecer, mas é contida pelo apelo da vida apenas embrionária da filha
que está começando a gestar.
*Decide ir embora depois que a filha nascer: não aguentou, não teve escolha, era ir embora ou morrer.
*Escolheu finalmente a vida, abandonou aquela redoma que não a protegia de si mesma e inventou uma nova fantasia: foi ser bibliotecária no Canadá.
*Seu marido morreria jovem de câncer, assim como essa filha.
*Richard, seu filho poeta, se mataria com aids em estágio terminal, dizendo que não queria mais enfrentar as horas.
*Quando jovem, ele fora amante de Clarissa Vaughan e agora era o seu melhor amigo.

*Clarissa vive em Nova York em 2001, é editora, tem uma filha adulta e uma namorada com quem partilha uma casa.
*Sempre ocupada com seus afazeres domésticos, ela organiza com detalhes a festa na qual Richard, já na fase mais adiantada da doença, seria homenageado com um prêmio pelo conjunto de sua obra, marcando os lugares das mesas e cozinhando.
*Sua fantasia está preservada e é sempre renovada, pelo trabalho, pela amizade, pelo amor.
*O olhar de Clarissa está sempre iluminado, brilhando, refletindo a luz do dia.
*Nem mesmo a morte de Richard abalaria a felicidade que conquistava em cada momento de seus dias.
*Clarissa se apega a seus objetos amorosos, constrói sua fantasia incessantemente e não abre mão dela.
*Antes de ir para a cama à noite, seu olhar acaricia amorosamente a sua casa, um verdadeiro lar.
*Ele está sempre repleto de vasos com flores: apesar da morte, da perda do amigo, da dor do encontro com Laura Brown que veio para o enterro do filho, do desencontro contínuo imposto pela vida, ela consegue fantasiar e sonhar.
*Ela sabe que é necessário pôr flores no vaso constantemente: é preciso preencher o vazio com a beleza mais pura, mais gratuita, para que a vida tenha algum sentido e para aplacar a dor de existir. E as flores bem simbolizam aquilo que na natureza expressa a transitoriedade inerente à felicidade.
*Das três Horas, apenas a ela se aplica a formulação de Lacan: “A realidade é aquilo sobre o que a gente repousa para continuar a sonhar.”


Fonte: A Clínica do Amor - Jorge Sesarino -  PsicoDom, v.2, n.2, jun. 2008 
Ψ Fatima Vieira - Psicóloga Clínica

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